Outro dia conversava com um amigo sobre “canais de recepção”. Se me faço entender, o assunto nada tinha a ver com conexões eletrônicas, televisão, internet, celular. Falávamos de nossas habilidades para apreender/captar o mundo. Não fugindo à regra do “ser masculino”, ele me disse que absorve a vida através do olhar. Como bom voyeur, está sempre ligado na sedução das imagens que alimentam seu imaginário. Não foi à toa que Baudelaire escreveu o poema “A une passante”, dedicado a uma mulher desconhecida que lhe cruzara o caminho. A “Garota de Ipanema”, de Tom e Vinicius, é novamente o voyeurismo do macho revivenciado no trópico.
“Um tom pra cantar/um tom pra falar/um tom pra viver/ um tom para a cor/um tom para o som/ um tom para o ser”, canta Caetano. Minha percepção do mundo se dá pelo som. Música pra mim tem cheiro, sabor, forma, cor e perfume. Tatuei no ombro esquerdo um violão azul e no punho direito uma clave de sol para que a música fique eternizada na memória de meu corpo.
A relação entre som e cor me instiga desde os tempos em que passava as tardes na casa do meu saudoso amigo, o pintor Dnar Rocha. Ele pedia-me para que cantasse e tocasse qualquer canção que me batesse forte enquanto ia misturando as tintas e elaborando os primeiros traços de um novo trabalho. Apaixonado por Orlando Silva, Dnar adorava me contar as histórias do cantor das multidões. Em algumas ocasiões aparentava certa nostalgia, mas antenado que era não deixava passar incólume por seu humor cáustico tudo o que invadia seus olhos e ouvidos. “Daniela, eu vi no mapa um lugar chamado Batatais, gostei do nome, tô pensando em me mudar pra lá.”
Uma saudade do Dnar tomou conta de mim quando recentemente visitei no Paço Imperial, no Rio, a exposição “A imagem do som do samba”. Artes visuais e música se unem sob o olhar de oitenta artistas plásticos que fazem leituras de oitenta sambas. Esse trabalho dialógico é original em seu caráter inventivo. Composições esquecidas ou cristalizadas no inconsciente coletivo, como “Ai, que saudade da Amélia!”, de Ataulfo Alves e Mário Lago, ganham interpretações revigoradas.
Devido ao inesperado da visita, não carregava minha máquina fotográfica. Para não perder as imagens fui anotando no caderninho alguns detalhes das obras correspondentes às canções que mais me sensibilizavam. Ao lado de cada tela, foto ou instalação havia um fone para que o visitante participasse com todos os seus sons e sentidos.
Essa exposição é o prolongamento de outras realizadas com a mesma proposta. Caetano Veloso, Tom Jobim, Chico Buarque e Gilberto Gil tiveram antes seus versos e melodias viradas do avesso. A riqueza da obra desses artistas possibilitou uma multiplicidade de olhares. A predominância do foco na questão urbana, como é o caso de Chico Buarque, não impediu que despontassem interpretações absolutamente distintas.
Em “A imagem do som do samba” optei por seguir fielmente o trajeto delimitado pelos curadores. Fui ouvindo as canções na seqüência da disposição espacial das obras. Uma das interpretações que mais me chamou atenção foi a de Irene Peixoto. A artista imprimiu sua marca na leitura de “Mora na filosofia”, de Monsueto e Arnaldo Passos: “Mora na filosofia pra que rimar amor e dor/ Se seu corpo ficasse marcado/ por lábios ou mãos carinhosas/ eu saberia (ora vá mulher)/ a quantos você pertencia/ Não vou me preocupar em ver/ seu caso não é de ver pra crer: ta na cara...” Irene apresenta a foto de um homem nu em posição fetal repleto de carimbos com frases de filósofos e imagens de posições sexuais. A interpretação de Caetano ganha em pulsação erótica na obra que sobrepõe pensamentos e corpos em cópulas sobre o corpo que nasce.
A exploração do tema amoroso é constante na maior parte dos trabalhos, o que não foge à regra da história do cancioneiro nacional. Amores impossíveis, relacionamentos desfeitos, brigas, lágrimas, uniões, um carnaval de dor e prazer contamina o universo dos nossos sambas. É notável a maneira como esses artistas tentam fugir do lugar comum, “A voz do morro” de Zé Kéti é revista sob a ótica da violência conforme representa a metralhadora fotografada por Rodrigo Lopes: “Eu sou o samba/ A voz do morro sou eu mesmo sim senhor/Quero mostrar ao mundo que tenho valor/ Eu sou o rei dos terreiros/ Eu sou o samba sou natural aqui do Rio de Janeiro/ Sou eu quem leva alegria para milhões/ De corações brasileiros”.
Heloísa Faria brinda a alegria tropical de “Brasil Pandeiro” (Assis Valente) interpretada pelos Novos Baianos. Abusando do kitsch, a artista enche uma taça com purpurina nas cores da bandeira nacional. Entre ondas de azul, verde e amarelo se fixa um pequeno pandeirinho que convida o espectador a entrar no ritmo: “Brasil, esquentai vossos pandeiros/ Iluminai os terreiros que nós queremos sambar”.
Caminhar pelos interstícios da subjetividade foi a opção de Jair de Oliveira ao ler “Falsa Baiana” (Geraldo Pereira) na interpretação magistral de João Gilberto: “Baiana que entra no samba e só fica parada/ Não samba, não dança, não bole nem nada/ Não sabe deixar a mocidade louca/ Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira/ Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras/ Deixando a moçada com água na boca”. Aos olhos e ouvidos de Jair a “falsa baiana” não transcende o plano imaginário – e ele expõe apenas uma cadeira vazia que o espectador ocupa com sua própria baiana imaginada.
Representação delicada leva o samba “Quantas lágrimas”, de Manacéa. A interpretação de Cristina Buarque é valorizada com o grande painel fotográfico do artista Rafael Jacinto. A obra apresenta três belas mulheres na faixa dos trinta anos com as faces avermelhadas de choro. A força da imagem elimina o ar meio passadista da canção: “Só melancolia os meus olhos trazem/ Ai, quanta saudade a lembrança faz/ Se houvesse retrocesso na idade/ Eu não teria saudade da minha mocidade”.
Vou relendo minhas anotações e tentando reconstruir imagens. Sou invadida por uma saudade intensa do Dnar. Música e artes plásticas são uma coisa só, não preciso ir a Batatais para conferir.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Caetano, sempre ele
Estou para escrever sobre Caetano faz tempo, mas o texto teimava em não sair: Os ícones costumam me assustar. Andava meio de mal com o Caê desde os tempos do “Circuladô” – achei que ele havia encerrado ali sua carreira gloriosa. O Caetano que se transformou em pensador da cultura brasileira em “Verdade Tropical”, filósofo midiático, entusiasta de Fernando Henrique e intérprete de “Sozinho” do Peninha, era uma figura bastante diferente da que eu e tantos outros fãs conheciam.
Essa relação de amor e ódio que vim nutrindo pelo baiano se renovou em paixão de descoberta. E como é deliciosa essa sensação de encontro total. Com um disco, um livro, um amigo, um namorado, uma tarde de sol, uma noite de lua, um segundo de contemplação. Vem à minha mente o belo conto “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector. Nele a autora descreve com seu lirismo intenso e delicado o encontro de amor entre uma menina e o livro “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato. O enlevo e a surpresa invadem o momento do encontro epifânico, que não resisto em transcrever:
“Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante”.
Caetano é um clariceano de carteirinha, que compôs “O nome da cidade” inspirado na personagem Macabéa. Que mistério tem Caetano? O meu affair tem se dado com “Cê”, o mais recente trabalho do artista lançado em cd de estúdio, ao vivo e dvd. “Minha música vem da/ Música da poesia de um poeta João que/ Não gosta de música/ Minha poesia vem/ da poesia da música de um João músico que/ Não gosta de poesia”. Talvez um pouco João Gilberto, um pouco João Cabral, talvez tanto, já que o “leão de fogo” sempre quis muito e jamais pareceu ser modesto.
