terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Cos´è? Celebração do cine/porto da vida

Depois de muitos filmes, muitos shows e muita gente interessante, chego à conclusão de que um dos assuntos mais comentados do Cineport foi o balé de minha xará, apresentado duas vezes na praça Santa Rita, um absoluto sucesso. Vi Daniela Guimarães pela primeira vez no palco do Theatro Central em Juiz de Fora, apresentando um belíssimo espetáculo dedicado à pintora mexicana Frida Kahlo. Fui assistir com grande expectativa e curiosidade, imaginando como seria possível “dançar uma artista” que extraiu da limitação física força transcendente para transformar sua própria vida em elemento de criação: “Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”.
O balé é uma celebração da vida. A cena se abre com Daniela/Frida atada sobre a cama. O figurino, composto por um macacão bege grudado à pele com desenhos de faixas brancas sobrepostas, sugeria a idéia do colete usado pela pintora. Durante vinte minutos – tempo que parece infinito – a bailarina, através de insistentes e tensos movimentos, tenta vencer o não movimento.
O clima angustiante é intensificado pela beleza do pungente tango do argentino Blás Rivera. Daniela dançou o prazer e a dor no percurso de desvelamento do ser feminino. Das trevas à luz é delicado e doloroso o desabrochar de Frida. Lembro-me de um momento forte, final do espetáculo, em que ela se lambuzava de tinta vermelha, uma alusão ao sangue, ao nascimento, ao aborto.
Daniela Guimarães imprime a marca de sua criatividade em tudo o que faz. Agora em Cataguases, à frente do Centro das Tradições Mineiras-CTM – mas sem abandonar Juiz de Fora, onde continua também à frente da Cia Cos´è? Teatro-Dança – ela vai transformando o mundo em movimento. O balé apresentado por duas vezes na praça Santa Rita me deixou extasiada: como o cineasta Paulo Cezar Saraceni, também eu não pude conter as lágrimas quando entraram as músicas “O mundo é um moinho” de Cartola e “Bachianas Brasileiras” de Villa-Lobos.
Tudo tão brasileiro e ao mesmo tempo universal. Nos quinze anos que passei dançando na academia Real Ballet em Juiz de Fora (e lá se vão outros quinze anos), não me lembro de ter visto algo tão forte. O grupo “Corpo” muito me impressionou com “Maria Maria” e “Nazareth”, mas Daniela Guimarães me tocou ainda mais pela humanidade de seu trabalho.
Assim como no jazz, os bailarinos da Cia Ormeo Teatro-Dança (do CTM) são co-autores na criação coreográfica, jovens treinados para explorar suas mil e uma possibilidades. Criam/recriam, invadem espaços, interagem com o público quando a empatia é forte. Cada bailarino é único, singular, vivencia a plenitude dos movimentos conforme o ambiente, a emoção, o sentido despertado no momento. Isso é original. É fortemente moderno.
Na cerimônia de encerramento do Cineport, Daniela e as bailarinas da Cia Cos´è? deram um show de maturidade, talento e beleza. Pelo profissionalismo, parecia coisa do Oscar, não fosse o Oscar coisa tão brega. Mas é claro que elas dançavam o Brasil, de muitos sons e mil-tons geniais – salve, Caetano! A pele na textura da tela naquela projeção tão delicada em que a bailarina falava de si mesma e de outras mulheres. Mais uma vez o forte desnudamento do ser feminino. Na cena da chuva eu me lembrei de “A falecida” de Nelson Rodrigues, naquela cena fantástica do filme de Leon Hirszman em que Fernanda Montenegro se comprazia na chuva com os braços e todo o corpo liberto.
Acompanhei a tudo, absorvida, como no belo momento em que as bailarinas deram ainda mais ritmo e intensidade às imagens do filme “Nhá Fala” do cineasta guineense Flora Gomes, que estava em Cataguases e no Centro Cultural Humberto Mauro, assistindo a esse instante luminoso. Na cena final, sentados no proscênio, os bailarinos marcavam o ritmo com palmas. Que viraram aplausos. Para o Cineport, para a platéia, para si mesmos. E para a poesia que pairava em tudo.

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