Dona Ercy, Elis & Tio Luiz
Há coisas que até Deus duvida, como diz o samba. Há cantores e cantores: O Rei da Voz, o Ditador de Sucessos, A Sambista Diferente, A Favorita da Marinha, O Caboclinho Querido, A Cançonetista das Dunas do Barato, A Princesinha do Baião, enfim, graças a Deus, sempre houve o rótulo. Elis é o fácil e o difícil. Elis é o avião e o helicóptero. Elis é a cidade e o campo. Elis é o amor e o desamor. Elis é o Conjunto e a Banda. Elis é o Olympia e o Canecão. Elis é o Deus e o astronauta. Elis é a forma e o fundo. Elis é Lupicínio, Elis é Sueli. Elis é Lovestory e Polansky, Elis é o riso e o trauma. Elis é 50, é 60, é 70. Enfim, Elis é o enigma, doce enigma.
Na última quinta-feira, 17 de março, Elis Regina teria feito 60 anos. Ídolo em todo o Brasil, ela sempre fez parte da vida de minha família. Era referência muito próxima, velha amiga-estrela, paradigma de qualidade no item interpretação. Meu falecido tio, Luiz Affonso Pedreira, apreciador das artes e grande amigo de muitos artistas de Juiz de Fora e de vários cantos do país, como Carlos Bracher, Sueli Costa, Gutemberg Guarabira, Affonso Romano de SantAnna e outros, era um aficcionado por Elis e, não por acaso, o parágrafo de abertura desta crônica foi extraido de um texto apaixonado que ele publicou em 1972.
Tio Luiz Affonso possuía todos os seus discos. Mais tarde, quando eu já tinha idade para entender e também apreciar em comum o “Furacão Elis”, descobri que ele não possuía somente isso, mas também uma série de encartes, programas de shows, revistas, fotos e vídeos. Além de tudo, era uma memória viva, pois assistira a shows fantásticos e históricos como “Falso Brilhante” e “Saudades do Brasil”. Seu porte elegante e discreto, lembrava muitas vezes Mastroianni, embora seu apelido entre os mais chegados fosse “Anitona”. Não por ser afeminado, mesmo porque tio Luiz Affonso não levava “jeito na matéria”, mas por ser fã de Fellini e citar sempre Anita Ekberg entrando na Fontana di Trevi, naquela famosa cena noturna de “La dolce vita”.
Conversávamos certo dia em sua “cinemateca”, a sala de “ver bons filmes” que existia em seu apartamento, quando ele tira subitamente do armário um envelope enorme e pesado e dali surge um mundo de Elis Reginas. Eram jornais, revistas e programas de shows que não acabavam mais. Para uma adolescente de 17 anos, a euforia era equivalente à de Alice no País das Maravilhas: com direito a chave do tempo e tudo o mais, eu podia retroceder anos de um passado que jamais vivera.
Inicialmente, não entendi tamanha generosidade. Pensei que o material fosse apenas um empréstimo com direito a cópias xerocadas, e não um presente. Todos admiraram seu gesto de confiança, deixar um tesouro construído por décadas nas mãos de uma menina. Mas não é que anos mais tarde tudo se justificaria na pequena mostra que realizei na Universidade Federal de Juiz de Fora? Foi, de certa forma uma homenagem aos dois, Elis & Tio Luiz. Uma oportunidade de mostrar meu acervo, devidamente ampliado com o tempo, aos universitários, à cidade e principalmente a um emocionadíssimo Tio Luiz.
A partir daí, fui aos poucos me transformando em estudiosa do fenômeno Elis. A paixão de adolescente amadureceu em amor pelo assunto e em constantes pesquisas sobre o objeto amado. E também em muitas alegrias: o contato com historiadores, músicos e críticos de várias partes do país, como Walter Silva, Zuza Homem de Mello e muitos outros. Mas alegria mesmo, e das maiores, foi quando em abril do ano passado encontrei-me em São Paulo com dona Ercy Carvalho Costa. Ela mesma, a mãe de Elis.
Bem-humorada e atenta às coisas do mundo, com voz firme e jovem aos 84 anos, ela assistia ao programa de Raul Gil. Sim, do próprio. É sua diversão predileta nas tardes de sábado, pois até pouco tempo costumava freqüentar alguns desses programas e ficar bem escondidinha para ninguém reconhecê-la. Um dia, Fábio Junior avistou-a de longe e a convidou para ir ao palco: “até que não foi assim tão desagradável, Fábio Junior é simpático, gosto dele”. O fascínio por essa diversão parece ser, de certa maneira, uma tentativa de perpetuar o laço com a filha. Manter intacto, ao menos na memória, o tempo em que iam juntas aos programas de auditório.
Dona Ercy adora bordar e, muito habilidosa, bordava um enorme tapete de palhaço para o bisneto que iria chegar, filho de Maria Rita. Ela vai conduzindo sua vida com sabedoria e serenidade. Fizera para a filha de Elis uma roupinha, agora repete o ofício para o filho dela, seu bisneto. Elis também gostava de bordar. Talvez, se viva fosse, estivesse também bordando alguma coisa para o neto que iria nascer.
Saí da casa de Dona Ercy refletindo sobre o quão longe chegou a paixão adolescente. Tanto que cheguei até à mater-matrix, geradora do mito. Fico pensando como tio Luiz Affonso ficaria feliz se soubesse disso. Mesmo assim me recordo que em sua distinção sempre quis manter a aura de fã à distância, com medo de quebrar o mito. Certa vez, num dos shows, Elis desceu do palco e cantou sentada bem ao seu lado durante um tempo infinito. Ele preferiu manter os olhos fechados, para não quebrar o sonho. Tão longe, tão perto.
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
Cos´è? Celebração do cine/porto da vida
Depois de muitos filmes, muitos shows e muita gente interessante, chego à conclusão de que um dos assuntos mais comentados do Cineport foi o balé de minha xará, apresentado duas vezes na praça Santa Rita, um absoluto sucesso. Vi Daniela Guimarães pela primeira vez no palco do Theatro Central em Juiz de Fora, apresentando um belíssimo espetáculo dedicado à pintora mexicana Frida Kahlo. Fui assistir com grande expectativa e curiosidade, imaginando como seria possível “dançar uma artista” que extraiu da limitação física força transcendente para transformar sua própria vida em elemento de criação: “Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”.
O balé é uma celebração da vida. A cena se abre com Daniela/Frida atada sobre a cama. O figurino, composto por um macacão bege grudado à pele com desenhos de faixas brancas sobrepostas, sugeria a idéia do colete usado pela pintora. Durante vinte minutos – tempo que parece infinito – a bailarina, através de insistentes e tensos movimentos, tenta vencer o não movimento.
O clima angustiante é intensificado pela beleza do pungente tango do argentino Blás Rivera. Daniela dançou o prazer e a dor no percurso de desvelamento do ser feminino. Das trevas à luz é delicado e doloroso o desabrochar de Frida. Lembro-me de um momento forte, final do espetáculo, em que ela se lambuzava de tinta vermelha, uma alusão ao sangue, ao nascimento, ao aborto.
Daniela Guimarães imprime a marca de sua criatividade em tudo o que faz. Agora em Cataguases, à frente do Centro das Tradições Mineiras-CTM – mas sem abandonar Juiz de Fora, onde continua também à frente da Cia Cos´è? Teatro-Dança – ela vai transformando o mundo em movimento. O balé apresentado por duas vezes na praça Santa Rita me deixou extasiada: como o cineasta Paulo Cezar Saraceni, também eu não pude conter as lágrimas quando entraram as músicas “O mundo é um moinho” de Cartola e “Bachianas Brasileiras” de Villa-Lobos.
Tudo tão brasileiro e ao mesmo tempo universal. Nos quinze anos que passei dançando na academia Real Ballet em Juiz de Fora (e lá se vão outros quinze anos), não me lembro de ter visto algo tão forte. O grupo “Corpo” muito me impressionou com “Maria Maria” e “Nazareth”, mas Daniela Guimarães me tocou ainda mais pela humanidade de seu trabalho.
Assim como no jazz, os bailarinos da Cia Ormeo Teatro-Dança (do CTM) são co-autores na criação coreográfica, jovens treinados para explorar suas mil e uma possibilidades. Criam/recriam, invadem espaços, interagem com o público quando a empatia é forte. Cada bailarino é único, singular, vivencia a plenitude dos movimentos conforme o ambiente, a emoção, o sentido despertado no momento. Isso é original. É fortemente moderno.
Na cerimônia de encerramento do Cineport, Daniela e as bailarinas da Cia Cos´è? deram um show de maturidade, talento e beleza. Pelo profissionalismo, parecia coisa do Oscar, não fosse o Oscar coisa tão brega. Mas é claro que elas dançavam o Brasil, de muitos sons e mil-tons geniais – salve, Caetano! A pele na textura da tela naquela projeção tão delicada em que a bailarina falava de si mesma e de outras mulheres. Mais uma vez o forte desnudamento do ser feminino. Na cena da chuva eu me lembrei de “A falecida” de Nelson Rodrigues, naquela cena fantástica do filme de Leon Hirszman em que Fernanda Montenegro se comprazia na chuva com os braços e todo o corpo liberto.
Acompanhei a tudo, absorvida, como no belo momento em que as bailarinas deram ainda mais ritmo e intensidade às imagens do filme “Nhá Fala” do cineasta guineense Flora Gomes, que estava em Cataguases e no Centro Cultural Humberto Mauro, assistindo a esse instante luminoso. Na cena final, sentados no proscênio, os bailarinos marcavam o ritmo com palmas. Que viraram aplausos. Para o Cineport, para a platéia, para si mesmos. E para a poesia que pairava em tudo.
Depois de muitos filmes, muitos shows e muita gente interessante, chego à conclusão de que um dos assuntos mais comentados do Cineport foi o balé de minha xará, apresentado duas vezes na praça Santa Rita, um absoluto sucesso. Vi Daniela Guimarães pela primeira vez no palco do Theatro Central em Juiz de Fora, apresentando um belíssimo espetáculo dedicado à pintora mexicana Frida Kahlo. Fui assistir com grande expectativa e curiosidade, imaginando como seria possível “dançar uma artista” que extraiu da limitação física força transcendente para transformar sua própria vida em elemento de criação: “Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”.
O balé é uma celebração da vida. A cena se abre com Daniela/Frida atada sobre a cama. O figurino, composto por um macacão bege grudado à pele com desenhos de faixas brancas sobrepostas, sugeria a idéia do colete usado pela pintora. Durante vinte minutos – tempo que parece infinito – a bailarina, através de insistentes e tensos movimentos, tenta vencer o não movimento.
O clima angustiante é intensificado pela beleza do pungente tango do argentino Blás Rivera. Daniela dançou o prazer e a dor no percurso de desvelamento do ser feminino. Das trevas à luz é delicado e doloroso o desabrochar de Frida. Lembro-me de um momento forte, final do espetáculo, em que ela se lambuzava de tinta vermelha, uma alusão ao sangue, ao nascimento, ao aborto.
Daniela Guimarães imprime a marca de sua criatividade em tudo o que faz. Agora em Cataguases, à frente do Centro das Tradições Mineiras-CTM – mas sem abandonar Juiz de Fora, onde continua também à frente da Cia Cos´è? Teatro-Dança – ela vai transformando o mundo em movimento. O balé apresentado por duas vezes na praça Santa Rita me deixou extasiada: como o cineasta Paulo Cezar Saraceni, também eu não pude conter as lágrimas quando entraram as músicas “O mundo é um moinho” de Cartola e “Bachianas Brasileiras” de Villa-Lobos.
Tudo tão brasileiro e ao mesmo tempo universal. Nos quinze anos que passei dançando na academia Real Ballet em Juiz de Fora (e lá se vão outros quinze anos), não me lembro de ter visto algo tão forte. O grupo “Corpo” muito me impressionou com “Maria Maria” e “Nazareth”, mas Daniela Guimarães me tocou ainda mais pela humanidade de seu trabalho.
Assim como no jazz, os bailarinos da Cia Ormeo Teatro-Dança (do CTM) são co-autores na criação coreográfica, jovens treinados para explorar suas mil e uma possibilidades. Criam/recriam, invadem espaços, interagem com o público quando a empatia é forte. Cada bailarino é único, singular, vivencia a plenitude dos movimentos conforme o ambiente, a emoção, o sentido despertado no momento. Isso é original. É fortemente moderno.
Na cerimônia de encerramento do Cineport, Daniela e as bailarinas da Cia Cos´è? deram um show de maturidade, talento e beleza. Pelo profissionalismo, parecia coisa do Oscar, não fosse o Oscar coisa tão brega. Mas é claro que elas dançavam o Brasil, de muitos sons e mil-tons geniais – salve, Caetano! A pele na textura da tela naquela projeção tão delicada em que a bailarina falava de si mesma e de outras mulheres. Mais uma vez o forte desnudamento do ser feminino. Na cena da chuva eu me lembrei de “A falecida” de Nelson Rodrigues, naquela cena fantástica do filme de Leon Hirszman em que Fernanda Montenegro se comprazia na chuva com os braços e todo o corpo liberto.
Acompanhei a tudo, absorvida, como no belo momento em que as bailarinas deram ainda mais ritmo e intensidade às imagens do filme “Nhá Fala” do cineasta guineense Flora Gomes, que estava em Cataguases e no Centro Cultural Humberto Mauro, assistindo a esse instante luminoso. Na cena final, sentados no proscênio, os bailarinos marcavam o ritmo com palmas. Que viraram aplausos. Para o Cineport, para a platéia, para si mesmos. E para a poesia que pairava em tudo.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Amarelo Manga/Vermelho Satã
Cataguases já vive em tempo de cinema, antecipando o Festival Cineport que começa em junho. Depois de “Bye bye Brasil” e “O caminho das nuvens”, o Centro Cultural Humberto Mauro exibiu semana passada “Amarelo Manga” e “Madame Satã”, dois filmes de temáticas contundentes, que causaram muitas controvérsias naqueles espectadores que resistiram no escurinho até o último segundo, antes do acender das luzes E foram poucos os que restaram até o fim: o que não é nada assim tão surpreendente diante da explícita crueza das duas obras. Isso me fez lembrar de uma semana de filmes alternativos em Juiz de Fora nos idos de 90. Recordo-me que, no último dia, quando projetaram “A lei do desejo”, de Pedro Almodóvar, quase todo mundo se retirou antes do final, restando apenas uns dois professores, mais uns três alunos “altenartivos” e apenas um casal mais idoso. Almodóvar incomodou, Almodóvar ainda incomoda pelo despudor e beleza ao expor temas polêmicos como o homossexualismo.
“A lei do desejo”, filme com alta dosagem de ironia kitsch e personagens exóticos, era mais suave pelo viés do humor. Já “Madame Satã” é um filme muito mais impactante pelo tratamento mostrado ao desvelar a vida de João Francisco dos Santos, um absoluto marginal. O personagem-título foi um homem vitimado por todos os tipos de preconceito que um ser humano pode sofrer: negro, pobre, analfabeto, homossexual. O diretor Karim Ainouz procura fazer com que seu personagem transcenda a condição de total excluído num mundo já em si excluído – o submundo da Lapa nos anos 30. Para isso, mostra um Francisco-Madame Satã que tem na suposta arte do canto um modo de purgar sua miserável condição de vida.
É primorosa a fotografia de Walter Carvalho ao explorar com alto potencial plástico o vermelho e o negro, desencadeando um permanente conflito entre as pulsões de Eros e Tanatos. Amor e morte perpassam toda a narrativa: o sangue e o sexo, o gozo e a dor, a sensualidade e o obscurantismo. Madame Satã é um personagem emblemático por sua rica imperfeição suja, o que faz lembrar o marginal Jean Genet, homossexual, bandido, mas principalmente um grande escritor, que fascinou Sartre. Apesar do choque que provoca em muitos espectadores, o filme de Karim Ainouz não eleva a questão homossexual como principal foco de análise, como bem disse no debate o dramaturgo Alcione Araújo. Vale mesmo é a evasão lírica.
“Amarelo Manga”, o segundo filme em debate, é obra totalmente crua, que remete à estética naturalista dos romances de Aluízio de Azevedo, como “Casa de pensão” e “O cortiço”. Nesse filme todos os personagens são reduzidos à sua limitada condição animal, pois sobrevivem unicamente para saciar a fome do estômago e do sexo. Ele perturba justamente por não apresentar saídas. Não há nenhuma espécie de evasão, todos os personagens vivem/sobrevivem num cotidiano amorfo, insosso, deserotizado, amarelo.
O que mais chocou a platéia, quase inteiramente feminina, foi o close de uma genitália também feminina e totalmente desnuda. Risadas tensas para cá, risadas muito irônicas para lá, retiradas rápidas de pessoas ofendidas. Creio que a ausência de sedução erótica foi o que causou de fato a reação de ojeriza em muitos. A cena choca por não ter nenhum conteúdo lírico – e seu proposito era justamente esse.
“Amarelo Manga” é um bom filme em sua totalidade. Tão bom que provocou até mesmo revisão de conceitos. Uma espectadora muito atenta e participante disse que, após o mergulho interior proporcionado por ele, iria sair do cinema mais “mudada”, mais madura, mais aberta para entender o mundo e compreender suas próprias limitações. Como nas palavras do dramaturgo Alcione Araújo: “Tudo o que pertence ao humano não nos deve ser estranho”.
Cataguases já vive em tempo de cinema, antecipando o Festival Cineport que começa em junho. Depois de “Bye bye Brasil” e “O caminho das nuvens”, o Centro Cultural Humberto Mauro exibiu semana passada “Amarelo Manga” e “Madame Satã”, dois filmes de temáticas contundentes, que causaram muitas controvérsias naqueles espectadores que resistiram no escurinho até o último segundo, antes do acender das luzes E foram poucos os que restaram até o fim: o que não é nada assim tão surpreendente diante da explícita crueza das duas obras. Isso me fez lembrar de uma semana de filmes alternativos em Juiz de Fora nos idos de 90. Recordo-me que, no último dia, quando projetaram “A lei do desejo”, de Pedro Almodóvar, quase todo mundo se retirou antes do final, restando apenas uns dois professores, mais uns três alunos “altenartivos” e apenas um casal mais idoso. Almodóvar incomodou, Almodóvar ainda incomoda pelo despudor e beleza ao expor temas polêmicos como o homossexualismo.
“A lei do desejo”, filme com alta dosagem de ironia kitsch e personagens exóticos, era mais suave pelo viés do humor. Já “Madame Satã” é um filme muito mais impactante pelo tratamento mostrado ao desvelar a vida de João Francisco dos Santos, um absoluto marginal. O personagem-título foi um homem vitimado por todos os tipos de preconceito que um ser humano pode sofrer: negro, pobre, analfabeto, homossexual. O diretor Karim Ainouz procura fazer com que seu personagem transcenda a condição de total excluído num mundo já em si excluído – o submundo da Lapa nos anos 30. Para isso, mostra um Francisco-Madame Satã que tem na suposta arte do canto um modo de purgar sua miserável condição de vida.
É primorosa a fotografia de Walter Carvalho ao explorar com alto potencial plástico o vermelho e o negro, desencadeando um permanente conflito entre as pulsões de Eros e Tanatos. Amor e morte perpassam toda a narrativa: o sangue e o sexo, o gozo e a dor, a sensualidade e o obscurantismo. Madame Satã é um personagem emblemático por sua rica imperfeição suja, o que faz lembrar o marginal Jean Genet, homossexual, bandido, mas principalmente um grande escritor, que fascinou Sartre. Apesar do choque que provoca em muitos espectadores, o filme de Karim Ainouz não eleva a questão homossexual como principal foco de análise, como bem disse no debate o dramaturgo Alcione Araújo. Vale mesmo é a evasão lírica.
“Amarelo Manga”, o segundo filme em debate, é obra totalmente crua, que remete à estética naturalista dos romances de Aluízio de Azevedo, como “Casa de pensão” e “O cortiço”. Nesse filme todos os personagens são reduzidos à sua limitada condição animal, pois sobrevivem unicamente para saciar a fome do estômago e do sexo. Ele perturba justamente por não apresentar saídas. Não há nenhuma espécie de evasão, todos os personagens vivem/sobrevivem num cotidiano amorfo, insosso, deserotizado, amarelo.
O que mais chocou a platéia, quase inteiramente feminina, foi o close de uma genitália também feminina e totalmente desnuda. Risadas tensas para cá, risadas muito irônicas para lá, retiradas rápidas de pessoas ofendidas. Creio que a ausência de sedução erótica foi o que causou de fato a reação de ojeriza em muitos. A cena choca por não ter nenhum conteúdo lírico – e seu proposito era justamente esse.
“Amarelo Manga” é um bom filme em sua totalidade. Tão bom que provocou até mesmo revisão de conceitos. Uma espectadora muito atenta e participante disse que, após o mergulho interior proporcionado por ele, iria sair do cinema mais “mudada”, mais madura, mais aberta para entender o mundo e compreender suas próprias limitações. Como nas palavras do dramaturgo Alcione Araújo: “Tudo o que pertence ao humano não nos deve ser estranho”.
Nara: saudades imaginárias
Nesses tempos de muitos funks, sertanejos e outras breguices do gênero, o selo Biscoito Fino lança no mercado o primeiro DVD da cantora Nara Leão. Este DVD é mais um que integra uma série de programas especiais dedicados a artistas da música popular brasileira como Elis Regina, Paulinho da Viola, Wanda Sá e Gal Costa.
O Especial reproduz a entrevista de Nara no programa “Ensaio”, da TV Cultura, realizado em 1973 por Fernando Faro, que continua até hoje à sua frente (melhor dizendo, por trás das câmeras). A voz e a imagem em off do entrevistador, aliada ao preto e branco da transmissão, reforça o clima intimista e transmite um quê de sensualidade, mistério e delicadeza, esta última a marca maior da musa portadora dos joelhos mais famosos da MPB. Joelhos que se encontram na imaginação dos espectadores, é claro, pois a tônica dos programas realizados por Fernando Faro é manter o entrevistado permanentemente em close, captando as mínimas nuances de seu rosto.
O resgate das imagens dos programas dirigidos por Fernando Faro é de fundamental importância para a preservação não só da história musical, mas também política de nosso país. Nara Leão foi um nome de grande importância na cultura brasileira na segunda metade do século XX. Tímida e paradoxalmente inquieta, corajosa, inovadora, nos seus vinte e cinco anos de carreira, correu em busca do registro de uma arte compatível com sua “verdadeira natureza interior” (como diz Gilberto Gil em Copo Vazio: “Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho/ que o vinho busca ocupar o lugar da dor/ que a dor ocupa a metade da verdade/ a verdadeira natureza interior”).
Nara Leão é a cantora que reuniu o melhor repertório do cancioneiro nacional. Gravou Nelson Cavaquinho, Sidney Miller, Zé Keti, Chico Buarque, Tom Jobim, João do Vale, Paulinho da Viola, Carlos Lyra, Dorival Caymmi, Edu Lobo, Vinicius de Moraes, Assis Valente, Sueli Costa, Villa-Lobos, Ernesto Nazareth e até mesmo um belo disco inteiramente dedicado ao Rei Roberto Carlos.
O DVD inicia com Nara interpretando a capella a canção “Soneto” de Chico Buarque, compositor que ela também homenageou no álbum “Com açúcar, com afeto”, de 1980: “Gravei muita coisa dele”, diz Nara, “nem sei direito o que mais. Do Chico eu me lembro de uma música que eu pedi que ele fizesse pra mim. Eu gosto muito de música que a mulher fica em casa chorosa e o marido na rua farreando. Você vê que eu canto “Fez bobagem” (Assis Valente), “Camisa amarela” (Ary Barroso). Chico fez para mim “Com açúcar com afeto”.
Com a voz pequena, no registro de soprano quase ligeiro, Nara imprime uma delicadeza e simultânea carga de emoção que causa impacto naqueles que a assistem pela primeira vez. A câmera persegue detalhadamente os movimentos da cantora, captando toda a sua expressividade. Acompanhada durante todo o tempo somente por seu violão, ela depura cada nota, cada acorde. Em “Morena do mar” de Caymmi, Nara Leão canta com tamanha suavidade que parece que a brisa leve do vento toca seus cabelos: “Para te agradar/ Ai, eu trouxe os peixinhos do mar, morena/ Para te enfeitar, eu trouxe as conchinhas do mar/ As estrelas do céu, morena/ E as estrelas do mar/ Ai, as pratas e os ouros de Iemanjá”.
Absolutamente espontânea, Nara fala sobre o acontecimento da música em sua vida, com o charme de um humor levemente Bossa Nova: “Eu andava com esse negócio de cinema porque eu pensava em ser montadora de filmes. E aprendi a fazer montagem. Naquela época, eu queria ser montadora, eu não pensava em ser cantora. Eu cantava, eu fazia gravuras, eu queria fazer montagem de filmes, fazia várias coisas. Até hoje eu não sei o que eu vou ser na vida”.
Mesmo a contragosto, Nara jamais deixou de ser a legítima representante da Bossa Nova. Avessa à postura ortodoxa que marcou muitos de seus companheiros, ela sempre esteve à frente e acima de qualquer rótulo. Nara sabia o que queria, tinha total consciência do que cantava: “Devo dizer que eu não sou nada preconceituosa. Então, vendo uma coisa que eu gosto, que acho bom e que acho renovador, eu não tenho preconceitos para dizer que não canto porque não cantava antes”.