Em “Cê” Caetano dialoga com o álbum “Transa” de 1972 e regrava composições como “Nine out of ten” e “You don’t know me”. “Cê” é um disco de rock, mas com o apuro minimalista que leva a assinatura Caetano Veloso. “Cê” prima pela economia sonora que já vem anunciada no título, segundo o compositor “Cê” simboliza a inicial de seu nome, uma marca da fala coloquial e também a força da concisão silábica.
“Cê” tem como uma das maiores virtudes o som “sujo”, meio pesado. Ao lado dos jovens músicos Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcello Callado, Caetano une a sabedoria e experiência à novidade, resultando num mix no mínimo muito original.
Depois de “ser neguinha” e “mulato franzino”, Caetano se mostra muito masculino em “Cê”. Mas camaleônico que é, desliza intencionalmente indo contra a via e nadando contra a maré em “Amor mais que discreto”, composição assumidamente gay: “Talvez haja entre nós o mais total interdito/Mas você é bonito o bastante, complexo o bastante/bom o bastante pra tornar-se ao menos por um instante/ o amante do amante que antes de te conhecer/Eu não cheguei a ser.” A onipresença da masculinidade nas demais canções sinaliza o ânimus de Cê/Caetano em busca de uma desconstrução/afirmação identitária.
Repleto de metáforas sexuais, o disco é uma solitária ode ao, vamos dizer, entusiasmo erótico. O compositor celebra suas musas em composições dionisíacas como “Deusa urbana”, “Outro”, “Musa híbrida”, “Odeio” e “Rocks”. Entendo agora a afobação de Luana Piovani ao querer espalhar pelos mil cantos do mundo que “Um sonho” foi dedicada a ela. Ironicamente Caetano confirma a dedicatória à musa global, porém diz que é parcialmente inspirada. Ah bruta flor do querer!
“Um sonho” é a canção mais lírica do cd, belíssima em sua riqueza de jogos metafóricos: lua/fruta flor folhuda/ ah! A trilha de alcançar-te/ galho, mulher, folho, filhos/ malha de galáxias/ tua pele se espalha/ ao som de minha mão/ traçar-lhe rotas/ teu talho, meu malho/ teu talho, meu malho/ o ir e vir de tua/ o ir e vir de tua ilha/lua/toda a minha chuva/ todo o meu orvalho/ cai sobre ti”.
O desejo vivido ou interdito é descarregado nas composições que esmiúçam muitos detalhes da sexualidade feminina. Em “Homem” Caetano expressa o seu complexo orgástico, ao mesmo tempo em que se orgulha de sua masculinidade. Permanece o “homem comum enganado entre a dor e o prazer” de “Peter Gast”: “Não tenho inveja da maternidade/nem da lactação/não tenho inveja da adiposidade/nem da menstruação/só tenho inveja da longevidade e dos orgasmos múltiplos/ Eu sou homem/ pele solta sobre o músculo/ eu sou homem/ pelo grosso do nariz”.
A sensualidade desponta em “Deusa urbana”, canção onde se percebe o quanto Caetano está cantando bem: diga-se de passagem, cada vez melhor. Ele ousa nos falsetes que resultam num contraponto interessante entre o som mais cru da levada rock e as nuances melódicas. Entre a audácia e o recuo o artista se atira aos prazeres da musa: “Com você eu tenho medo de me conformar/ Eu tenho mesmo medo de não me conformar/ sexo heterodoxo, lapsos de desejo/ quando eu vejo o céu desaba sobre nós/ mucosa roxa/peito cor de rola/ seu beijo, seu texto, seu queixo, seu pêlo/ sua coxa”.
O Caetano que fez sua língua “roçar na língua de Luís de Camões” volta a brincar com as origens em “Por quê?”, composição com letra em três versos que em tom de humor conduz em som o momento do gozo de um português. Ele canta com sotaque lusitano e a música acompanha o movimento até a chegada do êxtase: “estou me a vir/ e tu como é que te tens por dentro?/ por que não te vens também?”
Em meio à profusão de partes lúbricas, Caetano compôs uma contundente homenagem ao poeta, letrista e agitador cultural Waly Salomão. O espírito dionisíaco desse outro baiano é evocado numa espécie de mantra. Sobressai a beleza do arranjo da canção que faz um casamento perfeito com a letra. “Waly Salomão” é uma elegia com o pulsar firme do bumbo: “findaste o teu desenho/ e a tua marca resplandece/resplandece nítida e real/entre livros e os tambores de Vigário Geral/ e o brilho não é pequeno”.
Fazer as pazes com o passado e seguir buscando incessantemente um lugar no futuro parece ser o lema do artista. Ele tenta se reconciliar poeticamente com a ex-mulher Paula Lavigne “não, nada irá nesse mundo/ apagar o desenho que temos aqui/ nem o maior dos seus erros/meus erros, remorsos, o farão sumir” e vivenciar seu processo de envelhecimento em harmonia e criação. O “homem velho” Caetano é na verdade muito jovem e segue “sempre em frente deixando sua errática marca de serpente”.
Essa relação de amor e ódio que vim nutrindo pelo baiano se renovou em paixão de descoberta. E como é deliciosa essa sensação de encontro total. Com um disco, um livro, um amigo, um namorado, uma tarde de sol, uma noite de lua, um segundo de contemplação. Vem à minha mente o belo conto “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector. Nele a autora descreve com seu lirismo intenso e delicado o encontro de amor entre uma menina e o livro “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato. O enlevo e a surpresa invadem o momento do encontro epifânico, que não resisto em transcrever:
“Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante”.
Caetano é um clariceano de carteirinha, que compôs “O nome da cidade” inspirado na personagem Macabéa. Que mistério tem Caetano? O meu affair tem se dado com “Cê”, o mais recente trabalho do artista lançado em cd de estúdio, ao vivo e dvd. “Minha música vem da/ Música da poesia de um poeta João que/ Não gosta de música/ Minha poesia vem/ da poesia da música de um João músico que/ Não gosta de poesia”. Talvez um pouco João Gilberto, um pouco João Cabral, talvez tanto, já que o “leão de fogo” sempre quis muito e jamais pareceu ser modesto.
Em “Cê” Caetano dialoga com o álbum “Transa” de 1972 e regrava composições como “Nine out of ten” e “You don’t know me”. “Cê” é um disco de rock, mas com o apuro minimalista que leva a assinatura Caetano Veloso. “Cê” prima pela economia sonora que já vem anunciada no título, segundo o compositor “Cê” simboliza a inicial de seu nome, uma marca da fala coloquial e também a força da concisão silábica.
“Cê” tem como uma das maiores virtudes o som “sujo”, meio pesado. Ao lado dos jovens músicos Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcello Callado, Caetano une a sabedoria e experiência à novidade, resultando num mix no mínimo muito original.
Depois de “ser neguinha” e “mulato franzino”, Caetano se mostra muito masculino em “Cê”. Mas camaleônico que é, desliza intencionalmente indo contra a via e nadando contra a maré em “Amor mais que discreto”, composição assumidamente gay: “Talvez haja entre nós o mais total interdito/Mas você é bonito o bastante, complexo o bastante/bom o bastante pra tornar-se ao menos por um instante/ o amante do amante que antes de te conhecer/Eu não cheguei a ser.” A onipresença da masculinidade nas demais canções sinaliza o ânimus de Cê/Caetano em busca de uma desconstrução/afirmação identitária.
Repleto de metáforas sexuais, o disco é uma solitária ode ao, vamos dizer, entusiasmo erótico. O compositor celebra suas musas em composições dionisíacas como “Deusa urbana”, “Outro”, “Musa híbrida”, “Odeio” e “Rocks”. Entendo agora a afobação de Luana Piovani ao querer espalhar pelos mil cantos do mundo que “Um sonho” foi dedicada a ela. Ironicamente Caetano confirma a dedicatória à musa global, porém diz que é parcialmente inspirada. Ah bruta flor do querer!
