segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Que voltem os Festivais

Há alguns anos eu e um amigo fomos à casa do crítico e produtor musical Zuza Homem de Mello, em São Paulo. Objetivo: uma entrevista sobre a cantora Elis Regina. Muito gentil, Zuza nos recebeu com um sorriso nos lábios e um livro grosso nas mãos, escrito por ele: era a obra mais completa com relação à história dos grandes festivais da MPB.
Elis era a pauta, mas acabamos direcionando nosso bate papo para o tema Festival. Num misto de emoção, saudosismo e bom humor, Zuza nos confidenciava histórias fantásticas dos bastidores da canção, que nem sequer constavam de seu livro.
Encantados por sua fala, aproximávamos bastante o gravador para não perdermos nem um suspiro. Apesar do vigor com que ele nos passava informações preciosas, sentimos que o assunto Festival estava definitivamente enterrado na memória e no livro.
A lembrança deste dia me retorna justamente agora, enquanto confiro com os demais jurados as notas decisivas dos vencedores do Primeiro Festival SD’NET, de Santos Dumont.
Músicos de todas as partes e de vários gêneros disputaram os prêmios de melhor música, melhor letra, melhor arranjo e melhor intérprete. Muitos privilegiaram uma levada pop-rock, enquanto um número pequeno demonstrou a força do legado da boa MPB.
O Festival iniciou-se numa sexta feira agora de outubro e terminou no domingo, com a apresentação dos finalistas e um show de encerramento com o baixista Dudu Lima. O experiente maestro Sylvio Gomes era uma espécie de coordenador de nossa pequena equipe. Eu colocava a minha nota à caneta de maneira bem clarinha, e depois espiava a dele. Estávamos sempre em sintonia.
Um dos músicos que mais me impressionou foi o baiano Adriano Santhana. Concorrendo com duas composições próprias, levou o prêmio de melhor intérprete e de melhor canção por “Pedaços de mim”. Adriano me tocou desde o primeiro acorde, um violão preciso aliado a uma voz de timbre muito bonito.O cantor/compositor e instrumentista traz em sua interpretação de feitio “cool” a influência dos grandes da MPB como Caetano Veloso, Dorival Caymmi e João Gilberto.Avesso aos excessos, Adriano é o anti-expressionista por excelência.
“Fazenda Madalena”, de Roberto Ázis foi eleita a melhor letra e música do Festival. Embora o compositor seja de Três Rios, a canção é revestida de um certo clima de mineiridade ( não fora Três Rios na fronteira de Minas) que me remete ao mineiríssimo Fernando Brant: “Meu paraíso não tem a modernidade/Tem toda a simplicidade da luz de um lampião/ Carro de boi rangendo a beira da estrada/O canto da passarada, o pio da juriti/No fim de tarde os lampiões estão brilhando/Sapos e grilos cantando, meu paraíso é aqui/Café passado quente em coador de pano/ E do forno vai saindo uma broa de fubá/fogão de lenha, frango em panela de barro,/Gula, aqui não é pecado este é o meu lugar.”A atmosfera tranqüila do espaço interiorano também é construída no arranjo desta canção, que leva dois violões no estilo regional. Roberto Ázis é presença constante nos festivais de todos os cantos do país e sua maturidade advém do talento e da experiência.
Vale lembrar outro ótimo momento do festival, quando o, com licença da palavra “sandumonense” Martinho Caetano sobe ao palco com seus filhos para apresentar a canção “Amante Sideral”, de sua própria autoria. A música, que levou os prêmios de melhor arranjo e de melhor canção de Santos Dumont, é um blue “alto astral” que fala sobre uma paixão nos tempos da internet: “Eu já consigo copiar/Ver tua imagem em terceira dimensão/Já sou capaz de navegar na escuridão/On-line sinto teu gemido/E um hacker prisioneiro virtual/E as bandeirinhas coloridas San Juan/São Hds dançando enfim da Ham pro Hom/Plugar em teus slots/Beijar teu monitor”.
Destaco essas canções e esses artistas pelo impacto que me causaram. No entanto, haviam outros também muito talentosos, que ficaram de fora da premiação por absoluta falta de espaço. Como falou com muita propriedade o cantor e compositor Tânio César, de BH: “Os festivais são portas abertas para nós músicos independentes mostrarmos o nosso trabalho. Nós estamos fora da mídia e temos poucas oportunidades.”
Tânio está certíssimo. A grande era dos festivais dos tempos do Zuza, de fato, é coisa do passado. Mas nos tempos atuais em que os artistas se vêem massacrados pelas imposições da mídia, os pequenos festivais consistem em grandes portas. Que voltem os festivais!

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