“Eu sou um nostálgico de tudo aquilo que eu não vivi” disse certa vez Ed Motta numa entrevista. Guardei essa frase como se fosse minha. Fico imaginando Nara Leão e sinto saudades.
Nesses tempos de muitos funks, sertanejos e outras breguices do gênero, o selo Biscoito Fino lança no mercado o primeiro DVD da cantora Nara Leão. Este DVD é mais um que integra uma série de programas especiais dedicados a artistas da música popular brasileira como Elis Regina, Paulinho da Viola, Wanda Sá e Gal Costa.
O Especial reproduz a entrevista de Nara no programa “Ensaio”, da TV Cultura, realizado em 1973 por Fernando Faro, que continua até hoje à sua frente (melhor dizendo, por trás das câmeras). A voz e a imagem em off do entrevistador, aliada ao preto e branco da transmissão, reforça o clima intimista e transmite um quê de sensualidade, mistério e delicadeza, esta última a marca maior da musa portadora dos joelhos mais famosos da MPB. Joelhos que se encontram na imaginação dos espectadores, é claro, pois a tônica dos programas realizados por Fernando Faro é manter o entrevistado permanentemente em close, captando as mínimas nuances de seu rosto.
O resgate das imagens dos programas dirigidos por Fernando Faro é de fundamental importância para a preservação não só da história musical, mas também política de nosso país. Nara Leão foi um nome de grande importância na cultura brasileira na segunda metade do século XX. Tímida e paradoxalmente inquieta, corajosa, inovadora, nos seus vinte e cinco anos de carreira, correu em busca do registro de uma arte compatível com sua “verdadeira natureza interior” (como diz Gilberto Gil em Copo Vazio: “Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho/ que o vinho busca ocupar o lugar da dor/ que a dor ocupa a metade da verdade/ a verdadeira natureza interior”).
Nara Leão é a cantora que reuniu o melhor repertório do cancioneiro nacional. Gravou Nelson Cavaquinho, Sidney Miller, Zé Keti, Chico Buarque, Tom Jobim, João do Vale, Paulinho da Viola, Carlos Lyra, Dorival Caymmi, Edu Lobo, Vinicius de Moraes, Assis Valente, Sueli Costa, Villa-Lobos, Ernesto Nazareth e até mesmo um belo disco inteiramente dedicado ao Rei Roberto Carlos.
O DVD inicia com Nara interpretando a capella a canção “Soneto” de Chico Buarque, compositor que ela também homenageou no álbum “Com açúcar, com afeto”, de 1980: “Gravei muita coisa dele”, diz Nara, “nem sei direito o que mais. Do Chico eu me lembro de uma música que eu pedi que ele fizesse pra mim. Eu gosto muito de música que a mulher fica em casa chorosa e o marido na rua farreando. Você vê que eu canto “Fez bobagem” (Assis Valente), “Camisa amarela” (Ary Barroso). Chico fez para mim “Com açúcar com afeto”.
Com a voz pequena, no registro de soprano quase ligeiro, Nara imprime uma delicadeza e simultânea carga de emoção que causa impacto naqueles que a assistem pela primeira vez. A câmera persegue detalhadamente os movimentos da cantora, captando toda a sua expressividade. Acompanhada durante todo o tempo somente por seu violão, ela depura cada nota, cada acorde. Em “Morena do mar” de Caymmi, Nara Leão canta com tamanha suavidade que parece que a brisa leve do vento toca seus cabelos: “Para te agradar/ Ai, eu trouxe os peixinhos do mar, morena/ Para te enfeitar, eu trouxe as conchinhas do mar/ As estrelas do céu, morena/ E as estrelas do mar/ Ai, as pratas e os ouros de Iemanjá”.
Absolutamente espontânea, Nara fala sobre o acontecimento da música em sua vida, com o charme de um humor levemente Bossa Nova: “Eu andava com esse negócio de cinema porque eu pensava em ser montadora de filmes. E aprendi a fazer montagem. Naquela época, eu queria ser montadora, eu não pensava em ser cantora. Eu cantava, eu fazia gravuras, eu queria fazer montagem de filmes, fazia várias coisas. Até hoje eu não sei o que eu vou ser na vida”.
Mesmo a contragosto, Nara jamais deixou de ser a legítima representante da Bossa Nova. Avessa à postura ortodoxa que marcou muitos de seus companheiros, ela sempre esteve à frente e acima de qualquer rótulo. Nara sabia o que queria, tinha total consciência do que cantava: “Devo dizer que eu não sou nada preconceituosa. Então, vendo uma coisa que eu gosto, que acho bom e que acho renovador, eu não tenho preconceitos para dizer que não canto porque não cantava antes”.
“Eu sou um nostálgico de tudo aquilo que eu não vivi” disse certa vez Ed Motta numa entrevista. Guardei essa frase como se fosse minha. Fico imaginando Nara Leão e sinto saudades.
Aquele “cheiro Cataguases”
Fátima Guedes: “Ai, ai o mato, o cheiro seu/ um rouxinol no meio do Brasil”. Djalma Ferreira: “É aquele cheiro de saudade/ que me traz você a cada instante”. Como as canções, também os cheiros são cercados de vida: cheiro de livro antigo, cheiro de livro novo, cheiro de pão saltando do forno, cheiro “verde” do eucalipto na sauna, cheiro de roupa nova, cheiro de caderno novo, cheiro de shampu no cabelo, cheiro de pipoca, cheiro de chocolate, cheiro de canela, cheiro de gasolina, aquele bouquet do vinho.
Para mamãe, abacaxi cheira a piscina. Já minha irmã acha mesmo que abacaxi tem cheiro de abacaxi, uai! Para papai, o cheiro do figo se fixa na memória, como o cheiro de jornal, o cheiro de tinta. Há aquele “cheiro de maçã evocando a metrópole” como diz o Ronaldo Werneck em seu Pomba Poema. E pra mim há aquele aroma, o inesquecível cheiro da “flor-do-samba”, aquele perfume da flor dama-da-noite que impregnava as quadras de ensaio das escolas de samba de Juiz de Fora.
Ainda outro dia, caminhando em Cataguases, naquele vaivém da avenida Humberto Mauro, senti o forte perfume da “flor-do-samba”, o que me proporcionou uma súbita sensação de conforto e acolhimento. Ali na Humberto Mauro, com suas árvores simetricamente distribuídas, o córrego, os paralelepípedos, tudo transmite uma bucólica, convidativa serenidade.
E o cheiro de Cataguases? Ela cheira a cultura no charme de seus espaços. Uma plácida beleza reveste esta cidade que respira arte por todos os poros. Em cada canto, uma obra de um artista de renome, o que vem me tocando profundamente nesses quase quatro meses em que aqui estou. O Portinari das “Fiandeiras”, a Violeta de Sonia Ebling, o Colégio, a Santa Rita da Djanira. E também a imponência da ponte metálica.
Os contrastes convivem numa síntese harmônica entre o tradicional e o moderno: casas, painéis, esculturas, igrejas, árvores, muitas árvores e muita, muita gente jovem, coisas que fazem de Cataguases uma cidade aberta para o novo. Pelo menos, é o que acredito. Uma cidade hospitaleira que recebe pessoas de grandes centros e que numa saudável “antropofagia cultural” assimila as contribuições e as devolve ao povo. E que se prepara para oferecer o que tem de melhor aos visitantes, como se vê pela recente implantação na chacára Dona Catarina do vagão de informações turísticas.
Para mim, um dos dias mais prazerosos desde que aqui estou , um dos momentos em que me senti mais integrada ao astral cataguasense, foi quando assisti no teatro Rosário Fusco à excelente jam-session do baterista Afonsinho Vieira, acompanhado por músicos da pesada como o baixista Jimmy Santa-Cruz, o saxofonista Val e o pianista Chiquinho Neto. Eu estava em Cataguases, eu estava no mundo. Percebi que não havia fronteiras. Unidos pela música, unidos pela sensibilidade, saímos todos para o jantar após o show.
O papo rolou solto, pleno de improvisos, num clima de agradável descontração. Jazz puro. Noite de jazz livre, de free-jazz em Cataguases. Nunca me senti tão em casa. Não o saxofonista Val, que é moço e muito novo, mas com certeza Afonsinho, Jimmy e Chiquinho conhecem, ouviram e talvez até mesmo tenham tocado com Djalma Ferreira. Pois é, todo aquele cheiro de saudade de um Rio pré-bossa nova, tempos que eu também gostaria de ter vivido. “A canção/ a praça/ o perfume/ tudo no tempo estancado”, como já disse aquele poeta. Quem mesmo? O Ronaldo, gente, que gosta tanto desta cidade que parece estar impregnado de um “cheiro Cataguases”. Que é único.
Fátima Guedes: “Ai, ai o mato, o cheiro seu/ um rouxinol no meio do Brasil”. Djalma Ferreira: “É aquele cheiro de saudade/ que me traz você a cada instante”. Como as canções, também os cheiros são cercados de vida: cheiro de livro antigo, cheiro de livro novo, cheiro de pão saltando do forno, cheiro “verde” do eucalipto na sauna, cheiro de roupa nova, cheiro de caderno novo, cheiro de shampu no cabelo, cheiro de pipoca, cheiro de chocolate, cheiro de canela, cheiro de gasolina, aquele bouquet do vinho.
Para mamãe, abacaxi cheira a piscina. Já minha irmã acha mesmo que abacaxi tem cheiro de abacaxi, uai! Para papai, o cheiro do figo se fixa na memória, como o cheiro de jornal, o cheiro de tinta. Há aquele “cheiro de maçã evocando a metrópole” como diz o Ronaldo Werneck em seu Pomba Poema. E pra mim há aquele aroma, o inesquecível cheiro da “flor-do-samba”, aquele perfume da flor dama-da-noite que impregnava as quadras de ensaio das escolas de samba de Juiz de Fora.
Ainda outro dia, caminhando em Cataguases, naquele vaivém da avenida Humberto Mauro, senti o forte perfume da “flor-do-samba”, o que me proporcionou uma súbita sensação de conforto e acolhimento. Ali na Humberto Mauro, com suas árvores simetricamente distribuídas, o córrego, os paralelepípedos, tudo transmite uma bucólica, convidativa serenidade.
E o cheiro de Cataguases? Ela cheira a cultura no charme de seus espaços. Uma plácida beleza reveste esta cidade que respira arte por todos os poros. Em cada canto, uma obra de um artista de renome, o que vem me tocando profundamente nesses quase quatro meses em que aqui estou. O Portinari das “Fiandeiras”, a Violeta de Sonia Ebling, o Colégio, a Santa Rita da Djanira. E também a imponência da ponte metálica.
Os contrastes convivem numa síntese harmônica entre o tradicional e o moderno: casas, painéis, esculturas, igrejas, árvores, muitas árvores e muita, muita gente jovem, coisas que fazem de Cataguases uma cidade aberta para o novo. Pelo menos, é o que acredito. Uma cidade hospitaleira que recebe pessoas de grandes centros e que numa saudável “antropofagia cultural” assimila as contribuições e as devolve ao povo. E que se prepara para oferecer o que tem de melhor aos visitantes, como se vê pela recente implantação na chacára Dona Catarina do vagão de informações turísticas.
Para mim, um dos dias mais prazerosos desde que aqui estou , um dos momentos em que me senti mais integrada ao astral cataguasense, foi quando assisti no teatro Rosário Fusco à excelente jam-session do baterista Afonsinho Vieira, acompanhado por músicos da pesada como o baixista Jimmy Santa-Cruz, o saxofonista Val e o pianista Chiquinho Neto. Eu estava em Cataguases, eu estava no mundo. Percebi que não havia fronteiras. Unidos pela música, unidos pela sensibilidade, saímos todos para o jantar após o show.
O papo rolou solto, pleno de improvisos, num clima de agradável descontração. Jazz puro. Noite de jazz livre, de free-jazz em Cataguases. Nunca me senti tão em casa. Não o saxofonista Val, que é moço e muito novo, mas com certeza Afonsinho, Jimmy e Chiquinho conhecem, ouviram e talvez até mesmo tenham tocado com Djalma Ferreira. Pois é, todo aquele cheiro de saudade de um Rio pré-bossa nova, tempos que eu também gostaria de ter vivido. “A canção/ a praça/ o perfume/ tudo no tempo estancado”, como já disse aquele poeta. Quem mesmo? O Ronaldo, gente, que gosta tanto desta cidade que parece estar impregnado de um “cheiro Cataguases”. Que é único.
Boca de guaraná
Quando eu era criança sonhava usar sutiã, calçar sapatos altos e passar maquiagem. Mamãe, é claro, fez boca feia. Boca feia de quem nada gostou. Dizia-me que cada coisa tinha seu tempo, e que ser criança era o que melhor havia na vida. Ser criança para mim sempre foi muito chato. Significava tudo muito “sempre”. Sempre dormir cedo, usar sempre o mesmo uniforme da escola, escovar sempre “toooodos os dentes”, comer sempre salada, ir sempre à missa aos domingos, emprestar sempre meus brinquedos para o meu irmão, ir sempre para o colégio no mesmo ônibus escolar, sair sempre cedo da piscina (antes que a boca ficasse torrada de sol), fazer sempre os deveres da escola, não mexer nos enfeites da casa da tia Ruth. Sempre. Mal sabia eu que, quando me tornasse gente grande, os sempres, mesmo que um pouco diferentes, nunca deixariam de existir.
“Autodidata”, aprendi a maquiar sozinha; primeiro outras meninas, é claro. Minhas obedientes bonecas eram a Marisa, a Marivalda, a Priscila e a Clarice. A grande companheira mesmo era a Marisa, que aceitava de boca calada e sem revolta todos os “make-ups”. Ela era “fashion”, tinha pele branca, barriga de tanquinho e cabelos e boca tão vermelhos como os de Rita Lee.
Marisa era a famosa boneca “amiguinha”, grande e com a aparência de uma criança de uns cinco anos. Eu fazia barbaridades com ela. Como usávamos praticamente o mesmo tamanho de roupa, todos os meus vestidos, shorts e camisetas lhe cabiam bem. Exceto as calças boca de sino, que mais pareciam as bocas das casquinhas de sorvete de cabeça para baixo. Nela tudo ganhava um novo “look”, quando eu abusava dos acessórios: pulseiras de caneta (juro que existiam: eram canetas que se enroscavam na forma de pulseiras coloridas), anéis de camelô e tatuagens de chicletes “ploc”.
A maquiagem era feita minuciosamente, valorizando os detalhes do rosto de Marisa. De início, eu limpava sua pele com sabonete “lux luxo”, em seguida passava leite de rosas para deixá-la bem cheirosa. Ficava até meio de dar água na boca a minha Marisa. Como eu só tinha uma base muito escura, cobria seu rosto com uma camada de talco. Daí Marisa voltava a adquirir novamente sua tez de boneca, só que meio Michael Jackson. Aí já era meio “boca na água”.
As sombras muitas vezes eram substituídas por canetinhas hidrocor de várias cores. Suas pálpebras viravam um verdadeiro arco-íris. As mesmas canetas serviam também para embelezar suas bochechas. Fazia uma bolinha vermelha em cada lado da bochecha e esfregava bastante para conseguir um tom uniforme. Era mesmo de dar água na boca.
O melhor de toda a produção era o toque final. Nenhuma mulher chique podia ficar sem batom, pensava eu enquanto lambuzava a boca de Marisa com manteiga de cacau e vários batons da mamãe. Boca louca. Louca boca se transformava a boca de Marisa. Carnuda como a boca de Angelina Jolie, boca carnuda como a de Sophia Loren.
Boca grande e sempre vermelha como a de Gal Costa.
As bocas que desenhava para Marisa, meio que premonitórias, iriam se repetir em encontros e achados ao longo da minha vida. Ou não era de Marisa a boca murcha (quando sem trumpete) de Chet Baker? A boca suja de Dercy Gonçalves, a boca preta de Milton Nascimento, a preta e sonora e grandiosa boca de Billie Holliday? De Marisa também, tenho certeza, a boca cantante de Elis. E, é claro, a de Marisa Monte.
Explorar a boca de Marisa foi sempre o meu maior deleite. Só mais tarde ganhei, como presente de aniversário, um maravilhoso estojo de maquiagem, todo meu, que pude experimentar na própria pele. “Magic face” era uma maquiagem especial para crianças, que vinha numa caixa grande como a do jogo Máster Júnior.
Papai foi comigo até o “Del Center” de Juiz de Fora para comprar o fascinante “Magic face”. Quando abri a caixa, a mágica se fez: pura ‘magic face”. Sombras amarelas, verdes, rosas, azuis e vermelhas. Pós compactos, rouges e batons das mais variadas cores. Minha vontade era de passar tudo de só uma vez nos olhos e na boca, deixar meu rosto como se fosse uma tela de Pollock.
Gostei muito da diversidade da maquiagem, porém ela não parecia nem de gente como mamãe, nem de boneca-gente como Marisa. As sombras eram secas e ásperas, iguais ao giz que a professora usava no quadro. Brilho também pareciam não ter. Como aniversário não se faz todo dia, nos meus sete anos enfeitei meu rosto como se fosse participar de um desfile de escola de samba.
“Com muitos brilhos me vesti e depois me pintei me pintei me pintei me pintei”. Cauby perderia de longe pra minha maquiagem. Minha boca ficou maior que a do Palhaço Fuzil, pois a cada camada de batom a boca crescia um centímetro. Pus na boca batom vermelho, batom rosa, batom vinho, batom marrom. Batom, batom, batom, boca boca boca boca.
Apareci na festa com a boca cheia de cor e de fome. Estava me achando linda. Não me lembro se alguém disse: uau, que boca! Mas que nada, boca nada calada, nada a ver com a do meu amigo Dnar Rocha, que pouco falava e muito pintava. Boca pintada sim, pintadíssima boca toda melada, boca macia, boca trancada, boca pequena e solta boca em busca de delírios bucais, boca-de-cajuzinho, boca-de-brigadeiro, boca-de-olho-de-sogra, boca-de-bolo, boca molhada e gostosa de guaraná.
Quando eu era criança sonhava usar sutiã, calçar sapatos altos e passar maquiagem. Mamãe, é claro, fez boca feia. Boca feia de quem nada gostou. Dizia-me que cada coisa tinha seu tempo, e que ser criança era o que melhor havia na vida. Ser criança para mim sempre foi muito chato. Significava tudo muito “sempre”. Sempre dormir cedo, usar sempre o mesmo uniforme da escola, escovar sempre “toooodos os dentes”, comer sempre salada, ir sempre à missa aos domingos, emprestar sempre meus brinquedos para o meu irmão, ir sempre para o colégio no mesmo ônibus escolar, sair sempre cedo da piscina (antes que a boca ficasse torrada de sol), fazer sempre os deveres da escola, não mexer nos enfeites da casa da tia Ruth. Sempre. Mal sabia eu que, quando me tornasse gente grande, os sempres, mesmo que um pouco diferentes, nunca deixariam de existir.
“Autodidata”, aprendi a maquiar sozinha; primeiro outras meninas, é claro. Minhas obedientes bonecas eram a Marisa, a Marivalda, a Priscila e a Clarice. A grande companheira mesmo era a Marisa, que aceitava de boca calada e sem revolta todos os “make-ups”. Ela era “fashion”, tinha pele branca, barriga de tanquinho e cabelos e boca tão vermelhos como os de Rita Lee.
Marisa era a famosa boneca “amiguinha”, grande e com a aparência de uma criança de uns cinco anos. Eu fazia barbaridades com ela. Como usávamos praticamente o mesmo tamanho de roupa, todos os meus vestidos, shorts e camisetas lhe cabiam bem. Exceto as calças boca de sino, que mais pareciam as bocas das casquinhas de sorvete de cabeça para baixo. Nela tudo ganhava um novo “look”, quando eu abusava dos acessórios: pulseiras de caneta (juro que existiam: eram canetas que se enroscavam na forma de pulseiras coloridas), anéis de camelô e tatuagens de chicletes “ploc”.
A maquiagem era feita minuciosamente, valorizando os detalhes do rosto de Marisa. De início, eu limpava sua pele com sabonete “lux luxo”, em seguida passava leite de rosas para deixá-la bem cheirosa. Ficava até meio de dar água na boca a minha Marisa. Como eu só tinha uma base muito escura, cobria seu rosto com uma camada de talco. Daí Marisa voltava a adquirir novamente sua tez de boneca, só que meio Michael Jackson. Aí já era meio “boca na água”.
As sombras muitas vezes eram substituídas por canetinhas hidrocor de várias cores. Suas pálpebras viravam um verdadeiro arco-íris. As mesmas canetas serviam também para embelezar suas bochechas. Fazia uma bolinha vermelha em cada lado da bochecha e esfregava bastante para conseguir um tom uniforme. Era mesmo de dar água na boca.
O melhor de toda a produção era o toque final. Nenhuma mulher chique podia ficar sem batom, pensava eu enquanto lambuzava a boca de Marisa com manteiga de cacau e vários batons da mamãe. Boca louca. Louca boca se transformava a boca de Marisa. Carnuda como a boca de Angelina Jolie, boca carnuda como a de Sophia Loren.
Boca grande e sempre vermelha como a de Gal Costa.
As bocas que desenhava para Marisa, meio que premonitórias, iriam se repetir em encontros e achados ao longo da minha vida. Ou não era de Marisa a boca murcha (quando sem trumpete) de Chet Baker? A boca suja de Dercy Gonçalves, a boca preta de Milton Nascimento, a preta e sonora e grandiosa boca de Billie Holliday? De Marisa também, tenho certeza, a boca cantante de Elis. E, é claro, a de Marisa Monte.
Explorar a boca de Marisa foi sempre o meu maior deleite. Só mais tarde ganhei, como presente de aniversário, um maravilhoso estojo de maquiagem, todo meu, que pude experimentar na própria pele. “Magic face” era uma maquiagem especial para crianças, que vinha numa caixa grande como a do jogo Máster Júnior.
Papai foi comigo até o “Del Center” de Juiz de Fora para comprar o fascinante “Magic face”. Quando abri a caixa, a mágica se fez: pura ‘magic face”. Sombras amarelas, verdes, rosas, azuis e vermelhas. Pós compactos, rouges e batons das mais variadas cores. Minha vontade era de passar tudo de só uma vez nos olhos e na boca, deixar meu rosto como se fosse uma tela de Pollock.
Gostei muito da diversidade da maquiagem, porém ela não parecia nem de gente como mamãe, nem de boneca-gente como Marisa. As sombras eram secas e ásperas, iguais ao giz que a professora usava no quadro. Brilho também pareciam não ter. Como aniversário não se faz todo dia, nos meus sete anos enfeitei meu rosto como se fosse participar de um desfile de escola de samba.
“Com muitos brilhos me vesti e depois me pintei me pintei me pintei me pintei”. Cauby perderia de longe pra minha maquiagem. Minha boca ficou maior que a do Palhaço Fuzil, pois a cada camada de batom a boca crescia um centímetro. Pus na boca batom vermelho, batom rosa, batom vinho, batom marrom. Batom, batom, batom, boca boca boca boca.
Apareci na festa com a boca cheia de cor e de fome. Estava me achando linda. Não me lembro se alguém disse: uau, que boca! Mas que nada, boca nada calada, nada a ver com a do meu amigo Dnar Rocha, que pouco falava e muito pintava. Boca pintada sim, pintadíssima boca toda melada, boca macia, boca trancada, boca pequena e solta boca em busca de delírios bucais, boca-de-cajuzinho, boca-de-brigadeiro, boca-de-olho-de-sogra, boca-de-bolo, boca molhada e gostosa de guaraná.
Mariana mensageira da música
Aproximadamente a cada dez anos o mercado fonográfico aposta pesado e lança novas cantoras. Recordo-me que, no início dos anos noventa, destacavam-se as ditas “cantoras ecléticas”, aquelas que diziam poder cantar tudo sem perder a identidade, pois sua identidade residia justamente na coragem e estranheza com que misturavam ritmos e estilos.
A princípio, usou-se até uma justificativa que sofisticava a falta de método. Dizia-se, por exemplo, que elas seguiam a linha evolutiva dos tropicalistas, que a miscelânea despropositada era fruto de uma consciência, de um upgrade intelectual. Nada disso se conseguiu provar e poucas foram aquelas que sobreviveram, mesmo assim, com um trabalho diferente daquele modismo.
Marisa Monte, aquela que irônicamente era chamada por Nana Caymmi de “a cantorazinha de Nova York”, conseguiu se firmar depois de um disco de estréia ousado para os padrões mercadológicos. Ela gravou Gershwin, Roberto Carlos, Titãs, Rita Lee, Luiz Gonzaga e Tim Maia. Afinadíssima, Marisa mostrava todos os seus malabarismos vocais e inquietava público e crítica, que tentavam defini-la.
Já a gaúcha Adriana Calcanhotto não foi tão bem sucedida em “Enguiço”, seu trabalho de estréia. Conseguiu emplacar em todas as rádios do país o sucesso de “Naquela estação”, bela canção do trio João Donato, Caetano Veloso e Ronaldo Bastos. Mas, em compensação, amargou terríveis críticas às suas interpretações de “Disseram que eu voltei americanizada”, de Luiz Peixoto e Vicente Paiva, sucesso inesquecível na voz de Carmem Miranda, e “Nunca”, de Lupicínio Rodrigues. Adriana viu seu up diferencial ser transformado em armadilha contra si mesma. O deboche, a performance, e sua interpretação num tom um pouco “elevado demais”, fizeram com que parte da crítica não entendesse sua postura antropofágica e a considerasse over demais, desafinada, sem futuro.