“Um sonho” é a canção mais lírica do cd, belíssima em sua riqueza de jogos metafóricos: lua/fruta flor folhuda/ ah! A trilha de alcançar-te/ galho, mulher, folho, filhos/ malha de galáxias/ tua pele se espalha/ ao som de minha mão/ traçar-lhe rotas/ teu talho, meu malho/ teu talho, meu malho/ o ir e vir de tua/ o ir e vir de tua ilha/lua/toda a minha chuva/ todo o meu orvalho/ cai sobre ti”.
O desejo vivido ou interdito é descarregado nas composições que esmiúçam muitos detalhes da sexualidade feminina. Em “Homem” Caetano expressa o seu complexo orgástico, ao mesmo tempo em que se orgulha de sua masculinidade. Permanece o “homem comum enganado entre a dor e o prazer” de “Peter Gast”: “Não tenho inveja da maternidade/nem da lactação/não tenho inveja da adiposidade/nem da menstruação/só tenho inveja da longevidade e dos orgasmos múltiplos/ Eu sou homem/ pele solta sobre o músculo/ eu sou homem/ pelo grosso do nariz”.
A sensualidade desponta em “Deusa urbana”, canção onde se percebe o quanto Caetano está cantando bem: diga-se de passagem, cada vez melhor. Ele ousa nos falsetes que resultam num contraponto interessante entre o som mais cru da levada rock e as nuances melódicas. Entre a audácia e o recuo o artista se atira aos prazeres da musa: “Com você eu tenho medo de me conformar/ Eu tenho mesmo medo de não me conformar/ sexo heterodoxo, lapsos de desejo/ quando eu vejo o céu desaba sobre nós/ mucosa roxa/peito cor de rola/ seu beijo, seu texto, seu queixo, seu pêlo/ sua coxa”.
O Caetano que fez sua língua “roçar na língua de Luís de Camões” volta a brincar com as origens em “Por quê?”, composição com letra em três versos que em tom de humor conduz em som o momento do gozo de um português. Ele canta com sotaque lusitano e a música acompanha o movimento até a chegada do êxtase: “estou me a vir/ e tu como é que te tens por dentro?/ por que não te vens também?”
Em meio à profusão de partes lúbricas, Caetano compôs uma contundente homenagem ao poeta, letrista e agitador cultural Waly Salomão. O espírito dionisíaco desse outro baiano é evocado numa espécie de mantra. Sobressai a beleza do arranjo da canção que faz um casamento perfeito com a letra. “Waly Salomão” é uma elegia com o pulsar firme do bumbo: “findaste o teu desenho/ e a tua marca resplandece/resplandece nítida e real/entre livros e os tambores de Vigário Geral/ e o brilho não é pequeno”.
Fazer as pazes com o passado e seguir buscando incessantemente um lugar no futuro parece ser o lema do artista. Ele tenta se reconciliar poeticamente com a ex-mulher Paula Lavigne “não, nada irá nesse mundo/ apagar o desenho que temos aqui/ nem o maior dos seus erros/meus erros, remorsos, o farão sumir” e vivenciar seu processo de envelhecimento em harmonia e criação. O “homem velho” Caetano é na verdade muito jovem e segue “sempre em frente deixando sua errática marca de serpente”.
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
Dona Ercy, Elis & Tio Luiz
Há coisas que até Deus duvida, como diz o samba. Há cantores e cantores: O Rei da Voz, o Ditador de Sucessos, A Sambista Diferente, A Favorita da Marinha, O Caboclinho Querido, A Cançonetista das Dunas do Barato, A Princesinha do Baião, enfim, graças a Deus, sempre houve o rótulo. Elis é o fácil e o difícil. Elis é o avião e o helicóptero. Elis é a cidade e o campo. Elis é o amor e o desamor. Elis é o Conjunto e a Banda. Elis é o Olympia e o Canecão. Elis é o Deus e o astronauta. Elis é a forma e o fundo. Elis é Lupicínio, Elis é Sueli. Elis é Lovestory e Polansky, Elis é o riso e o trauma. Elis é 50, é 60, é 70. Enfim, Elis é o enigma, doce enigma.
Na última quinta-feira, 17 de março, Elis Regina teria feito 60 anos. Ídolo em todo o Brasil, ela sempre fez parte da vida de minha família. Era referência muito próxima, velha amiga-estrela, paradigma de qualidade no item interpretação. Meu falecido tio, Luiz Affonso Pedreira, apreciador das artes e grande amigo de muitos artistas de Juiz de Fora e de vários cantos do país, como Carlos Bracher, Sueli Costa, Gutemberg Guarabira, Affonso Romano de SantAnna e outros, era um aficcionado por Elis e, não por acaso, o parágrafo de abertura desta crônica foi extraido de um texto apaixonado que ele publicou em 1972.
Tio Luiz Affonso possuía todos os seus discos. Mais tarde, quando eu já tinha idade para entender e também apreciar em comum o “Furacão Elis”, descobri que ele não possuía somente isso, mas também uma série de encartes, programas de shows, revistas, fotos e vídeos. Além de tudo, era uma memória viva, pois assistira a shows fantásticos e históricos como “Falso Brilhante” e “Saudades do Brasil”. Seu porte elegante e discreto, lembrava muitas vezes Mastroianni, embora seu apelido entre os mais chegados fosse “Anitona”. Não por ser afeminado, mesmo porque tio Luiz Affonso não levava “jeito na matéria”, mas por ser fã de Fellini e citar sempre Anita Ekberg entrando na Fontana di Trevi, naquela famosa cena noturna de “La dolce vita”.
Conversávamos certo dia em sua “cinemateca”, a sala de “ver bons filmes” que existia em seu apartamento, quando ele tira subitamente do armário um envelope enorme e pesado e dali surge um mundo de Elis Reginas. Eram jornais, revistas e programas de shows que não acabavam mais. Para uma adolescente de 17 anos, a euforia era equivalente à de Alice no País das Maravilhas: com direito a chave do tempo e tudo o mais, eu podia retroceder anos de um passado que jamais vivera.
Inicialmente, não entendi tamanha generosidade. Pensei que o material fosse apenas um empréstimo com direito a cópias xerocadas, e não um presente. Todos admiraram seu gesto de confiança, deixar um tesouro construído por décadas nas mãos de uma menina. Mas não é que anos mais tarde tudo se justificaria na pequena mostra que realizei na Universidade Federal de Juiz de Fora? Foi, de certa forma uma homenagem aos dois, Elis & Tio Luiz. Uma oportunidade de mostrar meu acervo, devidamente ampliado com o tempo, aos universitários, à cidade e principalmente a um emocionadíssimo Tio Luiz.
A partir daí, fui aos poucos me transformando em estudiosa do fenômeno Elis. A paixão de adolescente amadureceu em amor pelo assunto e em constantes pesquisas sobre o objeto amado. E também em muitas alegrias: o contato com historiadores, músicos e críticos de várias partes do país, como Walter Silva, Zuza Homem de Mello e muitos outros. Mas alegria mesmo, e das maiores, foi quando em abril do ano passado encontrei-me em São Paulo com dona Ercy Carvalho Costa. Ela mesma, a mãe de Elis.
Bem-humorada e atenta às coisas do mundo, com voz firme e jovem aos 84 anos, ela assistia ao programa de Raul Gil. Sim, do próprio. É sua diversão predileta nas tardes de sábado, pois até pouco tempo costumava freqüentar alguns desses programas e ficar bem escondidinha para ninguém reconhecê-la. Um dia, Fábio Junior avistou-a de longe e a convidou para ir ao palco: “até que não foi assim tão desagradável, Fábio Junior é simpático, gosto dele”. O fascínio por essa diversão parece ser, de certa maneira, uma tentativa de perpetuar o laço com a filha. Manter intacto, ao menos na memória, o tempo em que iam juntas aos programas de auditório.
