Amarelo Manga/Vermelho Satã
Cataguases já vive em tempo de cinema, antecipando o Festival Cineport que começa em junho. Depois de “Bye bye Brasil” e “O caminho das nuvens”, o Centro Cultural Humberto Mauro exibiu semana passada “Amarelo Manga” e “Madame Satã”, dois filmes de temáticas contundentes, que causaram muitas controvérsias naqueles espectadores que resistiram no escurinho até o último segundo, antes do acender das luzes E foram poucos os que restaram até o fim: o que não é nada assim tão surpreendente diante da explícita crueza das duas obras. Isso me fez lembrar de uma semana de filmes alternativos em Juiz de Fora nos idos de 90. Recordo-me que, no último dia, quando projetaram “A lei do desejo”, de Pedro Almodóvar, quase todo mundo se retirou antes do final, restando apenas uns dois professores, mais uns três alunos “altenartivos” e apenas um casal mais idoso. Almodóvar incomodou, Almodóvar ainda incomoda pelo despudor e beleza ao expor temas polêmicos como o homossexualismo.
“A lei do desejo”, filme com alta dosagem de ironia kitsch e personagens exóticos, era mais suave pelo viés do humor. Já “Madame Satã” é um filme muito mais impactante pelo tratamento mostrado ao desvelar a vida de João Francisco dos Santos, um absoluto marginal. O personagem-título foi um homem vitimado por todos os tipos de preconceito que um ser humano pode sofrer: negro, pobre, analfabeto, homossexual. O diretor Karim Ainouz procura fazer com que seu personagem transcenda a condição de total excluído num mundo já em si excluído – o submundo da Lapa nos anos 30. Para isso, mostra um Francisco-Madame Satã que tem na suposta arte do canto um modo de purgar sua miserável condição de vida.
É primorosa a fotografia de Walter Carvalho ao explorar com alto potencial plástico o vermelho e o negro, desencadeando um permanente conflito entre as pulsões de Eros e Tanatos. Amor e morte perpassam toda a narrativa: o sangue e o sexo, o gozo e a dor, a sensualidade e o obscurantismo. Madame Satã é um personagem emblemático por sua rica imperfeição suja, o que faz lembrar o marginal Jean Genet, homossexual, bandido, mas principalmente um grande escritor, que fascinou Sartre. Apesar do choque que provoca em muitos espectadores, o filme de Karim Ainouz não eleva a questão homossexual como principal foco de análise, como bem disse no debate o dramaturgo Alcione Araújo. Vale mesmo é a evasão lírica.
“Amarelo Manga”, o segundo filme em debate, é obra totalmente crua, que remete à estética naturalista dos romances de Aluízio de Azevedo, como “Casa de pensão” e “O cortiço”. Nesse filme todos os personagens são reduzidos à sua limitada condição animal, pois sobrevivem unicamente para saciar a fome do estômago e do sexo. Ele perturba justamente por não apresentar saídas. Não há nenhuma espécie de evasão, todos os personagens vivem/sobrevivem num cotidiano amorfo, insosso, deserotizado, amarelo.
O que mais chocou a platéia, quase inteiramente feminina, foi o close de uma genitália também feminina e totalmente desnuda. Risadas tensas para cá, risadas muito irônicas para lá, retiradas rápidas de pessoas ofendidas. Creio que a ausência de sedução erótica foi o que causou de fato a reação de ojeriza em muitos. A cena choca por não ter nenhum conteúdo lírico – e seu proposito era justamente esse.
“Amarelo Manga” é um bom filme em sua totalidade. Tão bom que provocou até mesmo revisão de conceitos. Uma espectadora muito atenta e participante disse que, após o mergulho interior proporcionado por ele, iria sair do cinema mais “mudada”, mais madura, mais aberta para entender o mundo e compreender suas próprias limitações. Como nas palavras do dramaturgo Alcione Araújo: “Tudo o que pertence ao humano não nos deve ser estranho”.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
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