Passaram-se mais de dez anos e a duas intérpretes sobreviveram e adquiriram mais força e respeitabilidade. Adriana Calcanhotto, sobretudo, foi desenvolvendo trabalhos que vão de certa forma na contramão da proposta inicial. Trabalhos que mantêm com certeza a força da inteligência crítica. Mas que, em termos de interpretação, seguem cada vez mais uma uniformidade. Os arranjos são mais leves, as interpretações cada vez mais cool: do excesso de “Enguiço”, ela partiu para a contenção minimalista de “ A Fábrica do poema”
Todo esse prelúdio é só para falar de Mariana Aydar, figura para mim absolutamente desconhecida até semana passada, quando ganhei de presente de aniversário seu primeiro cd., “Kavita”. Desde o encarte, uma montagem de várias fotos de Mariana, realizada pelo renomado fotógrafo Bob Wolfenson, nota-se a sofisticação de “Kavita”. O tom clean das imagens mostra o belo rosto da jovem cantora paulista de vinte e seis anos, que iniciou sua carreira ao vinte, tendo como grande incentivadores sua mãe, a produtora Bia Aydar, e seu pai, o músico Mário Manga.
A presença de compositores é diversificada: João Nogueira, Paulo César Pinheiro, Chico César, Leci Brandão, Théo de Barros, João Donato, Rodrigo Amarante, Danilo Caymmi, Giana Viscardi e Eduardo Gudin. Mariana se inclina mais para o samba, suas interpretações trazem um quê de moderno às canções, que é capaz de atrair
a juventude mais conectada no som eletrônico. Não chega ao extremo de um Sérgio Mendes, que em certas ocasiões retalha as músicas com uma profusão de invencionices eletrônicas.
A voz de Mariana Aydar revela extensão e um timbre bonito, que a faz transitar entre interpretações mais suaves, como “Vento no canavial”, de João Donato e Lysias Ênio, e interpretações viscerais como a impactante “Zé do Caroço”, de Leci Brandão.
Confesso que nunca ouvi Leci Brandão interpretar essa canção de sua autoria, nem mesmo sei se ela a gravou, mas ouso afirmar que essa deve ser a melhor gravação que a música já recebeu. O arranjo é primoroso, a composição é uma espécie de sambolero, com destaque para a marcação do baixo de Marcio Arantes e o bongô e demais instrumentos percussivos de Bruno Buarque.
“Zé do Caroço” é o grande destaque do cd, o dueto entre Mariana e Leci Brandão é pungente. O contraste entre a voz aguda da cantora paulista e a voz grave e repleta de força de Leci gera um excelente resultado: “Que o Zé do caroço trabalha/ Que o Zé do Caroço batalha/ E que malha o preço da feira/ E na hora que a televisão brasileira/ Distrai toda a gente com a sua novela/ É que o Zé põe a boca no mundo/ Ele faz um discurso profundo/ Ele quer ver o bem da favela/ Está nascendo um novo líder/ no morro do Pau da Bandeira”.
“Minha missão”, samba de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, também é um dos pontos altos desse trabalho de estréia. Mariana Aydar escolheu com muita propriedade esta canção para abrir seu disco, já que a letra é um manifesto de dor e garra pela sobrevivência do canto, da canção: “Quando eu canto/ É para aliviar meu pranto/ E o pranto de quem já/ Tanto sofreu/ Quando eu canto/ Estou sentindo a luz de um santo/ Estou ajoelhando/ Aos pés de Deus/ Canto para anunciar o dia/ Canto para amenizar a noite/ Canto pra denunciar o açoite/ Canto também contra a tirania/ Canto porque numa melodia/ Acendo no coração do povo/ A esperança de um mundo novo/ E a luta para se viver/.../Aos que vivem a chorar/ Eu vivo pra cantar/ E canto pra viver”.
Mariana Aydar chega em boa hora, num momento em que o mercado fonográfico carece de cantoras que ultrapassem o mero modismo. “Kavita” deixa evidente que Mariana sabe ao que veio. Ela se inspira nos grandes da nossa música e foca seu olhar no futuro: “Foi ouvida a minha súplica/ Mensageira sou da música/ E eu cumpro o meu dever”.
Aproximadamente a cada dez anos o mercado fonográfico aposta pesado e lança novas cantoras. Recordo-me que, no início dos anos noventa, destacavam-se as ditas “cantoras ecléticas”, aquelas que diziam poder cantar tudo sem perder a identidade, pois sua identidade residia justamente na coragem e estranheza com que misturavam ritmos e estilos.
A princípio, usou-se até uma justificativa que sofisticava a falta de método. Dizia-se, por exemplo, que elas seguiam a linha evolutiva dos tropicalistas, que a miscelânea despropositada era fruto de uma consciência, de um upgrade intelectual. Nada disso se conseguiu provar e poucas foram aquelas que sobreviveram, mesmo assim, com um trabalho diferente daquele modismo.
Marisa Monte, aquela que irônicamente era chamada por Nana Caymmi de “a cantorazinha de Nova York”, conseguiu se firmar depois de um disco de estréia ousado para os padrões mercadológicos. Ela gravou Gershwin, Roberto Carlos, Titãs, Rita Lee, Luiz Gonzaga e Tim Maia. Afinadíssima, Marisa mostrava todos os seus malabarismos vocais e inquietava público e crítica, que tentavam defini-la.
Já a gaúcha Adriana Calcanhotto não foi tão bem sucedida em “Enguiço”, seu trabalho de estréia. Conseguiu emplacar em todas as rádios do país o sucesso de “Naquela estação”, bela canção do trio João Donato, Caetano Veloso e Ronaldo Bastos. Mas, em compensação, amargou terríveis críticas às suas interpretações de “Disseram que eu voltei americanizada”, de Luiz Peixoto e Vicente Paiva, sucesso inesquecível na voz de Carmem Miranda, e “Nunca”, de Lupicínio Rodrigues. Adriana viu seu up diferencial ser transformado em armadilha contra si mesma. O deboche, a performance, e sua interpretação num tom um pouco “elevado demais”, fizeram com que parte da crítica não entendesse sua postura antropofágica e a considerasse over demais, desafinada, sem futuro.
Passaram-se mais de dez anos e a duas intérpretes sobreviveram e adquiriram mais força e respeitabilidade. Adriana Calcanhotto, sobretudo, foi desenvolvendo trabalhos que vão de certa forma na contramão da proposta inicial. Trabalhos que mantêm com certeza a força da inteligência crítica. Mas que, em termos de interpretação, seguem cada vez mais uma uniformidade. Os arranjos são mais leves, as interpretações cada vez mais cool: do excesso de “Enguiço”, ela partiu para a contenção minimalista de “ A Fábrica do poema”
Todo esse prelúdio é só para falar de Mariana Aydar, figura para mim absolutamente desconhecida até semana passada, quando ganhei de presente de aniversário seu primeiro cd., “Kavita”. Desde o encarte, uma montagem de várias fotos de Mariana, realizada pelo renomado fotógrafo Bob Wolfenson, nota-se a sofisticação de “Kavita”. O tom clean das imagens mostra o belo rosto da jovem cantora paulista de vinte e seis anos, que iniciou sua carreira ao vinte, tendo como grande incentivadores sua mãe, a produtora Bia Aydar, e seu pai, o músico Mário Manga.
A presença de compositores é diversificada: João Nogueira, Paulo César Pinheiro, Chico César, Leci Brandão, Théo de Barros, João Donato, Rodrigo Amarante, Danilo Caymmi, Giana Viscardi e Eduardo Gudin. Mariana se inclina mais para o samba, suas interpretações trazem um quê de moderno às canções, que é capaz de atrair
a juventude mais conectada no som eletrônico. Não chega ao extremo de um Sérgio Mendes, que em certas ocasiões retalha as músicas com uma profusão de invencionices eletrônicas.
A voz de Mariana Aydar revela extensão e um timbre bonito, que a faz transitar entre interpretações mais suaves, como “Vento no canavial”, de João Donato e Lysias Ênio, e interpretações viscerais como a impactante “Zé do Caroço”, de Leci Brandão.
Confesso que nunca ouvi Leci Brandão interpretar essa canção de sua autoria, nem mesmo sei se ela a gravou, mas ouso afirmar que essa deve ser a melhor gravação que a música já recebeu. O arranjo é primoroso, a composição é uma espécie de sambolero, com destaque para a marcação do baixo de Marcio Arantes e o bongô e demais instrumentos percussivos de Bruno Buarque.
“Zé do Caroço” é o grande destaque do cd, o dueto entre Mariana e Leci Brandão é pungente. O contraste entre a voz aguda da cantora paulista e a voz grave e repleta de força de Leci gera um excelente resultado: “Que o Zé do caroço trabalha/ Que o Zé do Caroço batalha/ E que malha o preço da feira/ E na hora que a televisão brasileira/ Distrai toda a gente com a sua novela/ É que o Zé põe a boca no mundo/ Ele faz um discurso profundo/ Ele quer ver o bem da favela/ Está nascendo um novo líder/ no morro do Pau da Bandeira”.
“Minha missão”, samba de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, também é um dos pontos altos desse trabalho de estréia. Mariana Aydar escolheu com muita propriedade esta canção para abrir seu disco, já que a letra é um manifesto de dor e garra pela sobrevivência do canto, da canção: “Quando eu canto/ É para aliviar meu pranto/ E o pranto de quem já/ Tanto sofreu/ Quando eu canto/ Estou sentindo a luz de um santo/ Estou ajoelhando/ Aos pés de Deus/ Canto para anunciar o dia/ Canto para amenizar a noite/ Canto pra denunciar o açoite/ Canto também contra a tirania/ Canto porque numa melodia/ Acendo no coração do povo/ A esperança de um mundo novo/ E a luta para se viver/.../Aos que vivem a chorar/ Eu vivo pra cantar/ E canto pra viver”.
Mariana Aydar chega em boa hora, num momento em que o mercado fonográfico carece de cantoras que ultrapassem o mero modismo. “Kavita” deixa evidente que Mariana sabe ao que veio. Ela se inspira nos grandes da nossa música e foca seu olhar no futuro: “Foi ouvida a minha súplica/ Mensageira sou da música/ E eu cumpro o meu dever”.
Voa, Rosa Passos!
Ficou mais do que banal a frase de Tom Jobim que dizia que a saída para o Brasil era o Galeão. Não, na verdade a saída para o Brasil é Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. E olha que não estou falando do aeroporto internacional que tem seu nome. Há poucos dias li no Globo uma crônica de Artur Xexéo, em que ele prestava justa homenagem a uma das mais talentosas cantoras brasileiras – e que, seguindo a tirada do Tom, só faz sucesso após levantar vôo do Galeão, perdão, do Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim.
Descobri Rosa Passos por acaso, num cd comprado numa banca de jornal em Ipanema. Era uma coletânea com vários intérpretes da MPB, com capa simples e como a maioria das que circulam no mercado, não continha nenhuma referência aos músicos que participavam das faixas. Rosa interpretava “Juras”, sua canção em parceria com Fernando Oliveira. Escutei a gravação várias vezes, impressionada com o timbre raro e belo da cantora, uma mistura de jovialidade, ritmo, delicadeza e precisão.
Percorri lojas de cds e sebos em busca de obras e outras informações sobre Rosa Passos. Depois de muita procura encontrei um cd somente com canções interpretadas por ela. Era também mais uma coletânea, mas que contrariando a regra, registrava o nome dos compositores, dos arranjadores e dos músicos. Só daí então fiquei sabendo que Rosa também é uma exímia arranjadora e violonista. O arranjo elaborado junto com o baixista Jorge Helder para Águas de Março é absolutamente genial: sincopado, cheio de quebras inusitadas que realçam ainda mais a construção melódica de Jobim. Eu que considerava a gravação dessa música insuperável com o duo Elis e Tom, acabei mudando de opinião.
Rosa Passos lançou Recriação, seu álbum de estréia em 1979. Só retornou a gravar nove anos depois. Assim como Leny Andrade, Joyce, Wanda Sá, Egberto Gismont, César Camargo Mariano, Flora Purim e outros, Rosa é mais conhecida e respeitada fora do Brasil. Reverenciada pelos mais importantes músicos nacionais e internacionais, ela faz sempre turnês por toda a Europa e Japão e já recebeu convites para morar na Espanha e nos Estados Unidos.
Brasileira na alma e no som, a baiana até hoje não quis trocar o Brasil, sua terra quente, pelo caloroso público estrangeiro. Um dia desses vi e ouvi Rosa num especial da Tv Câmara. Acompanhada apenas por seu próprio violão, ela cantou canções de seus dois recentes trabalhos, “Amorosa”, dedicado ao mestre João Gilberto, e “Rosa” (só voz e violão).
Ambos lançados no exterior, reúnem um repertório de altíssima qualidade. Seu último cd, “Rosa”, em que a cantora, compositora e violonista é responsável por todos os arranjos, é uma obra-prima. Rosa Passos recria “Sentado à beira do caminho” de Roberto e Erasmo Carlos, transformando-a numa bossa nova sofisticada, em que a letra ganha uma dimensão mais humana e menos kitsch. Sutilezas é uma das mais belas composições do cd, uma canção que acredito biográfica, onde a cantora mostra todo o princípio estético-musical por ela desenvolvido. Rosa canta com uma divisão única, as palavras saem suaves, puras, sem nenhum exagero ou excesso: “Eu busco o som macio na aspereza/ Dos dias com ruído de metal/A água, a calma, a ave, a natureza/ Os ecos de um mundo celestial/ Eu busco no tom da delicadeza/ As sutilezas do mundo real/ Por onde é mais tranqüila a correnteza/Eu levo o barco em meio ao temporal”.
Rosa Passos é a discípula mais fiel de João Gilberto, uma cantora com autonomia e personalidade. Em “Amorosa” ela recria standards interpretados pelo cantor baiano como: Pra que discutir com madame, Eu sambo mesmo, O pato, Wave, S’Wonderful, Retrato em branco e preto e Lobo bobo. João Gilberto é seu maestro soberano – e essa paixão é explicitada na canção dedicada ao artista, Essa é pro João, em parceria com Arnaldo Medeiros: “João Gilberto, amigo, eu só queria/ lhe agradecer pela lição/ Desses seus acordes dissonantes/ Desse seu cantar com perfeição/ E até o apagar da velha chama/ Eu quero sempre ouvir o mesmo som/só privilegiados tem ouvidos/mas muito poucos deles tem seu dom/ seu dom, que bom”.
Rosa é cotada entre as grandes intérpretes do jazz. Isso não é à toa, já que suas referências se estendem a Elis Regina, Billie Holiday, Nanse Wilson e Betty Carter. Com manemolência, swing e afinação Rosa imprime sua marca definitiva em qualquer canção que interpreta. A emoção se traduz num canto límpido, e num violão arrojado que dispensa o auxílio de qualquer outro instrumento que não seja a voz.
Ouvir Rosa é sentir-se enamorado pela vida, é apurar a sensibilidade e deixar aflorar tudo o que é delicado como seu canto, suas palavras e seu sorriso. Rosa é uma rosa. Uma rosa, uma rosa.
Ficou mais do que banal a frase de Tom Jobim que dizia que a saída para o Brasil era o Galeão. Não, na verdade a saída para o Brasil é Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. E olha que não estou falando do aeroporto internacional que tem seu nome. Há poucos dias li no Globo uma crônica de Artur Xexéo, em que ele prestava justa homenagem a uma das mais talentosas cantoras brasileiras – e que, seguindo a tirada do Tom, só faz sucesso após levantar vôo do Galeão, perdão, do Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim.
Descobri Rosa Passos por acaso, num cd comprado numa banca de jornal em Ipanema. Era uma coletânea com vários intérpretes da MPB, com capa simples e como a maioria das que circulam no mercado, não continha nenhuma referência aos músicos que participavam das faixas. Rosa interpretava “Juras”, sua canção em parceria com Fernando Oliveira. Escutei a gravação várias vezes, impressionada com o timbre raro e belo da cantora, uma mistura de jovialidade, ritmo, delicadeza e precisão.
Percorri lojas de cds e sebos em busca de obras e outras informações sobre Rosa Passos. Depois de muita procura encontrei um cd somente com canções interpretadas por ela. Era também mais uma coletânea, mas que contrariando a regra, registrava o nome dos compositores, dos arranjadores e dos músicos. Só daí então fiquei sabendo que Rosa também é uma exímia arranjadora e violonista. O arranjo elaborado junto com o baixista Jorge Helder para Águas de Março é absolutamente genial: sincopado, cheio de quebras inusitadas que realçam ainda mais a construção melódica de Jobim. Eu que considerava a gravação dessa música insuperável com o duo Elis e Tom, acabei mudando de opinião.
Rosa Passos lançou Recriação, seu álbum de estréia em 1979. Só retornou a gravar nove anos depois. Assim como Leny Andrade, Joyce, Wanda Sá, Egberto Gismont, César Camargo Mariano, Flora Purim e outros, Rosa é mais conhecida e respeitada fora do Brasil. Reverenciada pelos mais importantes músicos nacionais e internacionais, ela faz sempre turnês por toda a Europa e Japão e já recebeu convites para morar na Espanha e nos Estados Unidos.
Brasileira na alma e no som, a baiana até hoje não quis trocar o Brasil, sua terra quente, pelo caloroso público estrangeiro. Um dia desses vi e ouvi Rosa num especial da Tv Câmara. Acompanhada apenas por seu próprio violão, ela cantou canções de seus dois recentes trabalhos, “Amorosa”, dedicado ao mestre João Gilberto, e “Rosa” (só voz e violão).
Ambos lançados no exterior, reúnem um repertório de altíssima qualidade. Seu último cd, “Rosa”, em que a cantora, compositora e violonista é responsável por todos os arranjos, é uma obra-prima. Rosa Passos recria “Sentado à beira do caminho” de Roberto e Erasmo Carlos, transformando-a numa bossa nova sofisticada, em que a letra ganha uma dimensão mais humana e menos kitsch. Sutilezas é uma das mais belas composições do cd, uma canção que acredito biográfica, onde a cantora mostra todo o princípio estético-musical por ela desenvolvido. Rosa canta com uma divisão única, as palavras saem suaves, puras, sem nenhum exagero ou excesso: “Eu busco o som macio na aspereza/ Dos dias com ruído de metal/A água, a calma, a ave, a natureza/ Os ecos de um mundo celestial/ Eu busco no tom da delicadeza/ As sutilezas do mundo real/ Por onde é mais tranqüila a correnteza/Eu levo o barco em meio ao temporal”.
Rosa Passos é a discípula mais fiel de João Gilberto, uma cantora com autonomia e personalidade. Em “Amorosa” ela recria standards interpretados pelo cantor baiano como: Pra que discutir com madame, Eu sambo mesmo, O pato, Wave, S’Wonderful, Retrato em branco e preto e Lobo bobo. João Gilberto é seu maestro soberano – e essa paixão é explicitada na canção dedicada ao artista, Essa é pro João, em parceria com Arnaldo Medeiros: “João Gilberto, amigo, eu só queria/ lhe agradecer pela lição/ Desses seus acordes dissonantes/ Desse seu cantar com perfeição/ E até o apagar da velha chama/ Eu quero sempre ouvir o mesmo som/só privilegiados tem ouvidos/mas muito poucos deles tem seu dom/ seu dom, que bom”.
Rosa é cotada entre as grandes intérpretes do jazz. Isso não é à toa, já que suas referências se estendem a Elis Regina, Billie Holiday, Nanse Wilson e Betty Carter. Com manemolência, swing e afinação Rosa imprime sua marca definitiva em qualquer canção que interpreta. A emoção se traduz num canto límpido, e num violão arrojado que dispensa o auxílio de qualquer outro instrumento que não seja a voz.
Ouvir Rosa é sentir-se enamorado pela vida, é apurar a sensibilidade e deixar aflorar tudo o que é delicado como seu canto, suas palavras e seu sorriso. Rosa é uma rosa. Uma rosa, uma rosa.
Um jantar com a diva
Era uma noite quente e chuvosa de um domingo do verão passado, no Rio de Janeiro. Eu e Ronaldo nos dirigíamos para o Teatro Rival, na Cinelândia, onde iríamos assistir ao show de Mart’nália. Para nossa decepção, havíamos confundido a data de encerramento da temporada, que tinha terminado na véspera. Para não “perdermos a viagem”, procuramos algum restaurante próximo, que justificasse nossa ida a um local hoje pouco recomendável da noite carioca. Ronaldo lembrou-se de um Galeto famoso nas redondezas.
Ao atravessarmos a rua, passa súbito à nossa frente uma mulher que parecia Josephine Baker, como que saída dos anos 1920, com lindas trancinhas que minuciosamente desenhavam seus cabelos. Não pude acreditar, mas a “Josephine” era na verdade uma das divas da canção brasileira. Gritamos juntos, alto e bom som: Alaíííííídeeeee!!! Com um mover todo delicado, a mulher virou levemente a cabeça para trás, nos olhou, e disse baixinho, com um ar de velha conhecida: Oi!.
Numa mistura de emoção e surpresa, convidamos Alaíde Costa para jantar conosco. Com um sorriso doce nos lábios, ela aceitou como se nos conhecesse há muitas décadas. Não demorou mais do que meia hora para que nos tornássemos “amigas de infância”. Por obra do destino e do acaso eu estivera muito próxima de Alaíde nos últimos tempos, sem que ela sequer suspeitasse.
Logo soube que não havia surpresa no fato de Alaíde Costa ter cruzado meu caminho naquela noite. Na verdade, ela acabara de chegar de São Paulo e estava hospedada num hotel próximo ao Teatro Rival, local em que no dia seguinte iria se apresentar, concorrendo ao “4° Prêmio BR Rival”, na categoria de melhor cantora. Concorreu e ganhou, é claro.
A primeira vez que ouvi Alaíde foi num cd produzido no final da década de 1980, em que ela interpretava com grande sensibilidade a canção “Bela Bela”, um fragmento do “Poema Sujo” de Ferreira Gullar musicado por Milton Nascimento: “bela bela/ mais que bela/ mas como era o nome dela?/ não era Helena nem Vera/ Nem Nara nem Gabriela/ nem Tereza nem Maria/ seu nome seu nome era”.
O que me impressiona em Alaíde Costa é a afinação, o timbre raro, a emoção e sobretudo a sua capacidade de usar os “erres”. Se me explico bem, Alaíde tem um probleminha na emissão dos “erres”, que lhe transmite o seu maior toque de singularidade. Não é o “r” acentuado, típico dos cantores que começaram na época do rádio, no período Pré-Bossa Nova, como Elizete Cardoso. É um “r” que faz parecer que a língua é presa.
Nos meses de fevereiro e março de 2005, gravei meu primeiro cd no estúdio de Sergio Lima Netto, em Araras, o mesmo em que Alaíde Costa gravara alguns meses antes seu mais recente trabalho “Tudo que o tempo me deixou”. Marinheira de primeira viagem, entrei no estúdio praticamente crua. Algumas faixas ficaram prontas com a voz- guia, que foi feita no calor da hora, ou seja, junto com os músicos. Já na maior parte delas, eu tive que criar um clima: fechava os olhos, sentia o que a letra e a canção me diziam, pedia ao Sergio para apagar ainda mais a luz do estúdio e mandava ver.
– Não pesa muito nos erres Daniela, você ainda não é a Alaíde – dizia o Sergio entre gostosas gargalhadas. Pois é, eu tinha algo em comum com a diva da canção, ambas cantávamos com os “erres franceses”, só que Alaíde era Alaíde Costa e eu uma iniciante. Durante grande parte do período em que colocava a voz, Alaíde estava presente como lição de sabedoria: “Alaíde tomava um conhaque para esquentar a voz e cantava, cantava, cantava, sem se preocupar com os erres”, me dizia o Sergio. Confesso que quando fui gravar a canção “Agradecer” eu queria ser Alaíde Costa, para não precisar de me preocupar tanto com essa palavra, que, agradecida, prefiro nem pronunciar hoje, pois ela me vem cheia de “erres” mal-agradecidos.
Fui ouvir o belíssimo cd de Alaíde Costa meses depois da gravação do meu. Intenso, verdadeiro, lírico, um primor da primeira à última faixa. Aos setenta anos de idade, a voz de Alaíde permanece em sua plenitude e ela rememora em seu cantar as marcas do tempo em sua vida e sua arte, na parceria de Gilson Peranzzetta com Paulo César Pinheiro: “Tudo que o tempo me deixou/ Foi a lembrança que o meu peito traz/ De um grande amor de que eu não fui capaz/ E dessa dor que não me deixará jamais/ Tudo que o tempo me deixou/ Foi o consolo de emoções iguais/ A luz difusa do abat-jour Lilás/ Dessas canções que eu já chorei demais.”
No vaivém de nosso bate-papo, enquanto sorvia lentamente sua canja, Alaíde falava baixinho e seus gestos eram delicados como os da verdadeira dama que é. Disse-me que gravou pouco durante o longo período de sua carreira, pois se recusava a cantar aquilo que não tocasse seu coração.