Dona Ercy adora bordar e, muito habilidosa, bordava um enorme tapete de palhaço para o bisneto que iria chegar, filho de Maria Rita. Ela vai conduzindo sua vida com sabedoria e serenidade. Fizera para a filha de Elis uma roupinha, agora repete o ofício para o filho dela, seu bisneto. Elis também gostava de bordar. Talvez, se viva fosse, estivesse também bordando alguma coisa para o neto que iria nascer.
Saí da casa de Dona Ercy refletindo sobre o quão longe chegou a paixão adolescente. Tanto que cheguei até à mater-matrix, geradora do mito. Fico pensando como tio Luiz Affonso ficaria feliz se soubesse disso. Mesmo assim me recordo que em sua distinção sempre quis manter a aura de fã à distância, com medo de quebrar o mito. Certa vez, num dos shows, Elis desceu do palco e cantou sentada bem ao seu lado durante um tempo infinito. Ele preferiu manter os olhos fechados, para não quebrar o sonho. Tão longe, tão perto.
Há coisas que até Deus duvida, como diz o samba. Há cantores e cantores: O Rei da Voz, o Ditador de Sucessos, A Sambista Diferente, A Favorita da Marinha, O Caboclinho Querido, A Cançonetista das Dunas do Barato, A Princesinha do Baião, enfim, graças a Deus, sempre houve o rótulo. Elis é o fácil e o difícil. Elis é o avião e o helicóptero. Elis é a cidade e o campo. Elis é o amor e o desamor. Elis é o Conjunto e a Banda. Elis é o Olympia e o Canecão. Elis é o Deus e o astronauta. Elis é a forma e o fundo. Elis é Lupicínio, Elis é Sueli. Elis é Lovestory e Polansky, Elis é o riso e o trauma. Elis é 50, é 60, é 70. Enfim, Elis é o enigma, doce enigma.
Na última quinta-feira, 17 de março, Elis Regina teria feito 60 anos. Ídolo em todo o Brasil, ela sempre fez parte da vida de minha família. Era referência muito próxima, velha amiga-estrela, paradigma de qualidade no item interpretação. Meu falecido tio, Luiz Affonso Pedreira, apreciador das artes e grande amigo de muitos artistas de Juiz de Fora e de vários cantos do país, como Carlos Bracher, Sueli Costa, Gutemberg Guarabira, Affonso Romano de SantAnna e outros, era um aficcionado por Elis e, não por acaso, o parágrafo de abertura desta crônica foi extraido de um texto apaixonado que ele publicou em 1972.
Tio Luiz Affonso possuía todos os seus discos. Mais tarde, quando eu já tinha idade para entender e também apreciar em comum o “Furacão Elis”, descobri que ele não possuía somente isso, mas também uma série de encartes, programas de shows, revistas, fotos e vídeos. Além de tudo, era uma memória viva, pois assistira a shows fantásticos e históricos como “Falso Brilhante” e “Saudades do Brasil”. Seu porte elegante e discreto, lembrava muitas vezes Mastroianni, embora seu apelido entre os mais chegados fosse “Anitona”. Não por ser afeminado, mesmo porque tio Luiz Affonso não levava “jeito na matéria”, mas por ser fã de Fellini e citar sempre Anita Ekberg entrando na Fontana di Trevi, naquela famosa cena noturna de “La dolce vita”.
Conversávamos certo dia em sua “cinemateca”, a sala de “ver bons filmes” que existia em seu apartamento, quando ele tira subitamente do armário um envelope enorme e pesado e dali surge um mundo de Elis Reginas. Eram jornais, revistas e programas de shows que não acabavam mais. Para uma adolescente de 17 anos, a euforia era equivalente à de Alice no País das Maravilhas: com direito a chave do tempo e tudo o mais, eu podia retroceder anos de um passado que jamais vivera.
Inicialmente, não entendi tamanha generosidade. Pensei que o material fosse apenas um empréstimo com direito a cópias xerocadas, e não um presente. Todos admiraram seu gesto de confiança, deixar um tesouro construído por décadas nas mãos de uma menina. Mas não é que anos mais tarde tudo se justificaria na pequena mostra que realizei na Universidade Federal de Juiz de Fora? Foi, de certa forma uma homenagem aos dois, Elis & Tio Luiz. Uma oportunidade de mostrar meu acervo, devidamente ampliado com o tempo, aos universitários, à cidade e principalmente a um emocionadíssimo Tio Luiz.
A partir daí, fui aos poucos me transformando em estudiosa do fenômeno Elis. A paixão de adolescente amadureceu em amor pelo assunto e em constantes pesquisas sobre o objeto amado. E também em muitas alegrias: o contato com historiadores, músicos e críticos de várias partes do país, como Walter Silva, Zuza Homem de Mello e muitos outros. Mas alegria mesmo, e das maiores, foi quando em abril do ano passado encontrei-me em São Paulo com dona Ercy Carvalho Costa. Ela mesma, a mãe de Elis.
Bem-humorada e atenta às coisas do mundo, com voz firme e jovem aos 84 anos, ela assistia ao programa de Raul Gil. Sim, do próprio. É sua diversão predileta nas tardes de sábado, pois até pouco tempo costumava freqüentar alguns desses programas e ficar bem escondidinha para ninguém reconhecê-la. Um dia, Fábio Junior avistou-a de longe e a convidou para ir ao palco: “até que não foi assim tão desagradável, Fábio Junior é simpático, gosto dele”. O fascínio por essa diversão parece ser, de certa maneira, uma tentativa de perpetuar o laço com a filha. Manter intacto, ao menos na memória, o tempo em que iam juntas aos programas de auditório.
Dona Ercy adora bordar e, muito habilidosa, bordava um enorme tapete de palhaço para o bisneto que iria chegar, filho de Maria Rita. Ela vai conduzindo sua vida com sabedoria e serenidade. Fizera para a filha de Elis uma roupinha, agora repete o ofício para o filho dela, seu bisneto. Elis também gostava de bordar. Talvez, se viva fosse, estivesse também bordando alguma coisa para o neto que iria nascer.
Saí da casa de Dona Ercy refletindo sobre o quão longe chegou a paixão adolescente. Tanto que cheguei até à mater-matrix, geradora do mito. Fico pensando como tio Luiz Affonso ficaria feliz se soubesse disso. Mesmo assim me recordo que em sua distinção sempre quis manter a aura de fã à distância, com medo de quebrar o mito. Certa vez, num dos shows, Elis desceu do palco e cantou sentada bem ao seu lado durante um tempo infinito. Ele preferiu manter os olhos fechados, para não quebrar o sonho. Tão longe, tão perto.
Cos´è? Celebração do cine/porto da vida
Depois de muitos filmes, muitos shows e muita gente interessante, chego à conclusão de que um dos assuntos mais comentados do Cineport foi o balé de minha xará, apresentado duas vezes na praça Santa Rita, um absoluto sucesso. Vi Daniela Guimarães pela primeira vez no palco do Theatro Central em Juiz de Fora, apresentando um belíssimo espetáculo dedicado à pintora mexicana Frida Kahlo. Fui assistir com grande expectativa e curiosidade, imaginando como seria possível “dançar uma artista” que extraiu da limitação física força transcendente para transformar sua própria vida em elemento de criação: “Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”.
O balé é uma celebração da vida. A cena se abre com Daniela/Frida atada sobre a cama. O figurino, composto por um macacão bege grudado à pele com desenhos de faixas brancas sobrepostas, sugeria a idéia do colete usado pela pintora. Durante vinte minutos – tempo que parece infinito – a bailarina, através de insistentes e tensos movimentos, tenta vencer o não movimento.
