quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A imagem - cor do som

Outro dia conversava com um amigo sobre “canais de recepção”. Se me faço entender, o assunto nada tinha a ver com conexões eletrônicas, televisão, internet, celular. Falávamos de nossas habilidades para apreender/captar o mundo. Não fugindo à regra do “ser masculino”, ele me disse que absorve a vida através do olhar. Como bom voyeur, está sempre ligado na sedução das imagens que alimentam seu imaginário. Não foi à toa que Baudelaire escreveu o poema “A une passante”, dedicado a uma mulher desconhecida que lhe cruzara o caminho. A “Garota de Ipanema”, de Tom e Vinicius, é novamente o voyeurismo do macho revivenciado no trópico.
“Um tom pra cantar/um tom pra falar/um tom pra viver/ um tom para a cor/um tom para o som/ um tom para o ser”, canta Caetano. Minha percepção do mundo se dá pelo som. Música pra mim tem cheiro, sabor, forma, cor e perfume. Tatuei no ombro esquerdo um violão azul e no punho direito uma clave de sol para que a música fique eternizada na memória de meu corpo.
A relação entre som e cor me instiga desde os tempos em que passava as tardes na casa do meu saudoso amigo, o pintor Dnar Rocha. Ele pedia-me para que cantasse e tocasse qualquer canção que me batesse forte enquanto ia misturando as tintas e elaborando os primeiros traços de um novo trabalho. Apaixonado por Orlando Silva, Dnar adorava me contar as histórias do cantor das multidões. Em algumas ocasiões aparentava certa nostalgia, mas antenado que era não deixava passar incólume por seu humor cáustico tudo o que invadia seus olhos e ouvidos. “Daniela, eu vi no mapa um lugar chamado Batatais, gostei do nome, tô pensando em me mudar pra lá.”
Uma saudade do Dnar tomou conta de mim quando recentemente visitei no Paço Imperial, no Rio, a exposição “A imagem do som do samba”. Artes visuais e música se unem sob o olhar de oitenta artistas plásticos que fazem leituras de oitenta sambas. Esse trabalho dialógico é original em seu caráter inventivo. Composições esquecidas ou cristalizadas no inconsciente coletivo, como “Ai, que saudade da Amélia!”, de Ataulfo Alves e Mário Lago, ganham interpretações revigoradas.
Devido ao inesperado da visita, não carregava minha máquina fotográfica. Para não perder as imagens fui anotando no caderninho alguns detalhes das obras correspondentes às canções que mais me sensibilizavam. Ao lado de cada tela, foto ou instalação havia um fone para que o visitante participasse com todos os seus sons e sentidos.
Essa exposição é o prolongamento de outras realizadas com a mesma proposta. Caetano Veloso, Tom Jobim, Chico Buarque e Gilberto Gil tiveram antes seus versos e melodias viradas do avesso. A riqueza da obra desses artistas possibilitou uma multiplicidade de olhares. A predominância do foco na questão urbana, como é o caso de Chico Buarque, não impediu que despontassem interpretações absolutamente distintas.
Em “A imagem do som do samba” optei por seguir fielmente o trajeto delimitado pelos curadores. Fui ouvindo as canções na seqüência da disposição espacial das obras. Uma das interpretações que mais me chamou atenção foi a de Irene Peixoto. A artista imprimiu sua marca na leitura de “Mora na filosofia”, de Monsueto e Arnaldo Passos: “Mora na filosofia pra que rimar amor e dor/ Se seu corpo ficasse marcado/ por lábios ou mãos carinhosas/ eu saberia (ora vá mulher)/ a quantos você pertencia/ Não vou me preocupar em ver/ seu caso não é de ver pra crer: ta na cara...” Irene apresenta a foto de um homem nu em posição fetal repleto de carimbos com frases de filósofos e imagens de posições sexuais. A interpretação de Caetano ganha em pulsação erótica na obra que sobrepõe pensamentos e corpos em cópulas sobre o corpo que nasce.
A exploração do tema amoroso é constante na maior parte dos trabalhos, o que não foge à regra da história do cancioneiro nacional. Amores impossíveis, relacionamentos desfeitos, brigas, lágrimas, uniões, um carnaval de dor e prazer contamina o universo dos nossos sambas. É notável a maneira como esses artistas tentam fugir do lugar comum, “A voz do morro” de Zé Kéti é revista sob a ótica da violência conforme representa a metralhadora fotografada por Rodrigo Lopes: “Eu sou o samba/ A voz do morro sou eu mesmo sim senhor/Quero mostrar ao mundo que tenho valor/ Eu sou o rei dos terreiros/ Eu sou o samba sou natural aqui do Rio de Janeiro/ Sou eu quem leva alegria para milhões/ De corações brasileiros”.