Naquele momento ambas cantávamos Sueli Costa, uma compositora que acalenta nossas almas. De Sueli Costa e Abel Silva, Alaíde gravou “Voz de mulher”, que me parece um retrato de si mesma. Ouço sempre “Voz de mulher”, a voz da grande mulher e minha eterna diva Alaíde Costa: “Desde que nasci/ A voz da mulher/ Me embala/ Me alegra/ Me faz chorar/ Me arrepia os cabelos/ Me faz dançar/ Me cala ressentimentos/ Me ensina a amar/ Uma mulher cantando nas Antilhas/ Uma voz de mulher/ Nos rádios do Brasil”.
Era uma noite quente e chuvosa de um domingo do verão passado, no Rio de Janeiro. Eu e Ronaldo nos dirigíamos para o Teatro Rival, na Cinelândia, onde iríamos assistir ao show de Mart’nália. Para nossa decepção, havíamos confundido a data de encerramento da temporada, que tinha terminado na véspera. Para não “perdermos a viagem”, procuramos algum restaurante próximo, que justificasse nossa ida a um local hoje pouco recomendável da noite carioca. Ronaldo lembrou-se de um Galeto famoso nas redondezas.
Ao atravessarmos a rua, passa súbito à nossa frente uma mulher que parecia Josephine Baker, como que saída dos anos 1920, com lindas trancinhas que minuciosamente desenhavam seus cabelos. Não pude acreditar, mas a “Josephine” era na verdade uma das divas da canção brasileira. Gritamos juntos, alto e bom som: Alaíííííídeeeee!!! Com um mover todo delicado, a mulher virou levemente a cabeça para trás, nos olhou, e disse baixinho, com um ar de velha conhecida: Oi!.
Numa mistura de emoção e surpresa, convidamos Alaíde Costa para jantar conosco. Com um sorriso doce nos lábios, ela aceitou como se nos conhecesse há muitas décadas. Não demorou mais do que meia hora para que nos tornássemos “amigas de infância”. Por obra do destino e do acaso eu estivera muito próxima de Alaíde nos últimos tempos, sem que ela sequer suspeitasse.
Logo soube que não havia surpresa no fato de Alaíde Costa ter cruzado meu caminho naquela noite. Na verdade, ela acabara de chegar de São Paulo e estava hospedada num hotel próximo ao Teatro Rival, local em que no dia seguinte iria se apresentar, concorrendo ao “4° Prêmio BR Rival”, na categoria de melhor cantora. Concorreu e ganhou, é claro.
A primeira vez que ouvi Alaíde foi num cd produzido no final da década de 1980, em que ela interpretava com grande sensibilidade a canção “Bela Bela”, um fragmento do “Poema Sujo” de Ferreira Gullar musicado por Milton Nascimento: “bela bela/ mais que bela/ mas como era o nome dela?/ não era Helena nem Vera/ Nem Nara nem Gabriela/ nem Tereza nem Maria/ seu nome seu nome era”.
O que me impressiona em Alaíde Costa é a afinação, o timbre raro, a emoção e sobretudo a sua capacidade de usar os “erres”. Se me explico bem, Alaíde tem um probleminha na emissão dos “erres”, que lhe transmite o seu maior toque de singularidade. Não é o “r” acentuado, típico dos cantores que começaram na época do rádio, no período Pré-Bossa Nova, como Elizete Cardoso. É um “r” que faz parecer que a língua é presa.
Nos meses de fevereiro e março de 2005, gravei meu primeiro cd no estúdio de Sergio Lima Netto, em Araras, o mesmo em que Alaíde Costa gravara alguns meses antes seu mais recente trabalho “Tudo que o tempo me deixou”. Marinheira de primeira viagem, entrei no estúdio praticamente crua. Algumas faixas ficaram prontas com a voz- guia, que foi feita no calor da hora, ou seja, junto com os músicos. Já na maior parte delas, eu tive que criar um clima: fechava os olhos, sentia o que a letra e a canção me diziam, pedia ao Sergio para apagar ainda mais a luz do estúdio e mandava ver.
– Não pesa muito nos erres Daniela, você ainda não é a Alaíde – dizia o Sergio entre gostosas gargalhadas. Pois é, eu tinha algo em comum com a diva da canção, ambas cantávamos com os “erres franceses”, só que Alaíde era Alaíde Costa e eu uma iniciante. Durante grande parte do período em que colocava a voz, Alaíde estava presente como lição de sabedoria: “Alaíde tomava um conhaque para esquentar a voz e cantava, cantava, cantava, sem se preocupar com os erres”, me dizia o Sergio. Confesso que quando fui gravar a canção “Agradecer” eu queria ser Alaíde Costa, para não precisar de me preocupar tanto com essa palavra, que, agradecida, prefiro nem pronunciar hoje, pois ela me vem cheia de “erres” mal-agradecidos.
Fui ouvir o belíssimo cd de Alaíde Costa meses depois da gravação do meu. Intenso, verdadeiro, lírico, um primor da primeira à última faixa. Aos setenta anos de idade, a voz de Alaíde permanece em sua plenitude e ela rememora em seu cantar as marcas do tempo em sua vida e sua arte, na parceria de Gilson Peranzzetta com Paulo César Pinheiro: “Tudo que o tempo me deixou/ Foi a lembrança que o meu peito traz/ De um grande amor de que eu não fui capaz/ E dessa dor que não me deixará jamais/ Tudo que o tempo me deixou/ Foi o consolo de emoções iguais/ A luz difusa do abat-jour Lilás/ Dessas canções que eu já chorei demais.”
No vaivém de nosso bate-papo, enquanto sorvia lentamente sua canja, Alaíde falava baixinho e seus gestos eram delicados como os da verdadeira dama que é. Disse-me que gravou pouco durante o longo período de sua carreira, pois se recusava a cantar aquilo que não tocasse seu coração.
Naquele momento ambas cantávamos Sueli Costa, uma compositora que acalenta nossas almas. De Sueli Costa e Abel Silva, Alaíde gravou “Voz de mulher”, que me parece um retrato de si mesma. Ouço sempre “Voz de mulher”, a voz da grande mulher e minha eterna diva Alaíde Costa: “Desde que nasci/ A voz da mulher/ Me embala/ Me alegra/ Me faz chorar/ Me arrepia os cabelos/ Me faz dançar/ Me cala ressentimentos/ Me ensina a amar/ Uma mulher cantando nas Antilhas/ Uma voz de mulher/ Nos rádios do Brasil”.
Onde está Vinicius nesse mundo?
Para várias coisas, sou muito emotiva. Mas no cinema, só me emociono mesmo quando assisto a algum filme que me toque muito profundamente e que me faça passar um longo tempo a pensar sobre a sua história e os sentimentos nela envolvidos. Vinicius, de Miguel Faria Jr, é um filme comovente que me levou (e me tem levado) literalmente às lágrimas nas cinco vezes em que eu o assisti até agora.
“Que seja eterno enquanto dure”: o verso que popularizou Vinicius de Moraes em todo o país, cabe como perfeita epígrafe para o filme de Miguel Faria. O poetinha da paixão, o poeta da tradição, o eterno apaixonado que se casou nove vezes, o boêmio que nunca abandonou o uísque (o seu “cachorro engarrafado”), o diplomata, o jovem autor de poemas metafísicos, o letrista, o crítico de cinema, o desbundado “branco mais preto do Brasil”, o amigo, o pai, o parceiro, o homem.
Vinicius é um documentário que transcende a linguagem fria e distanciada comumente utilizada nesses tipos de filmes. É um filme com alma, tendo a emoção como fio condutor. A grande questão buscada pelo diretor e pela produtora Susana Moraes, filha de Vinicius, foi desconstruir a imagem reducionista do termo “poetinha”, que percorreu durante todo esse longo tempo as escolas, os meios acadêmicos, literários, musicais e até o imaginário popular.
Reproduzindo o ambiente dos pockets-shows dos anos 50, a cena central acontece num pequeno palco com cortinas vermelhas, onde as falas dos atores Camila Morgado e Ricardo Blat, amparadas nos próprios poemas de Vinicius de Moraes, passam ao público (do teatro e do cinema) a trajetória da vida do poeta. É também nesse pequeno palco que acontecem as participações de vários músicos da nova geração, como Martin’ália, Mariana de Moraes, Yamandú Costa, Adriana Calcanhotto, Zeca Pagodinho, Mônica Salmaso e Olivia Byington.
Do nascimento em 1913, à morte relativamente precoce aos 67 anos, em 1980, o filme reconstrói todo o período vivido por Vinicius. A infância, a juventude e a maturidade voltam à cena através de fotos, registros históricos, canções e depoimentos emocionados como os de Ferreira Gullar, Susana Moraes, Chico Buarque, Edu Lobo, Tônia Carrero e Antonio Cândido.
Recordo-me que em todos os cursos de literatura brasileira de que participei, Vinicius de Moraes era sempre deixado à deriva. Por absoluta falta de espaço na grade curricular, diziam alguns, outros por o considerarem situado numa escala inferior à trindade máxima Drummond/ Bandeira/ Cabral.
Antonio Cândido, um dos mais respeitáveis intelectuais e críticos literários de nosso país, emite sua opinião sobre a poesia de Vinicius que, na verdade, foge muito ao estereótipo daquele “poetinha”, como era chamado: “Vinicius de Moraes é um homem apegado à métrica, um homem apegado à rima, um homem apegado às formas poéticas tradicionais como o soneto, como a ode etc. Portanto, é um poeta que está inserido na tradição. Exatamente por causa dos grandes recursos formais, técnicos, que ele tem, ele se aproximou mais do que nenhum outro daquilo que os modernistas queriam, que é a vida cotidiana, que é a destruição do tema poético nobre, que é a frase coloquial. Ninguém chegou mais perto do que Vinicius da naturalidade. Ninguém chegou mais perto da vida cotidiana, do prosaico, no entanto, dentro de uma poesia da continuidade e da perfeição formal. Um poeta que é autor de poemas como Balada do Mangue, por exemplo, só pode ser considerado um grande poeta”.
São tantas cenas e depoimentos interessantes que infelizmente não cabem neste pequeno espaço do jornal. Take 1: Vinicius totalmente bêbado debruçado nos ombros de Tom Jobim, também completamente bêbado, ambos cantando os lindos versos de “Pela luz dos olhos teus”. Take 2: Vinicius cantando e Baden tocando, ao redor um grupo enorme de jovens. Take 3: Muito uísque, muito cigarro. Um Vinicius já envelhecido e cansado conversa com os filhos Susana e Pedro sobre as mulheres: “Eu acho essa transa que eu tive com as mulheres tão bonita, não tem nada de ruim, elas ficam com uma raiva de mim f... depois que separam. Eu me separo porque eu deixei de gostar delas, pô. A mulher, pra mim, não é um objeto sexual não, a mulher é um troço que eu amo pra c... e dou tudo, o que eu posso fazer?”
Take 4: Chico Buarque define o poeta: Vinicius era uma pessoa que é até difícil de imaginar hoje em dia. Não sei onde estaria Vinicius de Moraes hoje em dia, porque ele é o contrário de muita coisa que hoje é vitoriosa. A ostentação, porque ele tinha essa coisa muito generosa, às vezes ingênua, às vezes porra-louca, uma coisa que não existe mais hoje. Nem a porra-louquice, nem a generosidade, muito menos a ingenuidade. Existe sempre um resultado que se busca, um objetivo, uma coisa pragmática e tal, tudo que Vinicius não era. Vinicius faz muita falta hoje, talvez ele não pudesse mesmo estar vivo sendo Vinicius hoje, não imagino em que lugar ele estaria dentro desse país que a gente vive. Desse país e desse mundo.
Para várias coisas, sou muito emotiva. Mas no cinema, só me emociono mesmo quando assisto a algum filme que me toque muito profundamente e que me faça passar um longo tempo a pensar sobre a sua história e os sentimentos nela envolvidos. Vinicius, de Miguel Faria Jr, é um filme comovente que me levou (e me tem levado) literalmente às lágrimas nas cinco vezes em que eu o assisti até agora.
“Que seja eterno enquanto dure”: o verso que popularizou Vinicius de Moraes em todo o país, cabe como perfeita epígrafe para o filme de Miguel Faria. O poetinha da paixão, o poeta da tradição, o eterno apaixonado que se casou nove vezes, o boêmio que nunca abandonou o uísque (o seu “cachorro engarrafado”), o diplomata, o jovem autor de poemas metafísicos, o letrista, o crítico de cinema, o desbundado “branco mais preto do Brasil”, o amigo, o pai, o parceiro, o homem.
Vinicius é um documentário que transcende a linguagem fria e distanciada comumente utilizada nesses tipos de filmes. É um filme com alma, tendo a emoção como fio condutor. A grande questão buscada pelo diretor e pela produtora Susana Moraes, filha de Vinicius, foi desconstruir a imagem reducionista do termo “poetinha”, que percorreu durante todo esse longo tempo as escolas, os meios acadêmicos, literários, musicais e até o imaginário popular.
Reproduzindo o ambiente dos pockets-shows dos anos 50, a cena central acontece num pequeno palco com cortinas vermelhas, onde as falas dos atores Camila Morgado e Ricardo Blat, amparadas nos próprios poemas de Vinicius de Moraes, passam ao público (do teatro e do cinema) a trajetória da vida do poeta. É também nesse pequeno palco que acontecem as participações de vários músicos da nova geração, como Martin’ália, Mariana de Moraes, Yamandú Costa, Adriana Calcanhotto, Zeca Pagodinho, Mônica Salmaso e Olivia Byington.
Do nascimento em 1913, à morte relativamente precoce aos 67 anos, em 1980, o filme reconstrói todo o período vivido por Vinicius. A infância, a juventude e a maturidade voltam à cena através de fotos, registros históricos, canções e depoimentos emocionados como os de Ferreira Gullar, Susana Moraes, Chico Buarque, Edu Lobo, Tônia Carrero e Antonio Cândido.
Recordo-me que em todos os cursos de literatura brasileira de que participei, Vinicius de Moraes era sempre deixado à deriva. Por absoluta falta de espaço na grade curricular, diziam alguns, outros por o considerarem situado numa escala inferior à trindade máxima Drummond/ Bandeira/ Cabral.
Antonio Cândido, um dos mais respeitáveis intelectuais e críticos literários de nosso país, emite sua opinião sobre a poesia de Vinicius que, na verdade, foge muito ao estereótipo daquele “poetinha”, como era chamado: “Vinicius de Moraes é um homem apegado à métrica, um homem apegado à rima, um homem apegado às formas poéticas tradicionais como o soneto, como a ode etc. Portanto, é um poeta que está inserido na tradição. Exatamente por causa dos grandes recursos formais, técnicos, que ele tem, ele se aproximou mais do que nenhum outro daquilo que os modernistas queriam, que é a vida cotidiana, que é a destruição do tema poético nobre, que é a frase coloquial. Ninguém chegou mais perto do que Vinicius da naturalidade. Ninguém chegou mais perto da vida cotidiana, do prosaico, no entanto, dentro de uma poesia da continuidade e da perfeição formal. Um poeta que é autor de poemas como Balada do Mangue, por exemplo, só pode ser considerado um grande poeta”.
São tantas cenas e depoimentos interessantes que infelizmente não cabem neste pequeno espaço do jornal. Take 1: Vinicius totalmente bêbado debruçado nos ombros de Tom Jobim, também completamente bêbado, ambos cantando os lindos versos de “Pela luz dos olhos teus”. Take 2: Vinicius cantando e Baden tocando, ao redor um grupo enorme de jovens. Take 3: Muito uísque, muito cigarro. Um Vinicius já envelhecido e cansado conversa com os filhos Susana e Pedro sobre as mulheres: “Eu acho essa transa que eu tive com as mulheres tão bonita, não tem nada de ruim, elas ficam com uma raiva de mim f... depois que separam. Eu me separo porque eu deixei de gostar delas, pô. A mulher, pra mim, não é um objeto sexual não, a mulher é um troço que eu amo pra c... e dou tudo, o que eu posso fazer?”
Take 4: Chico Buarque define o poeta: Vinicius era uma pessoa que é até difícil de imaginar hoje em dia. Não sei onde estaria Vinicius de Moraes hoje em dia, porque ele é o contrário de muita coisa que hoje é vitoriosa. A ostentação, porque ele tinha essa coisa muito generosa, às vezes ingênua, às vezes porra-louca, uma coisa que não existe mais hoje. Nem a porra-louquice, nem a generosidade, muito menos a ingenuidade. Existe sempre um resultado que se busca, um objetivo, uma coisa pragmática e tal, tudo que Vinicius não era. Vinicius faz muita falta hoje, talvez ele não pudesse mesmo estar vivo sendo Vinicius hoje, não imagino em que lugar ele estaria dentro desse país que a gente vive. Desse país e desse mundo.
Sopros de vida
Cataguases é conhecida pelo cinema de Humberto Mauro, pela arquitetura modernista, e sobretudo por ser uma terra onde afloram talentos literários. Só em uma das estantes daqui de casa há duas prateleiras inteiramente dedicadas aos “escritores da terra”. Volta e meia me deparo com Joaquins, Fuscos, Wernecks, Linas, Celinas, Ruffatos, P.J. Ribeiros, Carranos, Cagianos, Guilherminos, Peixotos, Enriques, Ascânios, Marcos Vinícius e Cabrais, este o meu querido amigo Francisco Marcelo: obra completíssima até agora.
Já a fama de Juiz de Fora, literatos à parte, deve-se sem dúvida à grande quantidade de talentos musicais: João Medeiros, Sueli Costa, Hélio Quirino, Sylvio Gomes, Márcio Hallack, Mamão, Berval Moraes, Lisieux Costa, Big Charles, Telma Costa, Bilinho Teixeira, Raquel Silvestre, Joãozinho da Percussão, Estevão Teixeira, Ana Carolina (a popstar), Marcio Itaborahy, Rosana Brito, Isabella Ladeira, Dudu Lima, Geraldo Pereira, Kim Ribeiro e outros e outros mais.
Ser, como eu sou, de Juiz de Fora, é então um privilégio por esse constante intercâmbio musical. Melhor do que ganhar é trocar cds. Com meus músicos conterrâneos é comum a prática do escambo. Desta vez, recebi em troca do meu cd “Face A Sueli Costa Face A Cacaso” uma verdadeira preciosidade: o cd “40 anos de música”, do flautista Kim Ribeiro. A foto na contracapa mostra o sorriso tranqüilo do artista, que mistura com ar de sabedoria e serenidade o seu chimarrão, hábito que adquiriu no tempo em que viveu em terras gaúchas. A delicadeza e sofisticação de Kim já vem do berço, e este cd é uma espécie de síntese de sua trajetória musical.
Em 40 anos de música Kim Ribeiro deu vazão à sua versatilidade, mas mantendo-se sempre fiel à ascendência clássica. Estudou com Esther Scliar, Guerra Peixe e Odette Ernest Dias – esta, a grande mestra e amiga que o acompanha há longo tempo. Kim é um compositor das coisas da alma: leve, denso, sutil, minimalista, preciso. Ouvindo suas canções e absorvendo seu universo, transportei-me com os tons de Kim para os tons de Jobim. O flautista mineiro também vive cercado de sabiás, riachinhos, árvores, flores e amigos.
Suas composições são sopros de vida. Kim musicou o poema “Tempo de espera”, escrito por Regina Celi, quando ela aguardava o seu bebê: “Descansas tranqüilo/ que esse é um tempo longo/ de espera./ E vais aquecendo tua vontade de ser./ Tão logo sentires/ que já estás bem forte/ será esta então hora/ e juntos trabalharemos pela primeira vez./ Olharei pra ti após/ olharás pra mim/ ah teus olhinhos/ quero vê-los abrirem-se ao mundo./ Quando tuas mãos pequeninas mexerem/ e darei forma/ argila./ Então te alegrarás/ com as formas que criares./ Teu corpinho dançará loucamente/ e teus bracinhos se agitarão como asas/ ao tentares ficar no ar./ Olharei pra ti após/ olharás pra mim”.
Este poema/canção gravado em 1980 para o LP Kim Ribeiro/ Raimundo Nicioli é um registro praticamente inédito da cantora Telma Costa, que faz contracanto com as flautas de Kim, Mauro Senise e Estevão Teixeira. Telma possuía um dos timbres mais belos e raros que já ouvi, uma soprano puríssima com um registro que se assemelhava ao som de uma flauta transversa. Telma morreu jovem e deixou algumas gravações inesquecíveis como o dueto com Chico Buarque em “Eu te amo” (canção-tema do filme de Arnaldo Jabor) e a gravação a capella de “Azulão”, de Jayme Ovalle e Manuel Bandeira, no filme “Inocência”, de Walter Lima Jr. Em “Tempo de espera”, o casamento entre voz e flautas é perfeito: Kim elaborou um arranjo que prima pela delicadeza, principalmente quando as flautas evoluem em uníssono.
“Sílvia”, música que foi escolhida para o projeto Rumos Musicais 2000 do Itaú Cultural, é um dos destaques do cd. O belíssimo arranjo e o gabarito dos músicos faz desta uma canção atemporal, repleta de improvisos. Vale conferir cada nuance, cada fraseado, a excelência da bateria de Big Charles e do baixo de Dudu Lima que dialogam com a flauta de Kim, que vai espalhando “sopros de vida”. Mais adiante, o piano de Raimundo Nicioli e o violão impecável de Bilinho, que me faz lembrar Toninho Horta.
Minha irmã Marina tem a dádiva de ser aluna do Kim, e ainda por cima exclusiva. Atualmente com pouco tempo para se dedicar aos alunos, ele é muito exigente, segundo Marina: concentração, postura, entrega, respiração, sensibilidade... Kim vive pra lá e pra cá com sua flauta, do Rio a Porto Alegre, a Brasília e por todas essa Minas Gerais. Em sua casa na “Floresta” (um dos bairros mais arborizados de Juiz de Fora) Kim vive cercado de ar puro, o que sem dúvida o inspirou no seu novo projeto, já em pleno funcionamento: o “Mosteiro do som”, um aconchegante espaço em sua casa, dedicado a todos aqueles que querem “fazer um som”. Já recebi o convite, prometo que vou com meu violão. Ah, sim: o convite de Kim se estende a todos os músicos que se interessarem. Basta conectar o site http://br.geocities.com/kimribeirobr/
Cataguases é conhecida pelo cinema de Humberto Mauro, pela arquitetura modernista, e sobretudo por ser uma terra onde afloram talentos literários. Só em uma das estantes daqui de casa há duas prateleiras inteiramente dedicadas aos “escritores da terra”. Volta e meia me deparo com Joaquins, Fuscos, Wernecks, Linas, Celinas, Ruffatos, P.J. Ribeiros, Carranos, Cagianos, Guilherminos, Peixotos, Enriques, Ascânios, Marcos Vinícius e Cabrais, este o meu querido amigo Francisco Marcelo: obra completíssima até agora.
Já a fama de Juiz de Fora, literatos à parte, deve-se sem dúvida à grande quantidade de talentos musicais: João Medeiros, Sueli Costa, Hélio Quirino, Sylvio Gomes, Márcio Hallack, Mamão, Berval Moraes, Lisieux Costa, Big Charles, Telma Costa, Bilinho Teixeira, Raquel Silvestre, Joãozinho da Percussão, Estevão Teixeira, Ana Carolina (a popstar), Marcio Itaborahy, Rosana Brito, Isabella Ladeira, Dudu Lima, Geraldo Pereira, Kim Ribeiro e outros e outros mais.
Ser, como eu sou, de Juiz de Fora, é então um privilégio por esse constante intercâmbio musical. Melhor do que ganhar é trocar cds. Com meus músicos conterrâneos é comum a prática do escambo. Desta vez, recebi em troca do meu cd “Face A Sueli Costa Face A Cacaso” uma verdadeira preciosidade: o cd “40 anos de música”, do flautista Kim Ribeiro. A foto na contracapa mostra o sorriso tranqüilo do artista, que mistura com ar de sabedoria e serenidade o seu chimarrão, hábito que adquiriu no tempo em que viveu em terras gaúchas. A delicadeza e sofisticação de Kim já vem do berço, e este cd é uma espécie de síntese de sua trajetória musical.
Em 40 anos de música Kim Ribeiro deu vazão à sua versatilidade, mas mantendo-se sempre fiel à ascendência clássica. Estudou com Esther Scliar, Guerra Peixe e Odette Ernest Dias – esta, a grande mestra e amiga que o acompanha há longo tempo. Kim é um compositor das coisas da alma: leve, denso, sutil, minimalista, preciso. Ouvindo suas canções e absorvendo seu universo, transportei-me com os tons de Kim para os tons de Jobim. O flautista mineiro também vive cercado de sabiás, riachinhos, árvores, flores e amigos.
Suas composições são sopros de vida. Kim musicou o poema “Tempo de espera”, escrito por Regina Celi, quando ela aguardava o seu bebê: “Descansas tranqüilo/ que esse é um tempo longo/ de espera./ E vais aquecendo tua vontade de ser./ Tão logo sentires/ que já estás bem forte/ será esta então hora/ e juntos trabalharemos pela primeira vez./ Olharei pra ti após/ olharás pra mim/ ah teus olhinhos/ quero vê-los abrirem-se ao mundo./ Quando tuas mãos pequeninas mexerem/ e darei forma/ argila./ Então te alegrarás/ com as formas que criares./ Teu corpinho dançará loucamente/ e teus bracinhos se agitarão como asas/ ao tentares ficar no ar./ Olharei pra ti após/ olharás pra mim”.