O clima angustiante é intensificado pela beleza do pungente tango do argentino Blás Rivera. Daniela dançou o prazer e a dor no percurso de desvelamento do ser feminino. Das trevas à luz é delicado e doloroso o desabrochar de Frida. Lembro-me de um momento forte, final do espetáculo, em que ela se lambuzava de tinta vermelha, uma alusão ao sangue, ao nascimento, ao aborto.
Daniela Guimarães imprime a marca de sua criatividade em tudo o que faz. Agora em Cataguases, à frente do Centro das Tradições Mineiras-CTM – mas sem abandonar Juiz de Fora, onde continua também à frente da Cia Cos´è? Teatro-Dança – ela vai transformando o mundo em movimento. O balé apresentado por duas vezes na praça Santa Rita me deixou extasiada: como o cineasta Paulo Cezar Saraceni, também eu não pude conter as lágrimas quando entraram as músicas “O mundo é um moinho” de Cartola e “Bachianas Brasileiras” de Villa-Lobos.
Tudo tão brasileiro e ao mesmo tempo universal. Nos quinze anos que passei dançando na academia Real Ballet em Juiz de Fora (e lá se vão outros quinze anos), não me lembro de ter visto algo tão forte. O grupo “Corpo” muito me impressionou com “Maria Maria” e “Nazareth”, mas Daniela Guimarães me tocou ainda mais pela humanidade de seu trabalho.
Assim como no jazz, os bailarinos da Cia Ormeo Teatro-Dança (do CTM) são co-autores na criação coreográfica, jovens treinados para explorar suas mil e uma possibilidades. Criam/recriam, invadem espaços, interagem com o público quando a empatia é forte. Cada bailarino é único, singular, vivencia a plenitude dos movimentos conforme o ambiente, a emoção, o sentido despertado no momento. Isso é original. É fortemente moderno.
Na cerimônia de encerramento do Cineport, Daniela e as bailarinas da Cia Cos´è? deram um show de maturidade, talento e beleza. Pelo profissionalismo, parecia coisa do Oscar, não fosse o Oscar coisa tão brega. Mas é claro que elas dançavam o Brasil, de muitos sons e mil-tons geniais – salve, Caetano! A pele na textura da tela naquela projeção tão delicada em que a bailarina falava de si mesma e de outras mulheres. Mais uma vez o forte desnudamento do ser feminino. Na cena da chuva eu me lembrei de “A falecida” de Nelson Rodrigues, naquela cena fantástica do filme de Leon Hirszman em que Fernanda Montenegro se comprazia na chuva com os braços e todo o corpo liberto.
Acompanhei a tudo, absorvida, como no belo momento em que as bailarinas deram ainda mais ritmo e intensidade às imagens do filme “Nhá Fala” do cineasta guineense Flora Gomes, que estava em Cataguases e no Centro Cultural Humberto Mauro, assistindo a esse instante luminoso. Na cena final, sentados no proscênio, os bailarinos marcavam o ritmo com palmas. Que viraram aplausos. Para o Cineport, para a platéia, para si mesmos. E para a poesia que pairava em tudo.
Depois de muitos filmes, muitos shows e muita gente interessante, chego à conclusão de que um dos assuntos mais comentados do Cineport foi o balé de minha xará, apresentado duas vezes na praça Santa Rita, um absoluto sucesso. Vi Daniela Guimarães pela primeira vez no palco do Theatro Central em Juiz de Fora, apresentando um belíssimo espetáculo dedicado à pintora mexicana Frida Kahlo. Fui assistir com grande expectativa e curiosidade, imaginando como seria possível “dançar uma artista” que extraiu da limitação física força transcendente para transformar sua própria vida em elemento de criação: “Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”.
O balé é uma celebração da vida. A cena se abre com Daniela/Frida atada sobre a cama. O figurino, composto por um macacão bege grudado à pele com desenhos de faixas brancas sobrepostas, sugeria a idéia do colete usado pela pintora. Durante vinte minutos – tempo que parece infinito – a bailarina, através de insistentes e tensos movimentos, tenta vencer o não movimento.
O clima angustiante é intensificado pela beleza do pungente tango do argentino Blás Rivera. Daniela dançou o prazer e a dor no percurso de desvelamento do ser feminino. Das trevas à luz é delicado e doloroso o desabrochar de Frida. Lembro-me de um momento forte, final do espetáculo, em que ela se lambuzava de tinta vermelha, uma alusão ao sangue, ao nascimento, ao aborto.
Daniela Guimarães imprime a marca de sua criatividade em tudo o que faz. Agora em Cataguases, à frente do Centro das Tradições Mineiras-CTM – mas sem abandonar Juiz de Fora, onde continua também à frente da Cia Cos´è? Teatro-Dança – ela vai transformando o mundo em movimento. O balé apresentado por duas vezes na praça Santa Rita me deixou extasiada: como o cineasta Paulo Cezar Saraceni, também eu não pude conter as lágrimas quando entraram as músicas “O mundo é um moinho” de Cartola e “Bachianas Brasileiras” de Villa-Lobos.
Tudo tão brasileiro e ao mesmo tempo universal. Nos quinze anos que passei dançando na academia Real Ballet em Juiz de Fora (e lá se vão outros quinze anos), não me lembro de ter visto algo tão forte. O grupo “Corpo” muito me impressionou com “Maria Maria” e “Nazareth”, mas Daniela Guimarães me tocou ainda mais pela humanidade de seu trabalho.
Assim como no jazz, os bailarinos da Cia Ormeo Teatro-Dança (do CTM) são co-autores na criação coreográfica, jovens treinados para explorar suas mil e uma possibilidades. Criam/recriam, invadem espaços, interagem com o público quando a empatia é forte. Cada bailarino é único, singular, vivencia a plenitude dos movimentos conforme o ambiente, a emoção, o sentido despertado no momento. Isso é original. É fortemente moderno.
Na cerimônia de encerramento do Cineport, Daniela e as bailarinas da Cia Cos´è? deram um show de maturidade, talento e beleza. Pelo profissionalismo, parecia coisa do Oscar, não fosse o Oscar coisa tão brega. Mas é claro que elas dançavam o Brasil, de muitos sons e mil-tons geniais – salve, Caetano! A pele na textura da tela naquela projeção tão delicada em que a bailarina falava de si mesma e de outras mulheres. Mais uma vez o forte desnudamento do ser feminino. Na cena da chuva eu me lembrei de “A falecida” de Nelson Rodrigues, naquela cena fantástica do filme de Leon Hirszman em que Fernanda Montenegro se comprazia na chuva com os braços e todo o corpo liberto.
Acompanhei a tudo, absorvida, como no belo momento em que as bailarinas deram ainda mais ritmo e intensidade às imagens do filme “Nhá Fala” do cineasta guineense Flora Gomes, que estava em Cataguases e no Centro Cultural Humberto Mauro, assistindo a esse instante luminoso. Na cena final, sentados no proscênio, os bailarinos marcavam o ritmo com palmas. Que viraram aplausos. Para o Cineport, para a platéia, para si mesmos. E para a poesia que pairava em tudo.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Amarelo Manga/Vermelho Satã
Cataguases já vive em tempo de cinema, antecipando o Festival Cineport que começa em junho. Depois de “Bye bye Brasil” e “O caminho das nuvens”, o Centro Cultural Humberto Mauro exibiu semana passada “Amarelo Manga” e “Madame Satã”, dois filmes de temáticas contundentes, que causaram muitas controvérsias naqueles espectadores que resistiram no escurinho até o último segundo, antes do acender das luzes E foram poucos os que restaram até o fim: o que não é nada assim tão surpreendente diante da explícita crueza das duas obras. Isso me fez lembrar de uma semana de filmes alternativos em Juiz de Fora nos idos de 90. Recordo-me que, no último dia, quando projetaram “A lei do desejo”, de Pedro Almodóvar, quase todo mundo se retirou antes do final, restando apenas uns dois professores, mais uns três alunos “altenartivos” e apenas um casal mais idoso. Almodóvar incomodou, Almodóvar ainda incomoda pelo despudor e beleza ao expor temas polêmicos como o homossexualismo.