Heloísa Faria brinda a alegria tropical de “Brasil Pandeiro” (Assis Valente) interpretada pelos Novos Baianos. Abusando do kitsch, a artista enche uma taça com purpurina nas cores da bandeira nacional. Entre ondas de azul, verde e amarelo se fixa um pequeno pandeirinho que convida o espectador a entrar no ritmo: “Brasil, esquentai vossos pandeiros/ Iluminai os terreiros que nós queremos sambar”.
Caminhar pelos interstícios da subjetividade foi a opção de Jair de Oliveira ao ler “Falsa Baiana” (Geraldo Pereira) na interpretação magistral de João Gilberto: “Baiana que entra no samba e só fica parada/ Não samba, não dança, não bole nem nada/ Não sabe deixar a mocidade louca/ Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira/ Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras/ Deixando a moçada com água na boca”. Aos olhos e ouvidos de Jair a “falsa baiana” não transcende o plano imaginário – e ele expõe apenas uma cadeira vazia que o espectador ocupa com sua própria baiana imaginada.
Representação delicada leva o samba “Quantas lágrimas”, de Manacéa. A interpretação de Cristina Buarque é valorizada com o grande painel fotográfico do artista Rafael Jacinto. A obra apresenta três belas mulheres na faixa dos trinta anos com as faces avermelhadas de choro. A força da imagem elimina o ar meio passadista da canção: “Só melancolia os meus olhos trazem/ Ai, quanta saudade a lembrança faz/ Se houvesse retrocesso na idade/ Eu não teria saudade da minha mocidade”.
Vou relendo minhas anotações e tentando reconstruir imagens. Sou invadida por uma saudade intensa do Dnar. Música e artes plásticas são uma coisa só, não preciso ir a Batatais para conferir.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Caetano, sempre ele

Estou para escrever sobre Caetano faz tempo, mas o texto teimava em não sair: Os ícones costumam me assustar. Andava meio de mal com o Caê desde os tempos do “Circuladô” – achei que ele havia encerrado ali sua carreira gloriosa. O Caetano que se transformou em pensador da cultura brasileira em “Verdade Tropical”, filósofo midiático, entusiasta de Fernando Henrique e intérprete de “Sozinho” do Peninha, era uma figura bastante diferente da que eu e tantos outros fãs conheciam.
Essa relação de amor e ódio que vim nutrindo pelo baiano se renovou em paixão de descoberta. E como é deliciosa essa sensação de encontro total. Com um disco, um livro, um amigo, um namorado, uma tarde de sol, uma noite de lua, um segundo de contemplação. Vem à minha mente o belo conto “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector. Nele a autora descreve com seu lirismo intenso e delicado o encontro de amor entre uma menina e o livro “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato. O enlevo e a surpresa invadem o momento do encontro epifânico, que não resisto em transcrever:
“Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante”.
Caetano é um clariceano de carteirinha, que compôs “O nome da cidade” inspirado na personagem Macabéa. Que mistério tem Caetano? O meu affair tem se dado com “Cê”, o mais recente trabalho do artista lançado em cd de estúdio, ao vivo e dvd. “Minha música vem da/ Música da poesia de um poeta João que/ Não gosta de música/ Minha poesia vem/ da poesia da música de um João músico que/ Não gosta de poesia”. Talvez um pouco João Gilberto, um pouco João Cabral, talvez tanto, já que o “leão de fogo” sempre quis muito e jamais pareceu ser modesto.
Em “Cê” Caetano dialoga com o álbum “Transa” de 1972 e regrava composições como “Nine out of ten” e “You don’t know me”. “Cê” é um disco de rock, mas com o apuro minimalista que leva a assinatura Caetano Veloso. “Cê” prima pela economia sonora que já vem anunciada no título, segundo o compositor “Cê” simboliza a inicial de seu nome, uma marca da fala coloquial e também a força da concisão silábica.
“Cê” tem como uma das maiores virtudes o som “sujo”, meio pesado. Ao lado dos jovens músicos Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcello Callado, Caetano une a sabedoria e experiência à novidade, resultando num mix no mínimo muito original.