Este poema/canção gravado em 1980 para o LP Kim Ribeiro/ Raimundo Nicioli é um registro praticamente inédito da cantora Telma Costa, que faz contracanto com as flautas de Kim, Mauro Senise e Estevão Teixeira. Telma possuía um dos timbres mais belos e raros que já ouvi, uma soprano puríssima com um registro que se assemelhava ao som de uma flauta transversa. Telma morreu jovem e deixou algumas gravações inesquecíveis como o dueto com Chico Buarque em “Eu te amo” (canção-tema do filme de Arnaldo Jabor) e a gravação a capella de “Azulão”, de Jayme Ovalle e Manuel Bandeira, no filme “Inocência”, de Walter Lima Jr. Em “Tempo de espera”, o casamento entre voz e flautas é perfeito: Kim elaborou um arranjo que prima pela delicadeza, principalmente quando as flautas evoluem em uníssono.
“Sílvia”, música que foi escolhida para o projeto Rumos Musicais 2000 do Itaú Cultural, é um dos destaques do cd. O belíssimo arranjo e o gabarito dos músicos faz desta uma canção atemporal, repleta de improvisos. Vale conferir cada nuance, cada fraseado, a excelência da bateria de Big Charles e do baixo de Dudu Lima que dialogam com a flauta de Kim, que vai espalhando “sopros de vida”. Mais adiante, o piano de Raimundo Nicioli e o violão impecável de Bilinho, que me faz lembrar Toninho Horta.
Minha irmã Marina tem a dádiva de ser aluna do Kim, e ainda por cima exclusiva. Atualmente com pouco tempo para se dedicar aos alunos, ele é muito exigente, segundo Marina: concentração, postura, entrega, respiração, sensibilidade... Kim vive pra lá e pra cá com sua flauta, do Rio a Porto Alegre, a Brasília e por todas essa Minas Gerais. Em sua casa na “Floresta” (um dos bairros mais arborizados de Juiz de Fora) Kim vive cercado de ar puro, o que sem dúvida o inspirou no seu novo projeto, já em pleno funcionamento: o “Mosteiro do som”, um aconchegante espaço em sua casa, dedicado a todos aqueles que querem “fazer um som”. Já recebi o convite, prometo que vou com meu violão. Ah, sim: o convite de Kim se estende a todos os músicos que se interessarem. Basta conectar o site http://br.geocities.com/kimribeirobr/
Música no Paço
Em crônica recente, escrevi que Cataguases era a cidade dos escritores e Juiz de Fora a cidade dos músicos. Semana passada ao assistir no Paço Municipal à apresentação da Orquestra Experimental, regida pela maestrina Maria Aída, comecei a reavaliar meus conceitos.
O Salão Nobre da Prefeitura estava lotado e, noite acalorada, sentei-me bem próxima a um dos janelões semi-abertos, onde podia ouvir as canções sentindo o vento vindo da Praça Santa Rita, que batia de leve em meu rosto e cabelos. Eu já havia entrado neste Salão uma vez, mas com a apresentação da Orquestra ele adquiriu uma aura diferente. Primeiro, porque eu e Ronaldo chegamos uns vinte minutos mais cedo; e, em segundo lugar, porque com ele pode-se viver a história do passado de Cataguases no presente. Calma leitores, bem sei que ele ainda está jovem, mas seu amor pela cidade é tamanho que seus olhos brilham quando, curiosa, faço alguma pergunta sobre Cataguases. Passamos os olhos pelas fotos dos prefeitos, uma por uma, e o poeta me narrou mais uma história que merece ser incluída num futuro livro sobre a “Paris da Zona da Mata”.
Quando a orquestra abriu a noite com “Na cadência do samba”, de Ataulfo Alves, a platéia imediatamente silenciou e pregou olhos e ouvidos no som puro e vibrante dos rapazes, em sua grande maioria muito jovens. Orquestras sempre foram as melhores escolas, nelas se aprende muito bem noções de harmonia, tempo e principalmente conjunto.
Passei dois anos cantando na Orquestra de Jazz da Pró Música, em Juiz de Fora, sob a regência do maestro Silvio Gomes. Esse período foi a minha verdadeira escola, em que o convívio com a singularidade de cada instrumento contribuiu para que eu entendesse e pudesse explorar mais meus recursos vocais.
A Orquestra Experimental interpreta grandes compositores brasileiros como Tom Jobim, Ary Barroso e Hermeto Paschoal. Emocionei-me ao ouvir o arranjo de Maria Aída para “Bebê”, uma das mais belas e conhecidas composições de Hermeto. Ouvido absoluto, ele é consagrado no cenário da música instrumental brasileira. Compositor, arranjador e instrumentista, o músico alagoano é uma bíblia musical.
Em “Bebê” destacam-se os solos da clarineta de Eli Martins, que vão pontuando maravilhosamente a canção. Acredito que “Bebê” é um baião que todo o instrumentista brasileiro gostaria de tocar, por seu rico desenho harmônico.
Outros momentos foram tocantes, como a entrada do quarteto formado pelas jovens cantoras Alice Werneck, Cecília Valverde, Inara Rocha e Lorena Teixeira. Afinadíssimas, as moças deram um colorido a mais na apresentação. Nota-se a competência do trabalho desenvolvido por Maria Aída, as vozes bem moduladas fazem a belíssima melodia em uníssono de “Das Rosas”, de Dorival Caymmi: Rosas/ Rosas/Rosas/ Rosas formosas são rosas de mim/ Rosas a me confundir/ Rosas a te confundir/ Com as rosas, as rosas, as rosas, de Abril/ Rosas/ Rosas/ Rosas/ Rosas mimosas são rosas de ti/ Rosas a te confundir...”
Vendo e ouvindo as garotas, foi inevitável a comparação com a Banda Nova criada por Tom Jobim. O maestro soberano adorava vozes femininas e colocou a “mulherada” da família para cantar. Alice, Cecília, Inara e Lorena me lembravam Ana Lontra, Elizabeth Jobim, Maucha Adnet, Paula Morelenbaum e Simone Caymmi. Não me levem a mal, mas músicos e escritores têm mania de ficar provocando “dialogismos” e “intertextos”.
O som pulsante da orquestra comandada por Maria Aída contagiou toda a platéia, pedidos de bis não faltaram. Via-se que no final algumas pessoas já até ensaiavam alguns passos de dança. Acho que se tivesse mais um microfone eu mesma iria me integrar ao grupo.
Em crônica recente, escrevi que Cataguases era a cidade dos escritores e Juiz de Fora a cidade dos músicos. Semana passada ao assistir no Paço Municipal à apresentação da Orquestra Experimental, regida pela maestrina Maria Aída, comecei a reavaliar meus conceitos.
O Salão Nobre da Prefeitura estava lotado e, noite acalorada, sentei-me bem próxima a um dos janelões semi-abertos, onde podia ouvir as canções sentindo o vento vindo da Praça Santa Rita, que batia de leve em meu rosto e cabelos. Eu já havia entrado neste Salão uma vez, mas com a apresentação da Orquestra ele adquiriu uma aura diferente. Primeiro, porque eu e Ronaldo chegamos uns vinte minutos mais cedo; e, em segundo lugar, porque com ele pode-se viver a história do passado de Cataguases no presente. Calma leitores, bem sei que ele ainda está jovem, mas seu amor pela cidade é tamanho que seus olhos brilham quando, curiosa, faço alguma pergunta sobre Cataguases. Passamos os olhos pelas fotos dos prefeitos, uma por uma, e o poeta me narrou mais uma história que merece ser incluída num futuro livro sobre a “Paris da Zona da Mata”.
Quando a orquestra abriu a noite com “Na cadência do samba”, de Ataulfo Alves, a platéia imediatamente silenciou e pregou olhos e ouvidos no som puro e vibrante dos rapazes, em sua grande maioria muito jovens. Orquestras sempre foram as melhores escolas, nelas se aprende muito bem noções de harmonia, tempo e principalmente conjunto.
Passei dois anos cantando na Orquestra de Jazz da Pró Música, em Juiz de Fora, sob a regência do maestro Silvio Gomes. Esse período foi a minha verdadeira escola, em que o convívio com a singularidade de cada instrumento contribuiu para que eu entendesse e pudesse explorar mais meus recursos vocais.
A Orquestra Experimental interpreta grandes compositores brasileiros como Tom Jobim, Ary Barroso e Hermeto Paschoal. Emocionei-me ao ouvir o arranjo de Maria Aída para “Bebê”, uma das mais belas e conhecidas composições de Hermeto. Ouvido absoluto, ele é consagrado no cenário da música instrumental brasileira. Compositor, arranjador e instrumentista, o músico alagoano é uma bíblia musical.
Em “Bebê” destacam-se os solos da clarineta de Eli Martins, que vão pontuando maravilhosamente a canção. Acredito que “Bebê” é um baião que todo o instrumentista brasileiro gostaria de tocar, por seu rico desenho harmônico.
Outros momentos foram tocantes, como a entrada do quarteto formado pelas jovens cantoras Alice Werneck, Cecília Valverde, Inara Rocha e Lorena Teixeira. Afinadíssimas, as moças deram um colorido a mais na apresentação. Nota-se a competência do trabalho desenvolvido por Maria Aída, as vozes bem moduladas fazem a belíssima melodia em uníssono de “Das Rosas”, de Dorival Caymmi: Rosas/ Rosas/Rosas/ Rosas formosas são rosas de mim/ Rosas a me confundir/ Rosas a te confundir/ Com as rosas, as rosas, as rosas, de Abril/ Rosas/ Rosas/ Rosas/ Rosas mimosas são rosas de ti/ Rosas a te confundir...”
Vendo e ouvindo as garotas, foi inevitável a comparação com a Banda Nova criada por Tom Jobim. O maestro soberano adorava vozes femininas e colocou a “mulherada” da família para cantar. Alice, Cecília, Inara e Lorena me lembravam Ana Lontra, Elizabeth Jobim, Maucha Adnet, Paula Morelenbaum e Simone Caymmi. Não me levem a mal, mas músicos e escritores têm mania de ficar provocando “dialogismos” e “intertextos”.
O som pulsante da orquestra comandada por Maria Aída contagiou toda a platéia, pedidos de bis não faltaram. Via-se que no final algumas pessoas já até ensaiavam alguns passos de dança. Acho que se tivesse mais um microfone eu mesma iria me integrar ao grupo.
Matar o Chico?
“Se você tivesse que matar um, com qual você ficaria, Chico ou Caetano?”, dizia meu falecido tio nas noites de Natal em sua casa de Juiz de Fora, em que sempre tínhamos um novo disco (os cds ainda não existiam) do Chico Buarque ou Caetano Veloso para desvendar, saborear e também pichar. Aos meus olhos de menina, parecia que Chico e Caetano eram verdadeiras antíteses que jamais poderiam conviver juntos. Escolhia-se o talento literário de um e matava-se o talento musical de outro e vice-versa. As discussões, ironias e sacadas eram tão incríveis que me deixaram “uma saudade nos ouvidos”.
Apesar de toda a proclamada incompatibilidade dos gênios, me lembro vagamente de ter presenciado uma convivência “harmônica” entre ambos no programa da TV Globo chamado “Chico & Caetano”. No único programa que assisti, havia a presença de um convidado que era o meu ídolo maior na época: o cantor-roqueiro-sensual-performático Paulo Ricardo. Não posso deixar de achar graça hoje, mas eu ia às lágrimas quando o bonitão atacava de “London London”.
Muitos anos se passaram desde aquelas tentativas de assassinato nos Natais na casa do tio Luiz, e até hoje nunca tive a coragem de cometer esse crime poético-lírico-musical. Acompanho ano a ano a carreira do baiano e do carioca e muitas vezes me apaixono perdidamente por alguma canção.
Neste momento toca pela décima-quarta vez o cd “Carioca”, recentemente lançado por Chico Buarque. Coloco-o até no meu MP3 para preservar os ouvidos do Ronaldo e da Solange e para eles não pensarem que ando ficando obsessiva ou mesmo maluca, que nem a Banda da Joyce. Confesso que ainda estou curtindo o cd aos poucos, a cada nova audição pinta um lance diferente. Os arranjos de Luiz Cláudio Ramos são de um lirismo e sofisticação imbatíveis, possibilitando ao ouvinte captar muitas nuances de sensibilidade.
Depois de oito anos de ausência musical, Chico Buarque apresenta um trabalho com a costumeira grife Chico Buarque, isto é: de grande qualidade. Mas dá vontade de matar. A capa muito bem elaborada traz o mapa do Rio de Janeiro projetado sobre o corpo e o rosto do compositor. Chico é um compositor essencialmente urbano e este cd não foge à regra.
“Carioca” contrapõe o Rio Zona Sul, bonito e ensolarado, ao Rio de Janeiro pobre e tristonho da periferia. Até aí, nada de novo. O que mais me chamou atenção no cd não foi o choque cultural Zona Norte/Zona Sul e nem a “beleza correta” das canções, mas justamente a intensa semelhança entre elas. Parece que tudo é uma coisa só, o velho estilo Chico. Necessitei de tempo e muita atenção para elencar minhas favoritas.
As faixas se sucedem numa linearidade interpretativa meio monocórdia, exceto em “Ode aos ratos” que quebra totalmente o clima. Esta canção em parceria com Edu Lobo foi gravada anteriormente no cd “Cambaio”, mas aqui recebe um tratamento muito mais cuidadoso e original. Chico mistura o baião com uma levada rap-eletrônica, é genial a embolada: “Rato/ Rato que rói a roupa/ Que rói a rapa do rei do morro/Que rói a roda do carro/ Que rói o carro, que rói o ferro/Que rói o barro, rói o morro/Rato que rói o rato/Ra-rato,ra-rato/ Roto/ Que ri do roto/ Que rói o farrapo/ Do esfarra-rapado/que mete a ripa, arranca rabo/ Rato ruim/ Rato que rói a rosa/ Rói o riso da moça/ E ruma rua arriba/ Em sua rota de rato”.
Vale também destacar “Imagina”, uma das primeiras composições de Tom, uma “canção exercício” que o avô do pianista Daniel Jobim, que participa da gravação, fez nos tempos de juventude, e que Chico letrou em 1982. “Imagina” foi gravada anteriormente por Olivia Byington na trilha do filme “Para viver um grande amor”, de Miguel Faria Jr. Nesta segunda versão, Chico Buarque faz contraponto com a voz grave da cantora Mônica Salmaso. Uma letra que prima pela linguagem simbólica: “Olha a chuva, olha o sol/ olha o dia a lançar serpentinas/ serpentinas pelo céu/ sete fitas/ coloridas/ sete vias/ sete vidas/ avenidas em qualquer lugar/ imagina”.
Junto com o cd, foi também lançado o dvd “Desconstrução”, que revela os bastidores da gravação de “Carioca”. O ponto alto do dvd é mostrar ao grande público a faceta humorística de Chico, que ficou muito tempo escondida atrás do estereótipo de “homem tímido”. Aos 62 anos, Francisco Buarque de Hollanda é um homem maduro e sereno que não deve mais nada à música, à política e à literatura.
Nessa altura da vida permite-se brincar livremente com os músicos, com os netos, consigo mesmo e seus hetrônimos musicais:“ Eu tenho uns oito ou nove compositores habituais, são compositores anônimos. Tem um que faz canções no feminino, esse cara é legal. É uma moça, aliás. Têm uns que estão velhos, já estão no asilo, têm uns que já pararam. Outros entregam as coisas meio de má qualidade, por que se repetem. Então eu tenho que ficar trocando de fornecedor. O Almed, o novo personagem, entrega a música e fica devendo a letra”.
Não vou matar o Chico. Jamais!
“Se você tivesse que matar um, com qual você ficaria, Chico ou Caetano?”, dizia meu falecido tio nas noites de Natal em sua casa de Juiz de Fora, em que sempre tínhamos um novo disco (os cds ainda não existiam) do Chico Buarque ou Caetano Veloso para desvendar, saborear e também pichar. Aos meus olhos de menina, parecia que Chico e Caetano eram verdadeiras antíteses que jamais poderiam conviver juntos. Escolhia-se o talento literário de um e matava-se o talento musical de outro e vice-versa. As discussões, ironias e sacadas eram tão incríveis que me deixaram “uma saudade nos ouvidos”.
Apesar de toda a proclamada incompatibilidade dos gênios, me lembro vagamente de ter presenciado uma convivência “harmônica” entre ambos no programa da TV Globo chamado “Chico & Caetano”. No único programa que assisti, havia a presença de um convidado que era o meu ídolo maior na época: o cantor-roqueiro-sensual-performático Paulo Ricardo. Não posso deixar de achar graça hoje, mas eu ia às lágrimas quando o bonitão atacava de “London London”.
Muitos anos se passaram desde aquelas tentativas de assassinato nos Natais na casa do tio Luiz, e até hoje nunca tive a coragem de cometer esse crime poético-lírico-musical. Acompanho ano a ano a carreira do baiano e do carioca e muitas vezes me apaixono perdidamente por alguma canção.
Neste momento toca pela décima-quarta vez o cd “Carioca”, recentemente lançado por Chico Buarque. Coloco-o até no meu MP3 para preservar os ouvidos do Ronaldo e da Solange e para eles não pensarem que ando ficando obsessiva ou mesmo maluca, que nem a Banda da Joyce. Confesso que ainda estou curtindo o cd aos poucos, a cada nova audição pinta um lance diferente. Os arranjos de Luiz Cláudio Ramos são de um lirismo e sofisticação imbatíveis, possibilitando ao ouvinte captar muitas nuances de sensibilidade.
Depois de oito anos de ausência musical, Chico Buarque apresenta um trabalho com a costumeira grife Chico Buarque, isto é: de grande qualidade. Mas dá vontade de matar. A capa muito bem elaborada traz o mapa do Rio de Janeiro projetado sobre o corpo e o rosto do compositor. Chico é um compositor essencialmente urbano e este cd não foge à regra.
“Carioca” contrapõe o Rio Zona Sul, bonito e ensolarado, ao Rio de Janeiro pobre e tristonho da periferia. Até aí, nada de novo. O que mais me chamou atenção no cd não foi o choque cultural Zona Norte/Zona Sul e nem a “beleza correta” das canções, mas justamente a intensa semelhança entre elas. Parece que tudo é uma coisa só, o velho estilo Chico. Necessitei de tempo e muita atenção para elencar minhas favoritas.
As faixas se sucedem numa linearidade interpretativa meio monocórdia, exceto em “Ode aos ratos” que quebra totalmente o clima. Esta canção em parceria com Edu Lobo foi gravada anteriormente no cd “Cambaio”, mas aqui recebe um tratamento muito mais cuidadoso e original. Chico mistura o baião com uma levada rap-eletrônica, é genial a embolada: “Rato/ Rato que rói a roupa/ Que rói a rapa do rei do morro/Que rói a roda do carro/ Que rói o carro, que rói o ferro/Que rói o barro, rói o morro/Rato que rói o rato/Ra-rato,ra-rato/ Roto/ Que ri do roto/ Que rói o farrapo/ Do esfarra-rapado/que mete a ripa, arranca rabo/ Rato ruim/ Rato que rói a rosa/ Rói o riso da moça/ E ruma rua arriba/ Em sua rota de rato”.
Vale também destacar “Imagina”, uma das primeiras composições de Tom, uma “canção exercício” que o avô do pianista Daniel Jobim, que participa da gravação, fez nos tempos de juventude, e que Chico letrou em 1982. “Imagina” foi gravada anteriormente por Olivia Byington na trilha do filme “Para viver um grande amor”, de Miguel Faria Jr. Nesta segunda versão, Chico Buarque faz contraponto com a voz grave da cantora Mônica Salmaso. Uma letra que prima pela linguagem simbólica: “Olha a chuva, olha o sol/ olha o dia a lançar serpentinas/ serpentinas pelo céu/ sete fitas/ coloridas/ sete vias/ sete vidas/ avenidas em qualquer lugar/ imagina”.
Junto com o cd, foi também lançado o dvd “Desconstrução”, que revela os bastidores da gravação de “Carioca”. O ponto alto do dvd é mostrar ao grande público a faceta humorística de Chico, que ficou muito tempo escondida atrás do estereótipo de “homem tímido”. Aos 62 anos, Francisco Buarque de Hollanda é um homem maduro e sereno que não deve mais nada à música, à política e à literatura.
Nessa altura da vida permite-se brincar livremente com os músicos, com os netos, consigo mesmo e seus hetrônimos musicais:“ Eu tenho uns oito ou nove compositores habituais, são compositores anônimos. Tem um que faz canções no feminino, esse cara é legal. É uma moça, aliás. Têm uns que estão velhos, já estão no asilo, têm uns que já pararam. Outros entregam as coisas meio de má qualidade, por que se repetem. Então eu tenho que ficar trocando de fornecedor. O Almed, o novo personagem, entrega a música e fica devendo a letra”.
Não vou matar o Chico. Jamais!
Mahgah “Eller”
Luz, câmera, canção: CINEPORT é também show (de bola). De calças largas como uma skatista, camiseta laranja griffe Adidas, cabelos curtinhos e rosto suave e belo, Cássia Eller, entra no palco. Isto é, Mahgah. Depois de mais de uma hora de atraso, já pra lá “das uma e meia da matina”, com o Anfiteatro Ivan Müller Botelho absolutamente lotado, algumas pessoas ao meu lado já nervosas, como a atriz Fernanda Lobo: “tanta demora, será que vai valer a pena?” Também eu, inquieta e já bastante cansada depois de dois dias de total agito cultural, aguardava o show sem grandes expectativas.
Quando ouço falar em “tributo” a alguma figura célebre do mundo musical, quase sempre espero ver/ouvir um cover, o que de certa forma não me alegra, mas satisfaz os muito fanáticos e entristece os que enxergam o artista como um ser único, com identidade própria. Confesso que sou extremamente resistente a certos tipos de homenagens em que o intérprete em cena se descaracteriza totalmente para, de uma maneira artificial, “fake”, incorporar o ídolo. Mas esse não é o caso de Mahgah, jovem cantora belorizontina que mandou ver num show emocionante e verdadeiro.
Acompanhada por dois violonistas e uma percussionista, ela inicia a noite com uma das mais belas e intensas interpretações de Cássia Eller, “Non, je ne regrette rien”, canção muito famosa na voz de Edith Piaf e que ganhou uma releitura visceral na voz de Cássia: “Não, não me arrependo de nada” diz o primeiro verso desta canção, uma espécie de despedida.
Assisti a dois shows de Cássia Eller, um logo no início de sua carreira, em 1990, e outro em 2001, meses antes de sua morte. Ela impressionou-me muito desde o primeiro instante em que a ouvi cantando “Por enquanto”, de Renato Russo, numa fantástica levada folk: “Mudaram as estações, nada mudou/ Mas eu sei que alguma coisa aconteceu/ Tá tudo assim tão diferente”.
Sua voz muito potente era ácida e doce, rouca, rascante, bela, singular. O primeiro disco já deixava explícita na capa sua atitude de ousadia: a cantora aparecia trajando jeans surrados e camiseta de malha solta, chutando literalmente um balde. A “garotinha”, quem sabe?, chegava com um repertório nada careta no mercado, gravava Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Jorge Salomão e até mesmo Clarice Lispector na canção “Que o Deus venha”, um texto de Clarice musicado por Cazuza e Frejat: “Sou inquieta, áspera/ E desesperançada/ Embora amor dentro de mim eu tenha/Só que eu não sei usar amor/ As vezes arranha/ feito farpa”.
Em seguida vieram trabalhos cada vez mais ousados e marcantes, como o disco “Marginal” – em que Cássia assumia totalmente seu lado roqueiro, acrescido de uma forte influência do blues. Embora fosse extremamente tímida na vida, em cena ela conseguia extravasar tudo: “No palco eu nunca tive vergonha. Eu tinha medo de errar, de não dar conta de fazer. Timidez eu tenho de ser apresentada para as pessoas que eu não conheço. Quanto às caretas, eu sou assim mesmo. Agora, quando eu cuspo, chuto, eu estou representando um personagem”.
Ela era intensa, tocante, arrebatadora. Lembro-me da paixão com que interpretou o repertório de outro companheiro marginal, o Cazuza. Sob a sempre talentosa direção de Waly Salomão, Cássia Eller entregou-se por inteira ao interpretar o poeta que falava a sua linguagem.
Depois, com Nando Reis, encontrou um equilíbrio entre o repertório mais MPB e o rock. Em “Com você meu mundo ficaria completo”, ela troca o gestual masculino por uma concepção mais suave, tanto que aparece na capa brincando com pose de sex-symbol, de calcinha branca e cabelos longos: tudo produção, é claro.
Quatro anos se passaram e Cássia permanece viva acima de qualquer limitação do gueto de sua tribo. O público caloroso que assistia Mahgah naquele sábado de noite estrelada era formado por pessoas de todas as idades. O sorriso meigo da cantora mineira, sua interpretação sincera, sensível, sem arroubos, deixou-me comovida em muitos momentos. Eu não sabia se estava feliz ou triste por ouvir/sentir Cássia Eller assim tão próxima. Quando Mahagh cantou “Milagreiro”, todos no Anfiteatro soltaram a voz com forte emoção, como se assim pudessem trazer Cássia Eller de volta.