“A lei do desejo”, filme com alta dosagem de ironia kitsch e personagens exóticos, era mais suave pelo viés do humor. Já “Madame Satã” é um filme muito mais impactante pelo tratamento mostrado ao desvelar a vida de João Francisco dos Santos, um absoluto marginal. O personagem-título foi um homem vitimado por todos os tipos de preconceito que um ser humano pode sofrer: negro, pobre, analfabeto, homossexual. O diretor Karim Ainouz procura fazer com que seu personagem transcenda a condição de total excluído num mundo já em si excluído – o submundo da Lapa nos anos 30. Para isso, mostra um Francisco-Madame Satã que tem na suposta arte do canto um modo de purgar sua miserável condição de vida.
É primorosa a fotografia de Walter Carvalho ao explorar com alto potencial plástico o vermelho e o negro, desencadeando um permanente conflito entre as pulsões de Eros e Tanatos. Amor e morte perpassam toda a narrativa: o sangue e o sexo, o gozo e a dor, a sensualidade e o obscurantismo. Madame Satã é um personagem emblemático por sua rica imperfeição suja, o que faz lembrar o marginal Jean Genet, homossexual, bandido, mas principalmente um grande escritor, que fascinou Sartre. Apesar do choque que provoca em muitos espectadores, o filme de Karim Ainouz não eleva a questão homossexual como principal foco de análise, como bem disse no debate o dramaturgo Alcione Araújo. Vale mesmo é a evasão lírica.
“Amarelo Manga”, o segundo filme em debate, é obra totalmente crua, que remete à estética naturalista dos romances de Aluízio de Azevedo, como “Casa de pensão” e “O cortiço”. Nesse filme todos os personagens são reduzidos à sua limitada condição animal, pois sobrevivem unicamente para saciar a fome do estômago e do sexo. Ele perturba justamente por não apresentar saídas. Não há nenhuma espécie de evasão, todos os personagens vivem/sobrevivem num cotidiano amorfo, insosso, deserotizado, amarelo.
O que mais chocou a platéia, quase inteiramente feminina, foi o close de uma genitália também feminina e totalmente desnuda. Risadas tensas para cá, risadas muito irônicas para lá, retiradas rápidas de pessoas ofendidas. Creio que a ausência de sedução erótica foi o que causou de fato a reação de ojeriza em muitos. A cena choca por não ter nenhum conteúdo lírico – e seu proposito era justamente esse.
“Amarelo Manga” é um bom filme em sua totalidade. Tão bom que provocou até mesmo revisão de conceitos. Uma espectadora muito atenta e participante disse que, após o mergulho interior proporcionado por ele, iria sair do cinema mais “mudada”, mais madura, mais aberta para entender o mundo e compreender suas próprias limitações. Como nas palavras do dramaturgo Alcione Araújo: “Tudo o que pertence ao humano não nos deve ser estranho”.
Cataguases já vive em tempo de cinema, antecipando o Festival Cineport que começa em junho. Depois de “Bye bye Brasil” e “O caminho das nuvens”, o Centro Cultural Humberto Mauro exibiu semana passada “Amarelo Manga” e “Madame Satã”, dois filmes de temáticas contundentes, que causaram muitas controvérsias naqueles espectadores que resistiram no escurinho até o último segundo, antes do acender das luzes E foram poucos os que restaram até o fim: o que não é nada assim tão surpreendente diante da explícita crueza das duas obras. Isso me fez lembrar de uma semana de filmes alternativos em Juiz de Fora nos idos de 90. Recordo-me que, no último dia, quando projetaram “A lei do desejo”, de Pedro Almodóvar, quase todo mundo se retirou antes do final, restando apenas uns dois professores, mais uns três alunos “altenartivos” e apenas um casal mais idoso. Almodóvar incomodou, Almodóvar ainda incomoda pelo despudor e beleza ao expor temas polêmicos como o homossexualismo.
“A lei do desejo”, filme com alta dosagem de ironia kitsch e personagens exóticos, era mais suave pelo viés do humor. Já “Madame Satã” é um filme muito mais impactante pelo tratamento mostrado ao desvelar a vida de João Francisco dos Santos, um absoluto marginal. O personagem-título foi um homem vitimado por todos os tipos de preconceito que um ser humano pode sofrer: negro, pobre, analfabeto, homossexual. O diretor Karim Ainouz procura fazer com que seu personagem transcenda a condição de total excluído num mundo já em si excluído – o submundo da Lapa nos anos 30. Para isso, mostra um Francisco-Madame Satã que tem na suposta arte do canto um modo de purgar sua miserável condição de vida.
É primorosa a fotografia de Walter Carvalho ao explorar com alto potencial plástico o vermelho e o negro, desencadeando um permanente conflito entre as pulsões de Eros e Tanatos. Amor e morte perpassam toda a narrativa: o sangue e o sexo, o gozo e a dor, a sensualidade e o obscurantismo. Madame Satã é um personagem emblemático por sua rica imperfeição suja, o que faz lembrar o marginal Jean Genet, homossexual, bandido, mas principalmente um grande escritor, que fascinou Sartre. Apesar do choque que provoca em muitos espectadores, o filme de Karim Ainouz não eleva a questão homossexual como principal foco de análise, como bem disse no debate o dramaturgo Alcione Araújo. Vale mesmo é a evasão lírica.
“Amarelo Manga”, o segundo filme em debate, é obra totalmente crua, que remete à estética naturalista dos romances de Aluízio de Azevedo, como “Casa de pensão” e “O cortiço”. Nesse filme todos os personagens são reduzidos à sua limitada condição animal, pois sobrevivem unicamente para saciar a fome do estômago e do sexo. Ele perturba justamente por não apresentar saídas. Não há nenhuma espécie de evasão, todos os personagens vivem/sobrevivem num cotidiano amorfo, insosso, deserotizado, amarelo.
O que mais chocou a platéia, quase inteiramente feminina, foi o close de uma genitália também feminina e totalmente desnuda. Risadas tensas para cá, risadas muito irônicas para lá, retiradas rápidas de pessoas ofendidas. Creio que a ausência de sedução erótica foi o que causou de fato a reação de ojeriza em muitos. A cena choca por não ter nenhum conteúdo lírico – e seu proposito era justamente esse.
“Amarelo Manga” é um bom filme em sua totalidade. Tão bom que provocou até mesmo revisão de conceitos. Uma espectadora muito atenta e participante disse que, após o mergulho interior proporcionado por ele, iria sair do cinema mais “mudada”, mais madura, mais aberta para entender o mundo e compreender suas próprias limitações. Como nas palavras do dramaturgo Alcione Araújo: “Tudo o que pertence ao humano não nos deve ser estranho”.
Nara: saudades imaginárias
Nesses tempos de muitos funks, sertanejos e outras breguices do gênero, o selo Biscoito Fino lança no mercado o primeiro DVD da cantora Nara Leão. Este DVD é mais um que integra uma série de programas especiais dedicados a artistas da música popular brasileira como Elis Regina, Paulinho da Viola, Wanda Sá e Gal Costa.
O Especial reproduz a entrevista de Nara no programa “Ensaio”, da TV Cultura, realizado em 1973 por Fernando Faro, que continua até hoje à sua frente (melhor dizendo, por trás das câmeras). A voz e a imagem em off do entrevistador, aliada ao preto e branco da transmissão, reforça o clima intimista e transmite um quê de sensualidade, mistério e delicadeza, esta última a marca maior da musa portadora dos joelhos mais famosos da MPB. Joelhos que se encontram na imaginação dos espectadores, é claro, pois a tônica dos programas realizados por Fernando Faro é manter o entrevistado permanentemente em close, captando as mínimas nuances de seu rosto.