Depois de “ser neguinha” e “mulato franzino”, Caetano se mostra muito masculino em “Cê”. Mas camaleônico que é, desliza intencionalmente indo contra a via e nadando contra a maré em “Amor mais que discreto”, composição assumidamente gay: “Talvez haja entre nós o mais total interdito/Mas você é bonito o bastante, complexo o bastante/bom o bastante pra tornar-se ao menos por um instante/ o amante do amante que antes de te conhecer/Eu não cheguei a ser.” A onipresença da masculinidade nas demais canções sinaliza o ânimus de Cê/Caetano em busca de uma desconstrução/afirmação identitária.
Repleto de metáforas sexuais, o disco é uma solitária ode ao, vamos dizer, entusiasmo erótico. O compositor celebra suas musas em composições dionisíacas como “Deusa urbana”, “Outro”, “Musa híbrida”, “Odeio” e “Rocks”. Entendo agora a afobação de Luana Piovani ao querer espalhar pelos mil cantos do mundo que “Um sonho” foi dedicada a ela. Ironicamente Caetano confirma a dedicatória à musa global, porém diz que é parcialmente inspirada. Ah bruta flor do querer!
“Um sonho” é a canção mais lírica do cd, belíssima em sua riqueza de jogos metafóricos: lua/fruta flor folhuda/ ah! A trilha de alcançar-te/ galho, mulher, folho, filhos/ malha de galáxias/ tua pele se espalha/ ao som de minha mão/ traçar-lhe rotas/ teu talho, meu malho/ teu talho, meu malho/ o ir e vir de tua/ o ir e vir de tua ilha/lua/toda a minha chuva/ todo o meu orvalho/ cai sobre ti”.
O desejo vivido ou interdito é descarregado nas composições que esmiúçam muitos detalhes da sexualidade feminina. Em “Homem” Caetano expressa o seu complexo orgástico, ao mesmo tempo em que se orgulha de sua masculinidade. Permanece o “homem comum enganado entre a dor e o prazer” de “Peter Gast”: “Não tenho inveja da maternidade/nem da lactação/não tenho inveja da adiposidade/nem da menstruação/só tenho inveja da longevidade e dos orgasmos múltiplos/ Eu sou homem/ pele solta sobre o músculo/ eu sou homem/ pelo grosso do nariz”.
A sensualidade desponta em “Deusa urbana”, canção onde se percebe o quanto Caetano está cantando bem: diga-se de passagem, cada vez melhor. Ele ousa nos falsetes que resultam num contraponto interessante entre o som mais cru da levada rock e as nuances melódicas. Entre a audácia e o recuo o artista se atira aos prazeres da musa: “Com você eu tenho medo de me conformar/ Eu tenho mesmo medo de não me conformar/ sexo heterodoxo, lapsos de desejo/ quando eu vejo o céu desaba sobre nós/ mucosa roxa/peito cor de rola/ seu beijo, seu texto, seu queixo, seu pêlo/ sua coxa”.
O Caetano que fez sua língua “roçar na língua de Luís de Camões” volta a brincar com as origens em “Por quê?”, composição com letra em três versos que em tom de humor conduz em som o momento do gozo de um português. Ele canta com sotaque lusitano e a música acompanha o movimento até a chegada do êxtase: “estou me a vir/ e tu como é que te tens por dentro?/ por que não te vens também?”
Em meio à profusão de partes lúbricas, Caetano compôs uma contundente homenagem ao poeta, letrista e agitador cultural Waly Salomão. O espírito dionisíaco desse outro baiano é evocado numa espécie de mantra. Sobressai a beleza do arranjo da canção que faz um casamento perfeito com a letra. “Waly Salomão” é uma elegia com o pulsar firme do bumbo: “findaste o teu desenho/ e a tua marca resplandece/resplandece nítida e real/entre livros e os tambores de Vigário Geral/ e o brilho não é pequeno”.
Fazer as pazes com o passado e seguir buscando incessantemente um lugar no futuro parece ser o lema do artista. Ele tenta se reconciliar poeticamente com a ex-mulher Paula Lavigne “não, nada irá nesse mundo/ apagar o desenho que temos aqui/ nem o maior dos seus erros/meus erros, remorsos, o farão sumir” e vivenciar seu processo de envelhecimento em harmonia e criação. O “homem velho” Caetano é na verdade muito jovem e segue “sempre em frente deixando sua errática marca de serpente”.