Luz, câmera, canção: CINEPORT é também show (de bola). De calças largas como uma skatista, camiseta laranja griffe Adidas, cabelos curtinhos e rosto suave e belo, Cássia Eller, entra no palco. Isto é, Mahgah. Depois de mais de uma hora de atraso, já pra lá “das uma e meia da matina”, com o Anfiteatro Ivan Müller Botelho absolutamente lotado, algumas pessoas ao meu lado já nervosas, como a atriz Fernanda Lobo: “tanta demora, será que vai valer a pena?” Também eu, inquieta e já bastante cansada depois de dois dias de total agito cultural, aguardava o show sem grandes expectativas.
Quando ouço falar em “tributo” a alguma figura célebre do mundo musical, quase sempre espero ver/ouvir um cover, o que de certa forma não me alegra, mas satisfaz os muito fanáticos e entristece os que enxergam o artista como um ser único, com identidade própria. Confesso que sou extremamente resistente a certos tipos de homenagens em que o intérprete em cena se descaracteriza totalmente para, de uma maneira artificial, “fake”, incorporar o ídolo. Mas esse não é o caso de Mahgah, jovem cantora belorizontina que mandou ver num show emocionante e verdadeiro.
Acompanhada por dois violonistas e uma percussionista, ela inicia a noite com uma das mais belas e intensas interpretações de Cássia Eller, “Non, je ne regrette rien”, canção muito famosa na voz de Edith Piaf e que ganhou uma releitura visceral na voz de Cássia: “Não, não me arrependo de nada” diz o primeiro verso desta canção, uma espécie de despedida.
Assisti a dois shows de Cássia Eller, um logo no início de sua carreira, em 1990, e outro em 2001, meses antes de sua morte. Ela impressionou-me muito desde o primeiro instante em que a ouvi cantando “Por enquanto”, de Renato Russo, numa fantástica levada folk: “Mudaram as estações, nada mudou/ Mas eu sei que alguma coisa aconteceu/ Tá tudo assim tão diferente”.
Sua voz muito potente era ácida e doce, rouca, rascante, bela, singular. O primeiro disco já deixava explícita na capa sua atitude de ousadia: a cantora aparecia trajando jeans surrados e camiseta de malha solta, chutando literalmente um balde. A “garotinha”, quem sabe?, chegava com um repertório nada careta no mercado, gravava Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Jorge Salomão e até mesmo Clarice Lispector na canção “Que o Deus venha”, um texto de Clarice musicado por Cazuza e Frejat: “Sou inquieta, áspera/ E desesperançada/ Embora amor dentro de mim eu tenha/Só que eu não sei usar amor/ As vezes arranha/ feito farpa”.
Em seguida vieram trabalhos cada vez mais ousados e marcantes, como o disco “Marginal” – em que Cássia assumia totalmente seu lado roqueiro, acrescido de uma forte influência do blues. Embora fosse extremamente tímida na vida, em cena ela conseguia extravasar tudo: “No palco eu nunca tive vergonha. Eu tinha medo de errar, de não dar conta de fazer. Timidez eu tenho de ser apresentada para as pessoas que eu não conheço. Quanto às caretas, eu sou assim mesmo. Agora, quando eu cuspo, chuto, eu estou representando um personagem”.
Ela era intensa, tocante, arrebatadora. Lembro-me da paixão com que interpretou o repertório de outro companheiro marginal, o Cazuza. Sob a sempre talentosa direção de Waly Salomão, Cássia Eller entregou-se por inteira ao interpretar o poeta que falava a sua linguagem.
Depois, com Nando Reis, encontrou um equilíbrio entre o repertório mais MPB e o rock. Em “Com você meu mundo ficaria completo”, ela troca o gestual masculino por uma concepção mais suave, tanto que aparece na capa brincando com pose de sex-symbol, de calcinha branca e cabelos longos: tudo produção, é claro.
Quatro anos se passaram e Cássia permanece viva acima de qualquer limitação do gueto de sua tribo. O público caloroso que assistia Mahgah naquele sábado de noite estrelada era formado por pessoas de todas as idades. O sorriso meigo da cantora mineira, sua interpretação sincera, sensível, sem arroubos, deixou-me comovida em muitos momentos. Eu não sabia se estava feliz ou triste por ouvir/sentir Cássia Eller assim tão próxima. Quando Mahagh cantou “Milagreiro”, todos no Anfiteatro soltaram a voz com forte emoção, como se assim pudessem trazer Cássia Eller de volta.
Geraldo Carneiro:
um deleite para a alma
Semana passada fiz uma brevíssima explanação sobre “o que é literatura”, numa turma de cursinho pré-vestibular em Juiz de Fora. Não é nada fácil falar sobre um conceito tão vasto, num programa que exige muita rapidez e absoluto poder de síntese. Aqueles jovens, na verdade apenas interessados em “macetes” específicos para o vestibular, ficaram surpresos quando eu disse que poesia não era necessariamente aquele verso que tinha uma rima, uma métrica e que falava de amor. Mais interessados eles ficaram ainda quando levei alguns exemplos de poemas concretos de Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari: “Quer dizer”, disse um deles, “que poesia é uma coisa que parece às vezes ser tão fácil, tão concreta, mas na verdade é muito difícil?”
Essa questão do meu aluno me retorna agora, quando ouço o cd Gozos da alma, do poeta e letrista Geraldo Carneiro. Gozos da alma/ À flor da língua é um belo álbum que traz um encarte-livreto-de-poemas (À flor da Língua) e um cd das canções de Geraldo (Gozos da alma), em parceria com Francis Hime, Wagner Tiso, Jacob do Bandolim, Egberto Gismonti, Astor Piazzola, John Neschling, Eduardo Souto Neto e Nando Carneiro.
O poeta Geraldo Carneiro é homem das palavras – “sou animal em surto de poesia/ devoto das revoltas do lirismo,” (...) “sempre fui traficante de palavras/ falácias, florações, flores do mal” (...) “me deleito no leito da poesia/ a deusa que me acolhe com constância” (...) “a poesia é o pó que me incendeia/ o resto é o sol que gira ao meu redor”.
O homem Geraldo Carneiro é poeta das palavras – não “em estado de dicionário”, mas vivas, pulsantes em seus múltiplos canais. Além de poeta e letrista, ele milita também por outras áreas como o cinema e a televisão. Carneiro adaptou para a tv o romance “O sorriso do Lagarto”, de João Ubaldo Ribeiro, e mais recentemente foi um dos redatores da minissérie JK.
O que me impressiona em Geraldo Carneiro é sua erudição, sua delicadeza e sua simplicidade. Com os cabelos longos que lhe conservam o ar juvenil dos tempos em que era um dos poetas mais jovens da chamada “poesia marginal”, esse mineiro de Belo Horizonte flana pelo Rio de Janeiro como se carioca fosse. O poeta circula solto pela fina flor da cidade, da zona sul aos redutos do mais puro samba de raíz. Um dos maiores luxos é participar de suas oficinas literárias que funcionam aos sábados no Centro Cultural Cartola, na Mangueira.
O álbum Gozos da alma denota bom gosto e lirismo. As letras de Geraldo Carneiro exaltam a paixão, as mil e uma faces do amor que o filiam ao cânone de todos os tempos, Camões, Shakeaspeare, Dante. A atmosfera ultra-romântica da canção “Olha a lua”, que me leva ao filme “A voz da Lua”, de Fellini, mostra o poeta enamorado pela musa-lua, sua confidente nos tormentos existenciais: “Olha a lua/minha doida, minha triste colombina/conta por que sofres tanto assim/ será que é pouca/ a minha alma louca de arlequim/ e dentro de mim um sonho danado/ de viver embriagado/pelo lado avesso?”. Não é que aqui Geraldo Carneiro parece ter se apossado um pouco de seu conterrâneo Alphonsus de Guimraens, quase se assumindo como uma espécie de um Alphonsus pós-moderno?
“Olha a Lua” foi escrita em 1979, em parceria com o maestro John Neschling. A primeira versão, gravada pela cantora Olívia Byington em 1980, levou um arranjo diferente da versão atual, em que ela canta apenas acompanhada pelo violão de Pedro Jóia. A voz de Olívia, uma “soprano quase lírica”, se casa muito bem com o acompanhamento do violão. O arranjo possibilita um encaixe perfeito com a letra de Geraldo Carneiro, recriando a ambiência romântica do tempo dos violeiros.
“Gozos da alma”, parceria com Francis Hime e que dá título ao cd, é um samba pungente. A letra é uma mistura de fragmentos do poeta barroco John Donne e fragmentos de poemas do próprio Geraldo Carneiro: “Gozos da alma, estou partindo agora,/ chegou a hora de partir, mas não/ te deixo só porque não pode ser,/ porque deixei todo o meu ser contigo,/ não pode ser porque te levo em mim,/ vou te levar comigo até o meu fim”. Francis Hime, aliás, é um dos parceiros mais constantes do poeta, tanto que o pianista, maestro e arranjador lançou recentemente seu “Arquitetura da flor”, que é quase inteiramente dedicado à sua parceria com Geraldo Carneiro.
No pequeno livro de poemas que acompanha o cd, intitulado “À flor da língua”, figuram poemas românticos e essencialmente metalingüísticos. A musicalidade forte se faz sentir também nesses poemas, que em certos momentos parecem se comunicar com a sonoridade e o ideal de “sublime”, presentes na estética simbolista: “soníferos eu lanço contra as feras/ que me devoram a solidez do sono./ a solidão em si não me apavora./os outros são o inferno, o purgatório/ e às vezes são também o paraíso”.
Geraldo Carneiro transita entre eros e tanatos: sereias, estrelas, luas, noites, sonhos, paraísos, feras, flores, primaveras, outonos, navios, loucuras, revoltas... A vida pulsa na dor e na alegria que escorrem de seus versos. “É melhor ser alegre que ser triste”, já dizia Vinicius, outro poeta da paixão. Carnavalizar é uma das saídas existenciais que Geraldo Carneiro aponta, como quer o poema visual que reproduz a vida-só-liberdade-solidão de uma ave:
A vida é uma vida só
A vida é uma ávida
A vida é uma ave
A vida é uma
A vida é
Só uma
Só
“Gozos da alma” é um deleite para a alma.
um deleite para a alma
Semana passada fiz uma brevíssima explanação sobre “o que é literatura”, numa turma de cursinho pré-vestibular em Juiz de Fora. Não é nada fácil falar sobre um conceito tão vasto, num programa que exige muita rapidez e absoluto poder de síntese. Aqueles jovens, na verdade apenas interessados em “macetes” específicos para o vestibular, ficaram surpresos quando eu disse que poesia não era necessariamente aquele verso que tinha uma rima, uma métrica e que falava de amor. Mais interessados eles ficaram ainda quando levei alguns exemplos de poemas concretos de Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari: “Quer dizer”, disse um deles, “que poesia é uma coisa que parece às vezes ser tão fácil, tão concreta, mas na verdade é muito difícil?”
Essa questão do meu aluno me retorna agora, quando ouço o cd Gozos da alma, do poeta e letrista Geraldo Carneiro. Gozos da alma/ À flor da língua é um belo álbum que traz um encarte-livreto-de-poemas (À flor da Língua) e um cd das canções de Geraldo (Gozos da alma), em parceria com Francis Hime, Wagner Tiso, Jacob do Bandolim, Egberto Gismonti, Astor Piazzola, John Neschling, Eduardo Souto Neto e Nando Carneiro.
O poeta Geraldo Carneiro é homem das palavras – “sou animal em surto de poesia/ devoto das revoltas do lirismo,” (...) “sempre fui traficante de palavras/ falácias, florações, flores do mal” (...) “me deleito no leito da poesia/ a deusa que me acolhe com constância” (...) “a poesia é o pó que me incendeia/ o resto é o sol que gira ao meu redor”.
O homem Geraldo Carneiro é poeta das palavras – não “em estado de dicionário”, mas vivas, pulsantes em seus múltiplos canais. Além de poeta e letrista, ele milita também por outras áreas como o cinema e a televisão. Carneiro adaptou para a tv o romance “O sorriso do Lagarto”, de João Ubaldo Ribeiro, e mais recentemente foi um dos redatores da minissérie JK.
O que me impressiona em Geraldo Carneiro é sua erudição, sua delicadeza e sua simplicidade. Com os cabelos longos que lhe conservam o ar juvenil dos tempos em que era um dos poetas mais jovens da chamada “poesia marginal”, esse mineiro de Belo Horizonte flana pelo Rio de Janeiro como se carioca fosse. O poeta circula solto pela fina flor da cidade, da zona sul aos redutos do mais puro samba de raíz. Um dos maiores luxos é participar de suas oficinas literárias que funcionam aos sábados no Centro Cultural Cartola, na Mangueira.
O álbum Gozos da alma denota bom gosto e lirismo. As letras de Geraldo Carneiro exaltam a paixão, as mil e uma faces do amor que o filiam ao cânone de todos os tempos, Camões, Shakeaspeare, Dante. A atmosfera ultra-romântica da canção “Olha a lua”, que me leva ao filme “A voz da Lua”, de Fellini, mostra o poeta enamorado pela musa-lua, sua confidente nos tormentos existenciais: “Olha a lua/minha doida, minha triste colombina/conta por que sofres tanto assim/ será que é pouca/ a minha alma louca de arlequim/ e dentro de mim um sonho danado/ de viver embriagado/pelo lado avesso?”. Não é que aqui Geraldo Carneiro parece ter se apossado um pouco de seu conterrâneo Alphonsus de Guimraens, quase se assumindo como uma espécie de um Alphonsus pós-moderno?
“Olha a Lua” foi escrita em 1979, em parceria com o maestro John Neschling. A primeira versão, gravada pela cantora Olívia Byington em 1980, levou um arranjo diferente da versão atual, em que ela canta apenas acompanhada pelo violão de Pedro Jóia. A voz de Olívia, uma “soprano quase lírica”, se casa muito bem com o acompanhamento do violão. O arranjo possibilita um encaixe perfeito com a letra de Geraldo Carneiro, recriando a ambiência romântica do tempo dos violeiros.
“Gozos da alma”, parceria com Francis Hime e que dá título ao cd, é um samba pungente. A letra é uma mistura de fragmentos do poeta barroco John Donne e fragmentos de poemas do próprio Geraldo Carneiro: “Gozos da alma, estou partindo agora,/ chegou a hora de partir, mas não/ te deixo só porque não pode ser,/ porque deixei todo o meu ser contigo,/ não pode ser porque te levo em mim,/ vou te levar comigo até o meu fim”. Francis Hime, aliás, é um dos parceiros mais constantes do poeta, tanto que o pianista, maestro e arranjador lançou recentemente seu “Arquitetura da flor”, que é quase inteiramente dedicado à sua parceria com Geraldo Carneiro.
No pequeno livro de poemas que acompanha o cd, intitulado “À flor da língua”, figuram poemas românticos e essencialmente metalingüísticos. A musicalidade forte se faz sentir também nesses poemas, que em certos momentos parecem se comunicar com a sonoridade e o ideal de “sublime”, presentes na estética simbolista: “soníferos eu lanço contra as feras/ que me devoram a solidez do sono./ a solidão em si não me apavora./os outros são o inferno, o purgatório/ e às vezes são também o paraíso”.
Geraldo Carneiro transita entre eros e tanatos: sereias, estrelas, luas, noites, sonhos, paraísos, feras, flores, primaveras, outonos, navios, loucuras, revoltas... A vida pulsa na dor e na alegria que escorrem de seus versos. “É melhor ser alegre que ser triste”, já dizia Vinicius, outro poeta da paixão. Carnavalizar é uma das saídas existenciais que Geraldo Carneiro aponta, como quer o poema visual que reproduz a vida-só-liberdade-solidão de uma ave:
A vida é uma vida só
A vida é uma ávida
A vida é uma ave
A vida é uma
A vida é
Só uma
Só
“Gozos da alma” é um deleite para a alma.
Maria Rita, com certeza:
Senhora do destino?
Com certeza muita gente conhece Maria Rita, cuja voz todas as noites abre e encerra a novela “Senhora do destino”, cantando os belos versos da canção “Encontros e despedidas”, parceria de Milton Nascimento com Fernando Brant. Uma canção densa, mas banalizada por sua repetição diária e exaustiva. Vamos aguardar o fim da novela, para que possamos ouvir a música num outro momento, totalmente descompromissado, distante de personagens, vinhetas e propagandas.
Com certeza pouca gente conhece o paulistano Chico Pinheiro, ou apenas ouviu falar no compositor, arranjador e violonista. Seu disco de estréia, “Meia-noite meio-dia”, lançado em abril de 2003, é um trabalho de grande qualidade, com a participação de ilustres compositores, cantores e arranjadores: Gilson Peranzetta, Paulo César Pinheiro, Lenine, Aldir Blanc, Ed Motta e a estreante Maria Rita.
Com certeza quase ninguém sabe, mas Maria Rita Mariano, que assumia o sobrenome paterno para possivelmente evitar qualquer analogia com a mãe, que era Carvalho Costa, começou sua carreira ao lado do jovem Chico Pinheiro. Juntos realizaram shows em São Paulo, Rio e Bahia, sempre com enorme sucesso de público e de crítica. No CD “Meia- noite meio-dia” Maria Rita Mariano interpreta “Essa canção” de Chico Pinheiro/ Guile Wisnik e Paulinho Neves, “Popó” de Chico Pinheiro e Aldir Blanc e “De frente” de Chico Pinheiro com Guile Wisnik.
Com certeza quem ouve Maria Rita Mariano acaba sentindo necessidade de compará-la com a atual Maria Rita, lançada pela Warner. É meio constrangedor, pois se Maria Rita já paga um preço por ser constantemente associada à imagem da mãe-mito Elis Regina, pior ainda é confundi-la com ela mesma: a “do Chico Pinheiro” com a “da Warner”. O que se notava naquele disco de “pré-estréia” era uma cantora com muito mais personalidade, que explorava as potencialidades vocais com ousadia e de maneira singular.
Com certeza o repertório do disco de Chico Pinheiro favoreceu o desabrochar de uma cantora com características próprias, os arranjos minimalistas ressaltam a beleza do timbre e a emissão de notas agudas cristalinas, dado praticamente ausente no disco da Warner. Maria Rita Mariano canta em tons adequados à sua voz, na canção “De frente” vai evoluindo em crescente dramaticidade até explodir em emoção.
Com certeza foi difícil para Maria Rita Mariano, assim como é difícil para Maria Rita, fugir de todos os compositores gravados por Elis Regina, praticamente responsável pelo lançamento de Gilberto Gil, Belchior, Milton Nascimento, Fagner, Ivan Lins, João Bosco e Aldir Blanc. Em “Popó”, a letra de Aldir em harmonia com a sofisticada música de Chico Pinheiro, marcada por um ritmo que privilegia uma levada cheia de quebras, abre espaço para que Maria Rita Mariano se solte nas performances vocais e em toda a ironia dos “comics”: “ Popó/ nocaute que eu levei/ a contagem tava em oito, eu levantei/ que nem Cassius Clay, falei!/ Veja só Mohamed Ali/ eu também me arrebentei/ ai, Deus, me acovardei.../ Meu Xodó, ai, tem dó/ chega de qüiproquó/ tô no cocoricó.../meu ciúme tá no filó!”.
Com certeza Maria Rita é muito talentosa e tem muito a percorrer, após os marcantes acontecimentos de uma carreira apenas iniciada: primeiro disco, primeiro filho, perda do amigo e produtor Tom Capone, fim do casamento. Talvez o momento atual seja destinado à reflexão, maturação de novas idéias e projetos. Como disse numa entrevista: “Eu não sei cantar uma música que pra mim não é verdade, então eu acho que isso acaba passando (para as pessoas), é até maneira de vida, viver honestamente”. Com certeza.
Daniela Aragão é cantora e mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ. Está gravando um CD com canções de Sueli Costa e Cacaso.
Senhora do destino?
Com certeza muita gente conhece Maria Rita, cuja voz todas as noites abre e encerra a novela “Senhora do destino”, cantando os belos versos da canção “Encontros e despedidas”, parceria de Milton Nascimento com Fernando Brant. Uma canção densa, mas banalizada por sua repetição diária e exaustiva. Vamos aguardar o fim da novela, para que possamos ouvir a música num outro momento, totalmente descompromissado, distante de personagens, vinhetas e propagandas.
Com certeza pouca gente conhece o paulistano Chico Pinheiro, ou apenas ouviu falar no compositor, arranjador e violonista. Seu disco de estréia, “Meia-noite meio-dia”, lançado em abril de 2003, é um trabalho de grande qualidade, com a participação de ilustres compositores, cantores e arranjadores: Gilson Peranzetta, Paulo César Pinheiro, Lenine, Aldir Blanc, Ed Motta e a estreante Maria Rita.
Com certeza quase ninguém sabe, mas Maria Rita Mariano, que assumia o sobrenome paterno para possivelmente evitar qualquer analogia com a mãe, que era Carvalho Costa, começou sua carreira ao lado do jovem Chico Pinheiro. Juntos realizaram shows em São Paulo, Rio e Bahia, sempre com enorme sucesso de público e de crítica. No CD “Meia- noite meio-dia” Maria Rita Mariano interpreta “Essa canção” de Chico Pinheiro/ Guile Wisnik e Paulinho Neves, “Popó” de Chico Pinheiro e Aldir Blanc e “De frente” de Chico Pinheiro com Guile Wisnik.
Com certeza quem ouve Maria Rita Mariano acaba sentindo necessidade de compará-la com a atual Maria Rita, lançada pela Warner. É meio constrangedor, pois se Maria Rita já paga um preço por ser constantemente associada à imagem da mãe-mito Elis Regina, pior ainda é confundi-la com ela mesma: a “do Chico Pinheiro” com a “da Warner”. O que se notava naquele disco de “pré-estréia” era uma cantora com muito mais personalidade, que explorava as potencialidades vocais com ousadia e de maneira singular.
Com certeza o repertório do disco de Chico Pinheiro favoreceu o desabrochar de uma cantora com características próprias, os arranjos minimalistas ressaltam a beleza do timbre e a emissão de notas agudas cristalinas, dado praticamente ausente no disco da Warner. Maria Rita Mariano canta em tons adequados à sua voz, na canção “De frente” vai evoluindo em crescente dramaticidade até explodir em emoção.
Com certeza foi difícil para Maria Rita Mariano, assim como é difícil para Maria Rita, fugir de todos os compositores gravados por Elis Regina, praticamente responsável pelo lançamento de Gilberto Gil, Belchior, Milton Nascimento, Fagner, Ivan Lins, João Bosco e Aldir Blanc. Em “Popó”, a letra de Aldir em harmonia com a sofisticada música de Chico Pinheiro, marcada por um ritmo que privilegia uma levada cheia de quebras, abre espaço para que Maria Rita Mariano se solte nas performances vocais e em toda a ironia dos “comics”: “ Popó/ nocaute que eu levei/ a contagem tava em oito, eu levantei/ que nem Cassius Clay, falei!/ Veja só Mohamed Ali/ eu também me arrebentei/ ai, Deus, me acovardei.../ Meu Xodó, ai, tem dó/ chega de qüiproquó/ tô no cocoricó.../meu ciúme tá no filó!”.
Com certeza Maria Rita é muito talentosa e tem muito a percorrer, após os marcantes acontecimentos de uma carreira apenas iniciada: primeiro disco, primeiro filho, perda do amigo e produtor Tom Capone, fim do casamento. Talvez o momento atual seja destinado à reflexão, maturação de novas idéias e projetos. Como disse numa entrevista: “Eu não sei cantar uma música que pra mim não é verdade, então eu acho que isso acaba passando (para as pessoas), é até maneira de vida, viver honestamente”. Com certeza.
Daniela Aragão é cantora e mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ. Está gravando um CD com canções de Sueli Costa e Cacaso.
O Brasil no Humberto Mauro
Cataguases já começa a respirar cinema dois meses antes de começar o Cineport, o Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, que acontecerá na cidade entre os dias 01 e 12 de junho. Pelo que pude ver, ao vivo e a “muitas” cores, foi um sucesso o debate realizado com estudantes – principalmente da FIC, as Faculdades Integradas de Cataguases – no dia 13 de abril no Centro Cultural Humberto Mauro.
Exibiram-se, em dois dias, os filmes “Bye bye Brasil”, de Cacá Diegues, e “O Caminho das Nuvens”, de Vicente Amorim. A projeção era excelente e realçava, deixando muito mais explícito, o festival de cores do filme de Cacá, antes ocultado pela pequena tela de televisão –pelo menos para mim, que só o conhecia em vídeo. Revi “Bye bye Brasil” com emoção redobrada. Controvérsias à parte, esse é um bom filme por vários aspectos, mas principalmente por ter uma das mais belas canções do cinema brasileiro.
Conheci a música homônima muito antes de ver o filme, uma letra enorme que vai de encontro à estética fragmentária do cinema. “Bye bye Brasil”, a música de Roberto Menescal-Chico Buarque, é uma espécie de canção-roteiro que permite ao ouvinte ter uma idéia geral do filme antes de assisti-lo. Ao ouvirmos a canção, filme à parte, seus flashes – embalados por uma cadência rítmica que obedece a um movimento crescente – parecem descrever o percurso da trupe mambembe que protagoniza o filme.
A “Caravana Rolidei” posa de ator principal do filme. Um caminhão molambento que corta o Brasil levando poeira afora artistas maltrapilhos em busca de territórios ainda não invadidos pelas antenas de televisão: “Eu quero voltar, podes crer/ Eu vi um Brasil na tevê/ Peguei uma doença em Belém/ Agora já tá tudo bem/ Mas a ligação tá no fim/ Tem um japonês trás de mim/ Aquela aquarela mudou...” Pena a canção ser tão pouco aproveitada: aparece apenas no final do filme, quando poderia ter sido utilizada para pontuar várias cenas.