O resgate das imagens dos programas dirigidos por Fernando Faro é de fundamental importância para a preservação não só da história musical, mas também política de nosso país. Nara Leão foi um nome de grande importância na cultura brasileira na segunda metade do século XX. Tímida e paradoxalmente inquieta, corajosa, inovadora, nos seus vinte e cinco anos de carreira, correu em busca do registro de uma arte compatível com sua “verdadeira natureza interior” (como diz Gilberto Gil em Copo Vazio: “Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho/ que o vinho busca ocupar o lugar da dor/ que a dor ocupa a metade da verdade/ a verdadeira natureza interior”).
Nara Leão é a cantora que reuniu o melhor repertório do cancioneiro nacional. Gravou Nelson Cavaquinho, Sidney Miller, Zé Keti, Chico Buarque, Tom Jobim, João do Vale, Paulinho da Viola, Carlos Lyra, Dorival Caymmi, Edu Lobo, Vinicius de Moraes, Assis Valente, Sueli Costa, Villa-Lobos, Ernesto Nazareth e até mesmo um belo disco inteiramente dedicado ao Rei Roberto Carlos.
O DVD inicia com Nara interpretando a capella a canção “Soneto” de Chico Buarque, compositor que ela também homenageou no álbum “Com açúcar, com afeto”, de 1980: “Gravei muita coisa dele”, diz Nara, “nem sei direito o que mais. Do Chico eu me lembro de uma música que eu pedi que ele fizesse pra mim. Eu gosto muito de música que a mulher fica em casa chorosa e o marido na rua farreando. Você vê que eu canto “Fez bobagem” (Assis Valente), “Camisa amarela” (Ary Barroso). Chico fez para mim “Com açúcar com afeto”.
Com a voz pequena, no registro de soprano quase ligeiro, Nara imprime uma delicadeza e simultânea carga de emoção que causa impacto naqueles que a assistem pela primeira vez. A câmera persegue detalhadamente os movimentos da cantora, captando toda a sua expressividade. Acompanhada durante todo o tempo somente por seu violão, ela depura cada nota, cada acorde. Em “Morena do mar” de Caymmi, Nara Leão canta com tamanha suavidade que parece que a brisa leve do vento toca seus cabelos: “Para te agradar/ Ai, eu trouxe os peixinhos do mar, morena/ Para te enfeitar, eu trouxe as conchinhas do mar/ As estrelas do céu, morena/ E as estrelas do mar/ Ai, as pratas e os ouros de Iemanjá”.
Absolutamente espontânea, Nara fala sobre o acontecimento da música em sua vida, com o charme de um humor levemente Bossa Nova: “Eu andava com esse negócio de cinema porque eu pensava em ser montadora de filmes. E aprendi a fazer montagem. Naquela época, eu queria ser montadora, eu não pensava em ser cantora. Eu cantava, eu fazia gravuras, eu queria fazer montagem de filmes, fazia várias coisas. Até hoje eu não sei o que eu vou ser na vida”.
Mesmo a contragosto, Nara jamais deixou de ser a legítima representante da Bossa Nova. Avessa à postura ortodoxa que marcou muitos de seus companheiros, ela sempre esteve à frente e acima de qualquer rótulo. Nara sabia o que queria, tinha total consciência do que cantava: “Devo dizer que eu não sou nada preconceituosa. Então, vendo uma coisa que eu gosto, que acho bom e que acho renovador, eu não tenho preconceitos para dizer que não canto porque não cantava antes”.
“Eu sou um nostálgico de tudo aquilo que eu não vivi” disse certa vez Ed Motta numa entrevista. Guardei essa frase como se fosse minha. Fico imaginando Nara Leão e sinto saudades.
Nesses tempos de muitos funks, sertanejos e outras breguices do gênero, o selo Biscoito Fino lança no mercado o primeiro DVD da cantora Nara Leão. Este DVD é mais um que integra uma série de programas especiais dedicados a artistas da música popular brasileira como Elis Regina, Paulinho da Viola, Wanda Sá e Gal Costa.
O Especial reproduz a entrevista de Nara no programa “Ensaio”, da TV Cultura, realizado em 1973 por Fernando Faro, que continua até hoje à sua frente (melhor dizendo, por trás das câmeras). A voz e a imagem em off do entrevistador, aliada ao preto e branco da transmissão, reforça o clima intimista e transmite um quê de sensualidade, mistério e delicadeza, esta última a marca maior da musa portadora dos joelhos mais famosos da MPB. Joelhos que se encontram na imaginação dos espectadores, é claro, pois a tônica dos programas realizados por Fernando Faro é manter o entrevistado permanentemente em close, captando as mínimas nuances de seu rosto.
O resgate das imagens dos programas dirigidos por Fernando Faro é de fundamental importância para a preservação não só da história musical, mas também política de nosso país. Nara Leão foi um nome de grande importância na cultura brasileira na segunda metade do século XX. Tímida e paradoxalmente inquieta, corajosa, inovadora, nos seus vinte e cinco anos de carreira, correu em busca do registro de uma arte compatível com sua “verdadeira natureza interior” (como diz Gilberto Gil em Copo Vazio: “Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho/ que o vinho busca ocupar o lugar da dor/ que a dor ocupa a metade da verdade/ a verdadeira natureza interior”).
Nara Leão é a cantora que reuniu o melhor repertório do cancioneiro nacional. Gravou Nelson Cavaquinho, Sidney Miller, Zé Keti, Chico Buarque, Tom Jobim, João do Vale, Paulinho da Viola, Carlos Lyra, Dorival Caymmi, Edu Lobo, Vinicius de Moraes, Assis Valente, Sueli Costa, Villa-Lobos, Ernesto Nazareth e até mesmo um belo disco inteiramente dedicado ao Rei Roberto Carlos.
O DVD inicia com Nara interpretando a capella a canção “Soneto” de Chico Buarque, compositor que ela também homenageou no álbum “Com açúcar, com afeto”, de 1980: “Gravei muita coisa dele”, diz Nara, “nem sei direito o que mais. Do Chico eu me lembro de uma música que eu pedi que ele fizesse pra mim. Eu gosto muito de música que a mulher fica em casa chorosa e o marido na rua farreando. Você vê que eu canto “Fez bobagem” (Assis Valente), “Camisa amarela” (Ary Barroso). Chico fez para mim “Com açúcar com afeto”.
Com a voz pequena, no registro de soprano quase ligeiro, Nara imprime uma delicadeza e simultânea carga de emoção que causa impacto naqueles que a assistem pela primeira vez. A câmera persegue detalhadamente os movimentos da cantora, captando toda a sua expressividade. Acompanhada durante todo o tempo somente por seu violão, ela depura cada nota, cada acorde. Em “Morena do mar” de Caymmi, Nara Leão canta com tamanha suavidade que parece que a brisa leve do vento toca seus cabelos: “Para te agradar/ Ai, eu trouxe os peixinhos do mar, morena/ Para te enfeitar, eu trouxe as conchinhas do mar/ As estrelas do céu, morena/ E as estrelas do mar/ Ai, as pratas e os ouros de Iemanjá”.
Absolutamente espontânea, Nara fala sobre o acontecimento da música em sua vida, com o charme de um humor levemente Bossa Nova: “Eu andava com esse negócio de cinema porque eu pensava em ser montadora de filmes. E aprendi a fazer montagem. Naquela época, eu queria ser montadora, eu não pensava em ser cantora. Eu cantava, eu fazia gravuras, eu queria fazer montagem de filmes, fazia várias coisas. Até hoje eu não sei o que eu vou ser na vida”.
Mesmo a contragosto, Nara jamais deixou de ser a legítima representante da Bossa Nova. Avessa à postura ortodoxa que marcou muitos de seus companheiros, ela sempre esteve à frente e acima de qualquer rótulo. Nara sabia o que queria, tinha total consciência do que cantava: “Devo dizer que eu não sou nada preconceituosa. Então, vendo uma coisa que eu gosto, que acho bom e que acho renovador, eu não tenho preconceitos para dizer que não canto porque não cantava antes”.
“Eu sou um nostálgico de tudo aquilo que eu não vivi” disse certa vez Ed Motta numa entrevista. Guardei essa frase como se fosse minha. Fico imaginando Nara Leão e sinto saudades.
Aquele “cheiro Cataguases”
Fátima Guedes: “Ai, ai o mato, o cheiro seu/ um rouxinol no meio do Brasil”. Djalma Ferreira: “É aquele cheiro de saudade/ que me traz você a cada instante”. Como as canções, também os cheiros são cercados de vida: cheiro de livro antigo, cheiro de livro novo, cheiro de pão saltando do forno, cheiro “verde” do eucalipto na sauna, cheiro de roupa nova, cheiro de caderno novo, cheiro de shampu no cabelo, cheiro de pipoca, cheiro de chocolate, cheiro de canela, cheiro de gasolina, aquele bouquet do vinho.
Para mamãe, abacaxi cheira a piscina. Já minha irmã acha mesmo que abacaxi tem cheiro de abacaxi, uai! Para papai, o cheiro do figo se fixa na memória, como o cheiro de jornal, o cheiro de tinta. Há aquele “cheiro de maçã evocando a metrópole” como diz o Ronaldo Werneck em seu Pomba Poema. E pra mim há aquele aroma, o inesquecível cheiro da “flor-do-samba”, aquele perfume da flor dama-da-noite que impregnava as quadras de ensaio das escolas de samba de Juiz de Fora.
Ainda outro dia, caminhando em Cataguases, naquele vaivém da avenida Humberto Mauro, senti o forte perfume da “flor-do-samba”, o que me proporcionou uma súbita sensação de conforto e acolhimento. Ali na Humberto Mauro, com suas árvores simetricamente distribuídas, o córrego, os paralelepípedos, tudo transmite uma bucólica, convidativa serenidade.
E o cheiro de Cataguases? Ela cheira a cultura no charme de seus espaços. Uma plácida beleza reveste esta cidade que respira arte por todos os poros. Em cada canto, uma obra de um artista de renome, o que vem me tocando profundamente nesses quase quatro meses em que aqui estou. O Portinari das “Fiandeiras”, a Violeta de Sonia Ebling, o Colégio, a Santa Rita da Djanira. E também a imponência da ponte metálica.
Os contrastes convivem numa síntese harmônica entre o tradicional e o moderno: casas, painéis, esculturas, igrejas, árvores, muitas árvores e muita, muita gente jovem, coisas que fazem de Cataguases uma cidade aberta para o novo. Pelo menos, é o que acredito. Uma cidade hospitaleira que recebe pessoas de grandes centros e que numa saudável “antropofagia cultural” assimila as contribuições e as devolve ao povo. E que se prepara para oferecer o que tem de melhor aos visitantes, como se vê pela recente implantação na chacára Dona Catarina do vagão de informações turísticas.
Para mim, um dos dias mais prazerosos desde que aqui estou , um dos momentos em que me senti mais integrada ao astral cataguasense, foi quando assisti no teatro Rosário Fusco à excelente jam-session do baterista Afonsinho Vieira, acompanhado por músicos da pesada como o baixista Jimmy Santa-Cruz, o saxofonista Val e o pianista Chiquinho Neto. Eu estava em Cataguases, eu estava no mundo. Percebi que não havia fronteiras. Unidos pela música, unidos pela sensibilidade, saímos todos para o jantar após o show.
O papo rolou solto, pleno de improvisos, num clima de agradável descontração. Jazz puro. Noite de jazz livre, de free-jazz em Cataguases. Nunca me senti tão em casa. Não o saxofonista Val, que é moço e muito novo, mas com certeza Afonsinho, Jimmy e Chiquinho conhecem, ouviram e talvez até mesmo tenham tocado com Djalma Ferreira. Pois é, todo aquele cheiro de saudade de um Rio pré-bossa nova, tempos que eu também gostaria de ter vivido. “A canção/ a praça/ o perfume/ tudo no tempo estancado”, como já disse aquele poeta. Quem mesmo? O Ronaldo, gente, que gosta tanto desta cidade que parece estar impregnado de um “cheiro Cataguases”. Que é único.
Fátima Guedes: “Ai, ai o mato, o cheiro seu/ um rouxinol no meio do Brasil”. Djalma Ferreira: “É aquele cheiro de saudade/ que me traz você a cada instante”. Como as canções, também os cheiros são cercados de vida: cheiro de livro antigo, cheiro de livro novo, cheiro de pão saltando do forno, cheiro “verde” do eucalipto na sauna, cheiro de roupa nova, cheiro de caderno novo, cheiro de shampu no cabelo, cheiro de pipoca, cheiro de chocolate, cheiro de canela, cheiro de gasolina, aquele bouquet do vinho.
Para mamãe, abacaxi cheira a piscina. Já minha irmã acha mesmo que abacaxi tem cheiro de abacaxi, uai! Para papai, o cheiro do figo se fixa na memória, como o cheiro de jornal, o cheiro de tinta. Há aquele “cheiro de maçã evocando a metrópole” como diz o Ronaldo Werneck em seu Pomba Poema. E pra mim há aquele aroma, o inesquecível cheiro da “flor-do-samba”, aquele perfume da flor dama-da-noite que impregnava as quadras de ensaio das escolas de samba de Juiz de Fora.
Ainda outro dia, caminhando em Cataguases, naquele vaivém da avenida Humberto Mauro, senti o forte perfume da “flor-do-samba”, o que me proporcionou uma súbita sensação de conforto e acolhimento. Ali na Humberto Mauro, com suas árvores simetricamente distribuídas, o córrego, os paralelepípedos, tudo transmite uma bucólica, convidativa serenidade.
E o cheiro de Cataguases? Ela cheira a cultura no charme de seus espaços. Uma plácida beleza reveste esta cidade que respira arte por todos os poros. Em cada canto, uma obra de um artista de renome, o que vem me tocando profundamente nesses quase quatro meses em que aqui estou. O Portinari das “Fiandeiras”, a Violeta de Sonia Ebling, o Colégio, a Santa Rita da Djanira. E também a imponência da ponte metálica.
Os contrastes convivem numa síntese harmônica entre o tradicional e o moderno: casas, painéis, esculturas, igrejas, árvores, muitas árvores e muita, muita gente jovem, coisas que fazem de Cataguases uma cidade aberta para o novo. Pelo menos, é o que acredito. Uma cidade hospitaleira que recebe pessoas de grandes centros e que numa saudável “antropofagia cultural” assimila as contribuições e as devolve ao povo. E que se prepara para oferecer o que tem de melhor aos visitantes, como se vê pela recente implantação na chacára Dona Catarina do vagão de informações turísticas.
Para mim, um dos dias mais prazerosos desde que aqui estou , um dos momentos em que me senti mais integrada ao astral cataguasense, foi quando assisti no teatro Rosário Fusco à excelente jam-session do baterista Afonsinho Vieira, acompanhado por músicos da pesada como o baixista Jimmy Santa-Cruz, o saxofonista Val e o pianista Chiquinho Neto. Eu estava em Cataguases, eu estava no mundo. Percebi que não havia fronteiras. Unidos pela música, unidos pela sensibilidade, saímos todos para o jantar após o show.
O papo rolou solto, pleno de improvisos, num clima de agradável descontração. Jazz puro. Noite de jazz livre, de free-jazz em Cataguases. Nunca me senti tão em casa. Não o saxofonista Val, que é moço e muito novo, mas com certeza Afonsinho, Jimmy e Chiquinho conhecem, ouviram e talvez até mesmo tenham tocado com Djalma Ferreira. Pois é, todo aquele cheiro de saudade de um Rio pré-bossa nova, tempos que eu também gostaria de ter vivido. “A canção/ a praça/ o perfume/ tudo no tempo estancado”, como já disse aquele poeta. Quem mesmo? O Ronaldo, gente, que gosta tanto desta cidade que parece estar impregnado de um “cheiro Cataguases”. Que é único.
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