Um certo saudosismo aliado a um humor cáustico permeia o filme. Cacá Diegues mostra o “brasil-brasileiro”, arcaico, sendo seduzido pelos apelos do Brasil-americano-moderno, onde chique é engulir o lixo do suposto luxo norte-americano. “Lorde Cigano”, o personagem de José Wilker, assume magistralmente sua faceta híbrida, uma mistura carnavalesca do mágico Mandrake com Clóvis Bornay. Uma das cenas mais comoventes do filme acontece quando Mandrake-Cigano faz nevar em pleno sertão, usando coco ralado como artifício. Está ali a miséria, está ali o sonho “fake” e irremediavelmente hollywoodiano: “Parece coco ralado”, diz um dos personagens.
Já “O Caminho das Nuvens”, filme baseado na história real de uma família que se desloca de bicicleta da Paraíba até o Rio de Janeiro, mostra uma espécie de “Retrato do Brasil”, embora bastante camuflado pela chamada “cosmética da fome”, como bem lembrou o convidado especial do debate, o poeta Antônio Jaime Soares, citando a crítica carioca Ivana Bentes. Nesse filme, a miséria é revestida por uma estética “clean” que de certa maneira impossibilita o pacto com a realidade. Aqui, vale lembrar a fala de duas estudantes que participaram do debate: “Será que não posso achar a Claudia Abreu bonita? Eu venho ao cinema para relaxar”. E a outra: “A gente não precisa mais de ver a miséria tão explícita, já que temos essa idéia construída em nossa cabeça por já vermos tanto essas coisas”.
Controvérsias à parte, o filme tem as canções de Roberto Carlos como fio condutor, e é através delas que o diretor procura traçar o retrato de um “Brasil verdadeiro”. Em todos os cantos e cantares do país que o filme quer representar aparece a voz de alguém entoando uma música do Rei, que alimenta de sonho, esperança e alegria a família como um todo. A cena mais tocante ocorre quando Claudia Abreu, acompanhada apenas pelo precário tocar do violão de seu filho, canta “Como é grande o meu amor por você”. É forte o seu sotaque, carregado de pungente pureza: “Eu tenho tanto pra lhe falar/ Mas com palavras não sei dizer/ Como é grande o meu amor por você / E não há nada pra comparar/ Para poder lhe explicar/ Como é grande o meu amor por você.” Um grande momento de um filme que vive de pequenos momentos. E nisso está um pouco de sua grandeza.
Nesta semana, dias 03 e 04, a Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho estará promovendo mais dois debates “FIC-Cineport” no Centro Cultural Humberto Mauro. Marginalidade e homossexualismo serão os temas em questão. Na tela, os filmes “Amarelo Manga”, de Claudio Assis, e “Madame Satã”, de Karim Anouz. No palco, na quarta-feira, dia 04, a ilustre presença do escritor e dramaturgo Alcione Araújo. É ver para não perder. Ver para debater.
Cataguases já começa a respirar cinema dois meses antes de começar o Cineport, o Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, que acontecerá na cidade entre os dias 01 e 12 de junho. Pelo que pude ver, ao vivo e a “muitas” cores, foi um sucesso o debate realizado com estudantes – principalmente da FIC, as Faculdades Integradas de Cataguases – no dia 13 de abril no Centro Cultural Humberto Mauro.
Exibiram-se, em dois dias, os filmes “Bye bye Brasil”, de Cacá Diegues, e “O Caminho das Nuvens”, de Vicente Amorim. A projeção era excelente e realçava, deixando muito mais explícito, o festival de cores do filme de Cacá, antes ocultado pela pequena tela de televisão –pelo menos para mim, que só o conhecia em vídeo. Revi “Bye bye Brasil” com emoção redobrada. Controvérsias à parte, esse é um bom filme por vários aspectos, mas principalmente por ter uma das mais belas canções do cinema brasileiro.
Conheci a música homônima muito antes de ver o filme, uma letra enorme que vai de encontro à estética fragmentária do cinema. “Bye bye Brasil”, a música de Roberto Menescal-Chico Buarque, é uma espécie de canção-roteiro que permite ao ouvinte ter uma idéia geral do filme antes de assisti-lo. Ao ouvirmos a canção, filme à parte, seus flashes – embalados por uma cadência rítmica que obedece a um movimento crescente – parecem descrever o percurso da trupe mambembe que protagoniza o filme.
A “Caravana Rolidei” posa de ator principal do filme. Um caminhão molambento que corta o Brasil levando poeira afora artistas maltrapilhos em busca de territórios ainda não invadidos pelas antenas de televisão: “Eu quero voltar, podes crer/ Eu vi um Brasil na tevê/ Peguei uma doença em Belém/ Agora já tá tudo bem/ Mas a ligação tá no fim/ Tem um japonês trás de mim/ Aquela aquarela mudou...” Pena a canção ser tão pouco aproveitada: aparece apenas no final do filme, quando poderia ter sido utilizada para pontuar várias cenas.
Um certo saudosismo aliado a um humor cáustico permeia o filme. Cacá Diegues mostra o “brasil-brasileiro”, arcaico, sendo seduzido pelos apelos do Brasil-americano-moderno, onde chique é engulir o lixo do suposto luxo norte-americano. “Lorde Cigano”, o personagem de José Wilker, assume magistralmente sua faceta híbrida, uma mistura carnavalesca do mágico Mandrake com Clóvis Bornay. Uma das cenas mais comoventes do filme acontece quando Mandrake-Cigano faz nevar em pleno sertão, usando coco ralado como artifício. Está ali a miséria, está ali o sonho “fake” e irremediavelmente hollywoodiano: “Parece coco ralado”, diz um dos personagens.
Já “O Caminho das Nuvens”, filme baseado na história real de uma família que se desloca de bicicleta da Paraíba até o Rio de Janeiro, mostra uma espécie de “Retrato do Brasil”, embora bastante camuflado pela chamada “cosmética da fome”, como bem lembrou o convidado especial do debate, o poeta Antônio Jaime Soares, citando a crítica carioca Ivana Bentes. Nesse filme, a miséria é revestida por uma estética “clean” que de certa maneira impossibilita o pacto com a realidade. Aqui, vale lembrar a fala de duas estudantes que participaram do debate: “Será que não posso achar a Claudia Abreu bonita? Eu venho ao cinema para relaxar”. E a outra: “A gente não precisa mais de ver a miséria tão explícita, já que temos essa idéia construída em nossa cabeça por já vermos tanto essas coisas”.
Controvérsias à parte, o filme tem as canções de Roberto Carlos como fio condutor, e é através delas que o diretor procura traçar o retrato de um “Brasil verdadeiro”. Em todos os cantos e cantares do país que o filme quer representar aparece a voz de alguém entoando uma música do Rei, que alimenta de sonho, esperança e alegria a família como um todo. A cena mais tocante ocorre quando Claudia Abreu, acompanhada apenas pelo precário tocar do violão de seu filho, canta “Como é grande o meu amor por você”. É forte o seu sotaque, carregado de pungente pureza: “Eu tenho tanto pra lhe falar/ Mas com palavras não sei dizer/ Como é grande o meu amor por você / E não há nada pra comparar/ Para poder lhe explicar/ Como é grande o meu amor por você.” Um grande momento de um filme que vive de pequenos momentos. E nisso está um pouco de sua grandeza.
Nesta semana, dias 03 e 04, a Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho estará promovendo mais dois debates “FIC-Cineport” no Centro Cultural Humberto Mauro. Marginalidade e homossexualismo serão os temas em questão. Na tela, os filmes “Amarelo Manga”, de Claudio Assis, e “Madame Satã”, de Karim Anouz. No palco, na quarta-feira, dia 04, a ilustre presença do escritor e dramaturgo Alcione Araújo. É ver para não perder. Ver para debater.
Que voltem os Festivais
Há alguns anos eu e um amigo fomos à casa do crítico e produtor musical Zuza Homem de Mello, em São Paulo. Objetivo: uma entrevista sobre a cantora Elis Regina. Muito gentil, Zuza nos recebeu com um sorriso nos lábios e um livro grosso nas mãos, escrito por ele: era a obra mais completa com relação à história dos grandes festivais da MPB.
Elis era a pauta, mas acabamos direcionando nosso bate papo para o tema Festival. Num misto de emoção, saudosismo e bom humor, Zuza nos confidenciava histórias fantásticas dos bastidores da canção, que nem sequer constavam de seu livro.
Encantados por sua fala, aproximávamos bastante o gravador para não perdermos nem um suspiro. Apesar do vigor com que ele nos passava informações preciosas, sentimos que o assunto Festival estava definitivamente enterrado na memória e no livro.
A lembrança deste dia me retorna justamente agora, enquanto confiro com os demais jurados as notas decisivas dos vencedores do Primeiro Festival SD’NET, de Santos Dumont.
Músicos de todas as partes e de vários gêneros disputaram os prêmios de melhor música, melhor letra, melhor arranjo e melhor intérprete. Muitos privilegiaram uma levada pop-rock, enquanto um número pequeno demonstrou a força do legado da boa MPB.
O Festival iniciou-se numa sexta feira agora de outubro e terminou no domingo, com a apresentação dos finalistas e um show de encerramento com o baixista Dudu Lima. O experiente maestro Sylvio Gomes era uma espécie de coordenador de nossa pequena equipe. Eu colocava a minha nota à caneta de maneira bem clarinha, e depois espiava a dele. Estávamos sempre em sintonia.
Um dos músicos que mais me impressionou foi o baiano Adriano Santhana. Concorrendo com duas composições próprias, levou o prêmio de melhor intérprete e de melhor canção por “Pedaços de mim”. Adriano me tocou desde o primeiro acorde, um violão preciso aliado a uma voz de timbre muito bonito.O cantor/compositor e instrumentista traz em sua interpretação de feitio “cool” a influência dos grandes da MPB como Caetano Veloso, Dorival Caymmi e João Gilberto.Avesso aos excessos, Adriano é o anti-expressionista por excelência.
“Fazenda Madalena”, de Roberto Ázis foi eleita a melhor letra e música do Festival. Embora o compositor seja de Três Rios, a canção é revestida de um certo clima de mineiridade ( não fora Três Rios na fronteira de Minas) que me remete ao mineiríssimo Fernando Brant: “Meu paraíso não tem a modernidade/Tem toda a simplicidade da luz de um lampião/ Carro de boi rangendo a beira da estrada/O canto da passarada, o pio da juriti/No fim de tarde os lampiões estão brilhando/Sapos e grilos cantando, meu paraíso é aqui/Café passado quente em coador de pano/ E do forno vai saindo uma broa de fubá/fogão de lenha, frango em panela de barro,/Gula, aqui não é pecado este é o meu lugar.”A atmosfera tranqüila do espaço interiorano também é construída no arranjo desta canção, que leva dois violões no estilo regional. Roberto Ázis é presença constante nos festivais de todos os cantos do país e sua maturidade advém do talento e da experiência.
Vale lembrar outro ótimo momento do festival, quando o, com licença da palavra “sandumonense” Martinho Caetano sobe ao palco com seus filhos para apresentar a canção “Amante Sideral”, de sua própria autoria. A música, que levou os prêmios de melhor arranjo e de melhor canção de Santos Dumont, é um blue “alto astral” que fala sobre uma paixão nos tempos da internet: “Eu já consigo copiar/Ver tua imagem em terceira dimensão/Já sou capaz de navegar na escuridão/On-line sinto teu gemido/E um hacker prisioneiro virtual/E as bandeirinhas coloridas San Juan/São Hds dançando enfim da Ham pro Hom/Plugar em teus slots/Beijar teu monitor”.
Destaco essas canções e esses artistas pelo impacto que me causaram. No entanto, haviam outros também muito talentosos, que ficaram de fora da premiação por absoluta falta de espaço. Como falou com muita propriedade o cantor e compositor Tânio César, de BH: “Os festivais são portas abertas para nós músicos independentes mostrarmos o nosso trabalho. Nós estamos fora da mídia e temos poucas oportunidades.”
Tânio está certíssimo. A grande era dos festivais dos tempos do Zuza, de fato, é coisa do passado. Mas nos tempos atuais em que os artistas se vêem massacrados pelas imposições da mídia, os pequenos festivais consistem em grandes portas. Que voltem os festivais!
Há alguns anos eu e um amigo fomos à casa do crítico e produtor musical Zuza Homem de Mello, em São Paulo. Objetivo: uma entrevista sobre a cantora Elis Regina. Muito gentil, Zuza nos recebeu com um sorriso nos lábios e um livro grosso nas mãos, escrito por ele: era a obra mais completa com relação à história dos grandes festivais da MPB.
Elis era a pauta, mas acabamos direcionando nosso bate papo para o tema Festival. Num misto de emoção, saudosismo e bom humor, Zuza nos confidenciava histórias fantásticas dos bastidores da canção, que nem sequer constavam de seu livro.
Encantados por sua fala, aproximávamos bastante o gravador para não perdermos nem um suspiro. Apesar do vigor com que ele nos passava informações preciosas, sentimos que o assunto Festival estava definitivamente enterrado na memória e no livro.
A lembrança deste dia me retorna justamente agora, enquanto confiro com os demais jurados as notas decisivas dos vencedores do Primeiro Festival SD’NET, de Santos Dumont.
Músicos de todas as partes e de vários gêneros disputaram os prêmios de melhor música, melhor letra, melhor arranjo e melhor intérprete. Muitos privilegiaram uma levada pop-rock, enquanto um número pequeno demonstrou a força do legado da boa MPB.
O Festival iniciou-se numa sexta feira agora de outubro e terminou no domingo, com a apresentação dos finalistas e um show de encerramento com o baixista Dudu Lima. O experiente maestro Sylvio Gomes era uma espécie de coordenador de nossa pequena equipe. Eu colocava a minha nota à caneta de maneira bem clarinha, e depois espiava a dele. Estávamos sempre em sintonia.
Um dos músicos que mais me impressionou foi o baiano Adriano Santhana. Concorrendo com duas composições próprias, levou o prêmio de melhor intérprete e de melhor canção por “Pedaços de mim”. Adriano me tocou desde o primeiro acorde, um violão preciso aliado a uma voz de timbre muito bonito.O cantor/compositor e instrumentista traz em sua interpretação de feitio “cool” a influência dos grandes da MPB como Caetano Veloso, Dorival Caymmi e João Gilberto.Avesso aos excessos, Adriano é o anti-expressionista por excelência.
“Fazenda Madalena”, de Roberto Ázis foi eleita a melhor letra e música do Festival. Embora o compositor seja de Três Rios, a canção é revestida de um certo clima de mineiridade ( não fora Três Rios na fronteira de Minas) que me remete ao mineiríssimo Fernando Brant: “Meu paraíso não tem a modernidade/Tem toda a simplicidade da luz de um lampião/ Carro de boi rangendo a beira da estrada/O canto da passarada, o pio da juriti/No fim de tarde os lampiões estão brilhando/Sapos e grilos cantando, meu paraíso é aqui/Café passado quente em coador de pano/ E do forno vai saindo uma broa de fubá/fogão de lenha, frango em panela de barro,/Gula, aqui não é pecado este é o meu lugar.”A atmosfera tranqüila do espaço interiorano também é construída no arranjo desta canção, que leva dois violões no estilo regional. Roberto Ázis é presença constante nos festivais de todos os cantos do país e sua maturidade advém do talento e da experiência.
Vale lembrar outro ótimo momento do festival, quando o, com licença da palavra “sandumonense” Martinho Caetano sobe ao palco com seus filhos para apresentar a canção “Amante Sideral”, de sua própria autoria. A música, que levou os prêmios de melhor arranjo e de melhor canção de Santos Dumont, é um blue “alto astral” que fala sobre uma paixão nos tempos da internet: “Eu já consigo copiar/Ver tua imagem em terceira dimensão/Já sou capaz de navegar na escuridão/On-line sinto teu gemido/E um hacker prisioneiro virtual/E as bandeirinhas coloridas San Juan/São Hds dançando enfim da Ham pro Hom/Plugar em teus slots/Beijar teu monitor”.
Destaco essas canções e esses artistas pelo impacto que me causaram. No entanto, haviam outros também muito talentosos, que ficaram de fora da premiação por absoluta falta de espaço. Como falou com muita propriedade o cantor e compositor Tânio César, de BH: “Os festivais são portas abertas para nós músicos independentes mostrarmos o nosso trabalho. Nós estamos fora da mídia e temos poucas oportunidades.”
Tânio está certíssimo. A grande era dos festivais dos tempos do Zuza, de fato, é coisa do passado. Mas nos tempos atuais em que os artistas se vêem massacrados pelas imposições da mídia, os pequenos festivais consistem em grandes portas. Que voltem os festivais!
Esses cães-gatos & lagartos
Fala-se que o cão é o melhor amigo do homem. Não sei se ele é a única espécie fiel e amorosa de fato, pois tenho amigos que dizem que seus gatos são tão ou mais amorosos e dedicados que os cães. Sueli Costa é encantada pelo seu Capuccino, um lindo gato de tom amarronzado e pêlos sedosos, tão sedosos quanto o daquelas mulheres que usam seda – o xampu das estrelas, as felinas. A sensibilidade de Sueli acabou transformando Capuccino em canção. Ao sentir esse clima de paixão entre Sueli e seu gato, nosso amigo comum, o poeta Ricardo Rizzo, fez um belo poema para a compositora: “Lua refletida em tudo/ lagoa, xícara/ café capuccino que o gato/ lambe/ na fúria vingada/ uma mulher/ menos que outras/ sabe sentar-se/ de braços/ rentes/ ao fogo da mesa/ estica-se um pouco,/ desliza as mãos/ no campo minado/ é como se pintasse/ qualquer coisa/ com muitos detalhes/ (quem sabe/ um rosto/ou uma faca/ sobre a mesma mesa/arredia)/um pouco de sua pele/ se molha na lua/ que o café derrete/e vai destilando/ no tecido/ branco/(como ar / num enforcamento)/ malvadeza de gato/ esse estio/ na mancha de lua:/ as mãos estão molhadas/ os olhos, lagoa/ molhados como o corpo.”
Ulla, minha enteada, não vive sem o Nero e a Maria, um casal de gatos gordos e bonitos que adoram ficar trançando entre a televisão e a estante de livros. Ana Paula e seu marido Pablo, meu outro enteado, cuidam do Mingau, o gato cor de caramelo mais comportado que já conheci. Fiz meu curso de letras ao lado da minha amiga Tereza, uma gata branca agregada à Universidade de Juiz de Fora, estudiosíssima e excelente parideira. Como a faculdade de letras da UFJF mudou-se para outro prédio, Tereza agora estuda filosofia, pois ela não gosta mudar de sala.
Acho os gatos sensuais, misteriosos, lindos e muito limpos, mas mesmo assim eu amo mesmo são os cães. Uma noite, há coisa de cinco meses, eu e Ronaldo voltávamos de carro da comemoração de seu aniversário, quando ele freou abruptamente, acreditando que quase atropelara um rato. Na verdade era um cão muito pequenininho, com a barriga enorme de vermes, como as crianças desnutridas da Somália. Resolvemos levar o bichinho para casa e cuidar dele, como se fosse nosso. Veterinário, vacinas, rações. Com nosso carinho e dedicação Vitório (esse “vitorioso” animal que derrotara a inanição) não negou o nome de batismo, a cada dia mais forte e heróico como os grandes vencedores da história. Da história humana, canina & etc etc.
Como qualquer cão de sua idade, Vitório era um vira-lata de estirpe, raçudo e muito do espevitado. A mistura de bassê com outra raça desconhecida dava-lhe a graça dos movimentos. Suas patas marcando sempre dez pras duas, ao estilo de um bailarino, como se em permanente “plié”, faziam dele um “cão artista”. Mas o artista fazia um catatau de firulas: latia alto, corria até o banheiro e desenrolava todo o rolo de papel higiênico, virava a lata de lixo da cozinha, comia os dicionários e os calçados, rasgava todos os pacotes de bombril e esfregava casa afora, dava saltos altíssimos como um malabarista de circo, fazia tudo que tinha direito embaixo da cama (às vezes em cima) e perto da televisão – e ainda exercitava um de seus maiores prazeres, que era morder os pés e arranhar as pernas de quem via pela frente. Por muito amor e solidariedade a tanta energia, eu deixava as minhas pernas arranhadas e acho que as pessoas que me viam chegavam a duvidar se eu seguia os preceitos de Nelson Rodrigues.
Como moramos em apartamento, não demorou muito para que recebêssemos um comunicado de advertência: Vitório passara dos limites. Não satisfeita, fui tentando arrumar saídas para cansar o artista, arrumava horário três vezes ao dia para levá-lo à rua. Qual o quê! Vitório se esbaldava “também” na rua e continuava a fazer em casa seus “esbaldeamentos”, suas “esbaldeações”, e tudo mais que possa lembrar grandes travessuras.
Após os fracasso de todas as tentativas de salvá-lo da hiperatividade – e também de aliviar os ouvidos da Solange, nossa fiel secretária e escudeira – acabei, entre lágrimas, dando o Vitório de presente para o Paulinho, porteiro do prédio. Foi doloroasa a cena de despedida: eu olhava da janela meu filhotinho, de coleira vermelha, partindo com seu novo dono.
Só o tempo cura tudo, dizem os mais vividos. Mas a saudade ainda dói! Dias desses, mais de mês sem Vitório, fui finalmente à casa de Paulinho para rever meu pomposo caõzinho, que felizmente ainda conserva o nome de batismo: “Eu cheguei em frente ao portão/ meu “ex” cachorro me sorriu latindo/ eu voltei”. Eu voltei, quase dizia pro Vitório. Eu e o Roberto Carlos. Vitório latia, chorava, pulava enlouquecidamente no meu colo como se quisesse recuperar nosso tempo perdido. Depois da festa de recepção, comprovei que ele era outro cão, muito mais tranqüilo. Na companhia de seus amigos cães e das galinhas e dos patos, Vitório encontrara o paraíso.
Na casa de Paulinho o que não falta é espaço. Ele mora num bairro próximo a uma mata muito verde, com muitos micos, passarinhos, cobras e até lagartos. Desde que cheguei a Cataguases fico impressionada com a quantidade de lagartos que vejo nas ruas. Alguns são enormes e se escondem nos canteiros que cercam as árvores dos prédios. Não pude deixar de perguntar ao Gabriel, irmão de Paulinho, se ali na sua casa apareciam muitos lagartos: “Aqui tem muitas largartixas. Agora, ´largato´, ´largato´ mesmo, a gente não pode comer de jeito nenhum no mês de agosto, pois eles falam que a cobra cruza com o ´largato´ nesse mês e passa o veneno todo pra ele. Se a gente come, morre por causa do veneno”.
O que eu chamo de lagarto, na verdade eles costumam chamar de lagartixa. O ´largato´, como eles dizem, é uma carne saborosa de um lagarto grande que se equipara a um jacaré. Naquela noite de lua cheia e muito luminosa, bati longo papo com o Paulinho e o Gabriel. A fala de Gabriel me lembrava o Riobaldo de Guimarães Rosa, uma sabedoria e uma pureza que não se vê mais no prolongamento do asfalto. O relógio bateu nove da noite, embora as patas de Vitório ainda apontassem dez para as duas. Descemos pela estradinha de chão acompanhados por Vitório e um de seus amigos. O ônibus chegou e nos despedimos. Vitório é um vitorioso. Um raçudo. Um vira-lata sim, mas de grande classe.
Fala-se que o cão é o melhor amigo do homem. Não sei se ele é a única espécie fiel e amorosa de fato, pois tenho amigos que dizem que seus gatos são tão ou mais amorosos e dedicados que os cães. Sueli Costa é encantada pelo seu Capuccino, um lindo gato de tom amarronzado e pêlos sedosos, tão sedosos quanto o daquelas mulheres que usam seda – o xampu das estrelas, as felinas. A sensibilidade de Sueli acabou transformando Capuccino em canção. Ao sentir esse clima de paixão entre Sueli e seu gato, nosso amigo comum, o poeta Ricardo Rizzo, fez um belo poema para a compositora: “Lua refletida em tudo/ lagoa, xícara/ café capuccino que o gato/ lambe/ na fúria vingada/ uma mulher/ menos que outras/ sabe sentar-se/ de braços/ rentes/ ao fogo da mesa/ estica-se um pouco,/ desliza as mãos/ no campo minado/ é como se pintasse/ qualquer coisa/ com muitos detalhes/ (quem sabe/ um rosto/ou uma faca/ sobre a mesma mesa/arredia)/um pouco de sua pele/ se molha na lua/ que o café derrete/e vai destilando/ no tecido/ branco/(como ar / num enforcamento)/ malvadeza de gato/ esse estio/ na mancha de lua:/ as mãos estão molhadas/ os olhos, lagoa/ molhados como o corpo.”
Ulla, minha enteada, não vive sem o Nero e a Maria, um casal de gatos gordos e bonitos que adoram ficar trançando entre a televisão e a estante de livros. Ana Paula e seu marido Pablo, meu outro enteado, cuidam do Mingau, o gato cor de caramelo mais comportado que já conheci. Fiz meu curso de letras ao lado da minha amiga Tereza, uma gata branca agregada à Universidade de Juiz de Fora, estudiosíssima e excelente parideira. Como a faculdade de letras da UFJF mudou-se para outro prédio, Tereza agora estuda filosofia, pois ela não gosta mudar de sala.
Acho os gatos sensuais, misteriosos, lindos e muito limpos, mas mesmo assim eu amo mesmo são os cães. Uma noite, há coisa de cinco meses, eu e Ronaldo voltávamos de carro da comemoração de seu aniversário, quando ele freou abruptamente, acreditando que quase atropelara um rato. Na verdade era um cão muito pequenininho, com a barriga enorme de vermes, como as crianças desnutridas da Somália. Resolvemos levar o bichinho para casa e cuidar dele, como se fosse nosso. Veterinário, vacinas, rações. Com nosso carinho e dedicação Vitório (esse “vitorioso” animal que derrotara a inanição) não negou o nome de batismo, a cada dia mais forte e heróico como os grandes vencedores da história. Da história humana, canina & etc etc.
Como qualquer cão de sua idade, Vitório era um vira-lata de estirpe, raçudo e muito do espevitado. A mistura de bassê com outra raça desconhecida dava-lhe a graça dos movimentos. Suas patas marcando sempre dez pras duas, ao estilo de um bailarino, como se em permanente “plié”, faziam dele um “cão artista”. Mas o artista fazia um catatau de firulas: latia alto, corria até o banheiro e desenrolava todo o rolo de papel higiênico, virava a lata de lixo da cozinha, comia os dicionários e os calçados, rasgava todos os pacotes de bombril e esfregava casa afora, dava saltos altíssimos como um malabarista de circo, fazia tudo que tinha direito embaixo da cama (às vezes em cima) e perto da televisão – e ainda exercitava um de seus maiores prazeres, que era morder os pés e arranhar as pernas de quem via pela frente. Por muito amor e solidariedade a tanta energia, eu deixava as minhas pernas arranhadas e acho que as pessoas que me viam chegavam a duvidar se eu seguia os preceitos de Nelson Rodrigues.
Como moramos em apartamento, não demorou muito para que recebêssemos um comunicado de advertência: Vitório passara dos limites. Não satisfeita, fui tentando arrumar saídas para cansar o artista, arrumava horário três vezes ao dia para levá-lo à rua. Qual o quê! Vitório se esbaldava “também” na rua e continuava a fazer em casa seus “esbaldeamentos”, suas “esbaldeações”, e tudo mais que possa lembrar grandes travessuras.
Após os fracasso de todas as tentativas de salvá-lo da hiperatividade – e também de aliviar os ouvidos da Solange, nossa fiel secretária e escudeira – acabei, entre lágrimas, dando o Vitório de presente para o Paulinho, porteiro do prédio. Foi doloroasa a cena de despedida: eu olhava da janela meu filhotinho, de coleira vermelha, partindo com seu novo dono.
Só o tempo cura tudo, dizem os mais vividos. Mas a saudade ainda dói! Dias desses, mais de mês sem Vitório, fui finalmente à casa de Paulinho para rever meu pomposo caõzinho, que felizmente ainda conserva o nome de batismo: “Eu cheguei em frente ao portão/ meu “ex” cachorro me sorriu latindo/ eu voltei”. Eu voltei, quase dizia pro Vitório. Eu e o Roberto Carlos. Vitório latia, chorava, pulava enlouquecidamente no meu colo como se quisesse recuperar nosso tempo perdido. Depois da festa de recepção, comprovei que ele era outro cão, muito mais tranqüilo. Na companhia de seus amigos cães e das galinhas e dos patos, Vitório encontrara o paraíso.
Na casa de Paulinho o que não falta é espaço. Ele mora num bairro próximo a uma mata muito verde, com muitos micos, passarinhos, cobras e até lagartos. Desde que cheguei a Cataguases fico impressionada com a quantidade de lagartos que vejo nas ruas. Alguns são enormes e se escondem nos canteiros que cercam as árvores dos prédios. Não pude deixar de perguntar ao Gabriel, irmão de Paulinho, se ali na sua casa apareciam muitos lagartos: “Aqui tem muitas largartixas. Agora, ´largato´, ´largato´ mesmo, a gente não pode comer de jeito nenhum no mês de agosto, pois eles falam que a cobra cruza com o ´largato´ nesse mês e passa o veneno todo pra ele. Se a gente come, morre por causa do veneno”.
O que eu chamo de lagarto, na verdade eles costumam chamar de lagartixa. O ´largato´, como eles dizem, é uma carne saborosa de um lagarto grande que se equipara a um jacaré. Naquela noite de lua cheia e muito luminosa, bati longo papo com o Paulinho e o Gabriel. A fala de Gabriel me lembrava o Riobaldo de Guimarães Rosa, uma sabedoria e uma pureza que não se vê mais no prolongamento do asfalto. O relógio bateu nove da noite, embora as patas de Vitório ainda apontassem dez para as duas. Descemos pela estradinha de chão acompanhados por Vitório e um de seus amigos. O ônibus chegou e nos despedimos. Vitório é um vitorioso. Um raçudo. Um vira-lata sim, mas de grande classe.
Na esteira com Mart’nália
Tenho ouvido falar sobre Mart’nália por todos os cantos. A mídia, que sempre gosta de anunciar os talentos do momento, já chegou a elegê-la a maior cantora do Brasil. Os rótulos alimentam o sistema mercadológico, que sobrevive justamente pela criação de artistas, modelos, escritores e tendências “fast food", imposturas que não sobrevivem mais de uma temporada anual.
Mart’nália já ultrapassou algumas estações com segurança e talento. Mesmo assim, considerá-la a maior cantora do Brasil seria um exagero. Já se foi a época em que eu buscava “o melhor”. Hoje convivo bem numa miscelânea antropofágica, pós-tropicalista, pós-moderna, e por isso mesmo transito sem crise entre as obras das margens e dos centros. Escolher subalternos pode ser uma boa pedida, ficar no entrelugar pode não ser a melhor opção.
Vi Mart’nália ao vivo somente uma vez, e numa passagem muito rápida, num show de seu pai, Martinho da Vila. Nos idos de 1990 ela era uma garota que mostrava muito swing, mas que eu não imaginei que fosse desenvolver uma carreira solo como cantora.
Hoje, “Menino do Rio”, seu mais recente trabalho e o quinto de sua trajetória, é a minha trilha sonora predileta enquanto faço minha caminhada diária pela esteira. A atividade tão monótona torna-se sempre mais interessante, pois observo um detalhe aqui, uma nuance do arranjo acolá e, melhor de tudo, o tempo passa e não me enjôo nem da esteira, nem de Mart’nália.
A famosa canção de Caetano Veloso é apropriada para o título do cd, “Menino do Rio”, produzido pela cantora Maria Bethânia e distribuído pelo selo Quitanda. O encarte muito bem acabado traz como pano de fundo o mar verde azulado do Rio de Janeiro, que contrasta com a bela tez mulata de Mart’nália.
O álbum traz o samba como linha de frente: “O samba corre em minhas veias/ O samba é a minha escola/ Se levo um samba do Candeia/ Ou do Paulinho da Viola/ A Dona Ivone me incendeia/ E o Martinho é quem/me consola/É a luz que sempre me clareia/ E a minha emoção decola” (Fred Camacho e Jorge Agrião). Mas também revela o talento da vertente de compositora e cantora pop que é Mart’nália.
Na primeira audição, tocou-me a interpretação delicada e contida que ela deu para a canção “Só Deus é quem sabe”, de Guilherme Arantes, que parecia estar perdida nos recônditos do tempo. Num arranjo que prima pelo minimalismo, a cantora é acompanhada pelos violões de Jaime Alem e pelo baixo de Jorge Helder, duas feras.
A voz rouca e rascante, que faz lembrar em muitas ocasiões Elza Soares, destaca os versos em tom quase narrativo: “As vezes a paixão nos traiu/As vezes foi a voz que mentiu/Mas, nada disso importa/O que vale é o que a sorte escreveu/Só Deus é quem sabe do amor/ Eu não sei nada/ Só sei que a vida nos prepara cada cilada/ E é inútil se tentar fugir da longa estrada.”
Mart’nália herdou do pai a manemolência e a ginga de malandra carioca: “Acompanhei meu pai durante muitos anos no palco. Depois fui tocar com o Ivan Lins. Aprendi a respeitar a música, a ser fiel ao palco e à arte”. Ao interpretar sambas, ela deita e rola no seu métier. Em “Boto meu povo na rua” (Arlindo Cruz, Acyr Marques e Ronaldinho), canção que caberia perfeitamente também em Zeca Pagodinho, outro malandro de carteirinha, Mart’nália se exprime como uma brasileira no sangue e na raça: “Pra te ganhar/ Dei sugesta em vagabundo/ Dei a volta pelo mundo/ Eu mergulhei fundo sem medo de errar/ E você fica nessa querendo esnobar/ Meu amor que é tão profundo/ Tá na hora de parar com isso ou/ Eu jogo um feitiço pra te apaixonar”.
Neste trabalho Mart’nália faz músicas em parceria com Zélia Duncan, Paulinho Black, Paulinho Moska, Mombaça e Ana Costa. Ótima compositora de baladas, a artista traz como destaque a suavidade de suas linhas melódicas que valorizam a intenção das letras. Em “Pára comigo”, parceria com Paulinho Black, o casamento é perfeito. A levada do violão de Jaime Alem, que faz contraponto com o baixo de Arthur Maia, exalta o tom coloquial dos versos: “Madrugada/ Que aos pouquinhos vem chegando/Sorrindo, cantando/E esperando por nós dois/Pra curtir”.
Mart’nália só não pode ser considerada a maior cantora do Brasil porque a ala feminina da MPB tem crescido em qualidade e diversidade. Certamente essa “menina do Rio” está entre as melhores descobertas da nossa música e é uma de nossas mais autênticas intérpretes. Lembro-me de ter pensando na força de Clementina de Jesus ao ouvir sua bela interpretação para o samba de roda “Nas águas de Amaralina”. Mart’nália é África e América: a terra, o ritmo, a cor, o sol, a noite, os batuques. A pureza e a malícia.
Quando assisti ao filme “Vinicius” de Miguel Faria Jr, fiquei encantada com sua interpretação para “Sei lá... a vida tem sempre razão” (Toquinho e Vinicius). Entre tantos escolados como Edu Lobo, Gilberto Gil e Carlos Lyra, Mart’nália deu um banho de talento e presença de palco. No seu jeito único de moleca, a cantora criou um swing e uma divisão única para o samba: “Sempre fui palhaça, risonha e a mais espoleta da turma. Sou bem-humorada e muito festeira”.
Faz tempo que estou querendo assistir de novo Mart’nália ao vivo. Já contei numa outra crônica que perdi uma temporada que ela fez no Teatro Rival. Semana passada estive novamente no Rio, mas as datas não favoreceram. Lamento, vamos ver até quando continuarei a andar com ela na esteira.
Tenho ouvido falar sobre Mart’nália por todos os cantos. A mídia, que sempre gosta de anunciar os talentos do momento, já chegou a elegê-la a maior cantora do Brasil. Os rótulos alimentam o sistema mercadológico, que sobrevive justamente pela criação de artistas, modelos, escritores e tendências “fast food", imposturas que não sobrevivem mais de uma temporada anual.
Mart’nália já ultrapassou algumas estações com segurança e talento. Mesmo assim, considerá-la a maior cantora do Brasil seria um exagero. Já se foi a época em que eu buscava “o melhor”. Hoje convivo bem numa miscelânea antropofágica, pós-tropicalista, pós-moderna, e por isso mesmo transito sem crise entre as obras das margens e dos centros. Escolher subalternos pode ser uma boa pedida, ficar no entrelugar pode não ser a melhor opção.
Vi Mart’nália ao vivo somente uma vez, e numa passagem muito rápida, num show de seu pai, Martinho da Vila. Nos idos de 1990 ela era uma garota que mostrava muito swing, mas que eu não imaginei que fosse desenvolver uma carreira solo como cantora.
Hoje, “Menino do Rio”, seu mais recente trabalho e o quinto de sua trajetória, é a minha trilha sonora predileta enquanto faço minha caminhada diária pela esteira. A atividade tão monótona torna-se sempre mais interessante, pois observo um detalhe aqui, uma nuance do arranjo acolá e, melhor de tudo, o tempo passa e não me enjôo nem da esteira, nem de Mart’nália.
A famosa canção de Caetano Veloso é apropriada para o título do cd, “Menino do Rio”, produzido pela cantora Maria Bethânia e distribuído pelo selo Quitanda. O encarte muito bem acabado traz como pano de fundo o mar verde azulado do Rio de Janeiro, que contrasta com a bela tez mulata de Mart’nália.
O álbum traz o samba como linha de frente: “O samba corre em minhas veias/ O samba é a minha escola/ Se levo um samba do Candeia/ Ou do Paulinho da Viola/ A Dona Ivone me incendeia/ E o Martinho é quem/me consola/É a luz que sempre me clareia/ E a minha emoção decola” (Fred Camacho e Jorge Agrião). Mas também revela o talento da vertente de compositora e cantora pop que é Mart’nália.
Na primeira audição, tocou-me a interpretação delicada e contida que ela deu para a canção “Só Deus é quem sabe”, de Guilherme Arantes, que parecia estar perdida nos recônditos do tempo. Num arranjo que prima pelo minimalismo, a cantora é acompanhada pelos violões de Jaime Alem e pelo baixo de Jorge Helder, duas feras.
A voz rouca e rascante, que faz lembrar em muitas ocasiões Elza Soares, destaca os versos em tom quase narrativo: “As vezes a paixão nos traiu/As vezes foi a voz que mentiu/Mas, nada disso importa/O que vale é o que a sorte escreveu/Só Deus é quem sabe do amor/ Eu não sei nada/ Só sei que a vida nos prepara cada cilada/ E é inútil se tentar fugir da longa estrada.”
Mart’nália herdou do pai a manemolência e a ginga de malandra carioca: “Acompanhei meu pai durante muitos anos no palco. Depois fui tocar com o Ivan Lins. Aprendi a respeitar a música, a ser fiel ao palco e à arte”. Ao interpretar sambas, ela deita e rola no seu métier. Em “Boto meu povo na rua” (Arlindo Cruz, Acyr Marques e Ronaldinho), canção que caberia perfeitamente também em Zeca Pagodinho, outro malandro de carteirinha, Mart’nália se exprime como uma brasileira no sangue e na raça: “Pra te ganhar/ Dei sugesta em vagabundo/ Dei a volta pelo mundo/ Eu mergulhei fundo sem medo de errar/ E você fica nessa querendo esnobar/ Meu amor que é tão profundo/ Tá na hora de parar com isso ou/ Eu jogo um feitiço pra te apaixonar”.
Neste trabalho Mart’nália faz músicas em parceria com Zélia Duncan, Paulinho Black, Paulinho Moska, Mombaça e Ana Costa. Ótima compositora de baladas, a artista traz como destaque a suavidade de suas linhas melódicas que valorizam a intenção das letras. Em “Pára comigo”, parceria com Paulinho Black, o casamento é perfeito. A levada do violão de Jaime Alem, que faz contraponto com o baixo de Arthur Maia, exalta o tom coloquial dos versos: “Madrugada/ Que aos pouquinhos vem chegando/Sorrindo, cantando/E esperando por nós dois/Pra curtir”.
Mart’nália só não pode ser considerada a maior cantora do Brasil porque a ala feminina da MPB tem crescido em qualidade e diversidade. Certamente essa “menina do Rio” está entre as melhores descobertas da nossa música e é uma de nossas mais autênticas intérpretes. Lembro-me de ter pensando na força de Clementina de Jesus ao ouvir sua bela interpretação para o samba de roda “Nas águas de Amaralina”. Mart’nália é África e América: a terra, o ritmo, a cor, o sol, a noite, os batuques. A pureza e a malícia.
Quando assisti ao filme “Vinicius” de Miguel Faria Jr, fiquei encantada com sua interpretação para “Sei lá... a vida tem sempre razão” (Toquinho e Vinicius). Entre tantos escolados como Edu Lobo, Gilberto Gil e Carlos Lyra, Mart’nália deu um banho de talento e presença de palco. No seu jeito único de moleca, a cantora criou um swing e uma divisão única para o samba: “Sempre fui palhaça, risonha e a mais espoleta da turma. Sou bem-humorada e muito festeira”.
Faz tempo que estou querendo assistir de novo Mart’nália ao vivo. Já contei numa outra crônica que perdi uma temporada que ela fez no Teatro Rival. Semana passada estive novamente no Rio, mas as datas não favoreceram. Lamento, vamos ver até quando continuarei a andar com ela na esteira.
Tom é tudo
Ultimamente tenho escutado quase todos os dias o último cd de Tom Jobim (“Antonio Carlos Jobim em Minas ao vivo piano e voz”), lançado pela Biscoito Fino. O disco resgata com impecável qualidade sonora o maravilhoso show “piano e voz” que ele realizou no Palácio das Artes de Belo Horizonte, em 1981. Tom toca e canta preciosidades como suas parcerias com Dolores Duran (“Estrada do sol”), Chico Buarque (“Retrato em Branco e Preto”) e Aloysio de Oliveira (“Dindi”). Emociona ouvir o som de sua respiração em cada pausa, em cada retorno. A grande beleza do disco está em sua “sofisticada simplicidade”. E vale o paradoxo, pois para Tom valem todos os paradoxos. Este é o grande legado que ele nos deixou.
Sua simplicidade e intenso refinamento são exaltados nas canções – aquele “only one finger”, o dedo mágico que executa a nota certa, precisa, sem enfeites desnecessários. O piano de Tom é inconfundível, inigualável. Essa simplicidade é o reflexo da alma de um ser iluminado, como disse Helena Jobim em sua biografia sobre o irmão. Antonio Carlos era brasileiro não apenas no nome – e muito antes de a ecologia estar na moda: ele amava os passarinhos do país, seus tatus, suas capivaras, os jerebas, os botos.
“Passarim quis pousar, não deu, voou/ Porque o tiro feriu mas não matou/ Passarinho me conta então me diz/ Porque que eu também não fui feliz” (Passarim), “Deixa a onça viva na floresta/ Deixa o peixe n’água que é uma festa/ deixa o índio vivo/deixa o índio” (Borzeguim), “Pétalas de rosas espalhadas pelo vento/ um amor tão puro carregou meu pensamento” (Chovendo na roseira).
É possível sempre sentir um Tom vivo, muito próximo, como se estivesse fazendo um concerto intimista, para cada ouvinte embevecido. Sua voz de tom muito grave nos leva e enleva, e vamos ao paraíso: “Céu, tão grande é o céu/ E bandos de nuvens/ Que passam ligeiras/ Pra onde elas vão/ Ah, eu não sei, não sei” (Dindi). E a infernos amorosos: “lá vou eu de novo como um tolo/ Procurar o desconsolo/ Que cansei de conhecer/ Novos dias tristes, noites claras/ Versos, cartas, minha cara/ Ainda volto a lhe escrever” (Retrato em Branco e Preto). Aos poucos a gente pode perceber ele se sentindo confortável e totalmente descontraído na terra de suas duas grandes paixões: Guimarães Rosa e Drummond. O maestro soberano reverencia os músicos mineiros, presentes no seu concerto: “Aqui tem uma moçada da pesada, Lô Borges, Beto Guedes, Ronaldo Bastos e também o Fernando Brant, gente fortíssima”.
Nada emociona mais que o autor interpretando sua própria canção. Tom dá ênfase à força poética de suas letras, muitas vezes pouco notada pelo público e pela própria crítica. Comenta-se muito sobre a harmonia, a melodia, os arranjos, mas quase não se fala do incomensurável talento de Jobim ao construir suas letras. Sem dúvida ele sempre se cercou de seus Chico Buarques, de suas Dolores Duran, de seus Vinicius de Moraes. Mas olha que nem era lá muito necessário: Tom se bastava por si mesmo.
Ouçam, por exemplo,“ Ligia”, uma canção em tudo anti-romântica - e extremamente irônica. Com a palavra o próprio Tom, com todos os tons de seu bom-humor: “Sempre troquei os nomes das musas e ainda dava a maior confusão. Porque se você chamar a musa por outro nome, aparece um outro marido para pedir satisfação. Naturalmente, a Lígia é um punhado de Lígias, de Lídias também. Os maridos ficam sobressaltados. Inclusive a letra de Lígia nega qualquer ligação: ‘Não gosto de chuva, não gosto de sol, não vou a Ipanema, não gosto de samba, não vou ao cinema. É uma Lígia sem contato físico’. É ascética, desligada, platônica, completamente.”
E Tom continua, descontruindo sua Lígia: “quando você me prender nos seus braços serenos (ela está sereníssima, naturalmente), eu vou me render, mas seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol”. Pois é, ele está louco de paixão, supondo que, se a tivesse, teria se jogado pela janela. Esse negócio não tem importância. Muitas vezes, eu não boto nome de mulher nenhuma”.
Esse o tom do Tom. Que é tudo.
Ultimamente tenho escutado quase todos os dias o último cd de Tom Jobim (“Antonio Carlos Jobim em Minas ao vivo piano e voz”), lançado pela Biscoito Fino. O disco resgata com impecável qualidade sonora o maravilhoso show “piano e voz” que ele realizou no Palácio das Artes de Belo Horizonte, em 1981. Tom toca e canta preciosidades como suas parcerias com Dolores Duran (“Estrada do sol”), Chico Buarque (“Retrato em Branco e Preto”) e Aloysio de Oliveira (“Dindi”). Emociona ouvir o som de sua respiração em cada pausa, em cada retorno. A grande beleza do disco está em sua “sofisticada simplicidade”. E vale o paradoxo, pois para Tom valem todos os paradoxos. Este é o grande legado que ele nos deixou.
Sua simplicidade e intenso refinamento são exaltados nas canções – aquele “only one finger”, o dedo mágico que executa a nota certa, precisa, sem enfeites desnecessários. O piano de Tom é inconfundível, inigualável. Essa simplicidade é o reflexo da alma de um ser iluminado, como disse Helena Jobim em sua biografia sobre o irmão. Antonio Carlos era brasileiro não apenas no nome – e muito antes de a ecologia estar na moda: ele amava os passarinhos do país, seus tatus, suas capivaras, os jerebas, os botos.
“Passarim quis pousar, não deu, voou/ Porque o tiro feriu mas não matou/ Passarinho me conta então me diz/ Porque que eu também não fui feliz” (Passarim), “Deixa a onça viva na floresta/ Deixa o peixe n’água que é uma festa/ deixa o índio vivo/deixa o índio” (Borzeguim), “Pétalas de rosas espalhadas pelo vento/ um amor tão puro carregou meu pensamento” (Chovendo na roseira).
É possível sempre sentir um Tom vivo, muito próximo, como se estivesse fazendo um concerto intimista, para cada ouvinte embevecido. Sua voz de tom muito grave nos leva e enleva, e vamos ao paraíso: “Céu, tão grande é o céu/ E bandos de nuvens/ Que passam ligeiras/ Pra onde elas vão/ Ah, eu não sei, não sei” (Dindi). E a infernos amorosos: “lá vou eu de novo como um tolo/ Procurar o desconsolo/ Que cansei de conhecer/ Novos dias tristes, noites claras/ Versos, cartas, minha cara/ Ainda volto a lhe escrever” (Retrato em Branco e Preto). Aos poucos a gente pode perceber ele se sentindo confortável e totalmente descontraído na terra de suas duas grandes paixões: Guimarães Rosa e Drummond. O maestro soberano reverencia os músicos mineiros, presentes no seu concerto: “Aqui tem uma moçada da pesada, Lô Borges, Beto Guedes, Ronaldo Bastos e também o Fernando Brant, gente fortíssima”.
Nada emociona mais que o autor interpretando sua própria canção. Tom dá ênfase à força poética de suas letras, muitas vezes pouco notada pelo público e pela própria crítica. Comenta-se muito sobre a harmonia, a melodia, os arranjos, mas quase não se fala do incomensurável talento de Jobim ao construir suas letras. Sem dúvida ele sempre se cercou de seus Chico Buarques, de suas Dolores Duran, de seus Vinicius de Moraes. Mas olha que nem era lá muito necessário: Tom se bastava por si mesmo.
Ouçam, por exemplo,“ Ligia”, uma canção em tudo anti-romântica - e extremamente irônica. Com a palavra o próprio Tom, com todos os tons de seu bom-humor: “Sempre troquei os nomes das musas e ainda dava a maior confusão. Porque se você chamar a musa por outro nome, aparece um outro marido para pedir satisfação. Naturalmente, a Lígia é um punhado de Lígias, de Lídias também. Os maridos ficam sobressaltados. Inclusive a letra de Lígia nega qualquer ligação: ‘Não gosto de chuva, não gosto de sol, não vou a Ipanema, não gosto de samba, não vou ao cinema. É uma Lígia sem contato físico’. É ascética, desligada, platônica, completamente.”
E Tom continua, descontruindo sua Lígia: “quando você me prender nos seus braços serenos (ela está sereníssima, naturalmente), eu vou me render, mas seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol”. Pois é, ele está louco de paixão, supondo que, se a tivesse, teria se jogado pela janela. Esse negócio não tem importância. Muitas vezes, eu não boto nome de mulher nenhuma”.
Esse o tom do Tom. Que é tudo.
Assinar:
Postagens (Atom)
