MPB Ludificada
Juiz de Fora, noite quente de sábado nos idos de 1991. Eu comia batatas fritas com queijo e coca cola comum (naquele tempo não havia ainda a febre dos diets), enquanto papai tomava copos e copos de chope e vez ou outra dava uma beliscadinha na batata. Estávamos no extinto teatro São Mateus, aguardando o show do Lúdica Música. Na verdade quem esperava a surpresa era eu, pois papai já tinha visto no mínimo umas quatro vezes e ficava me incitando com sua nova descoberta musical.
Não demorou muito e o palco se tornou pequeno diante da grandiosidade do trio: Joãozinho da Percussão, Rosana Brito e Isabella Ladeira. O impacto visual guardo na memória até hoje: uma mulher muito grande e bela e dois baixinhos geniais. Levou poucos segundos para que essa primeira impressão passasse e desse lugar a uma alternância infinda de tamanhos, timbres, posições, suíngues e levadas. O grupo fazia jus ao nome que me seduziu tanto: a “base não era uma só”, mas uma mistura riquíssima de improvisações rítmicas, que era a encarnação original de uma estética carnavalizadora.
Nada de querer compará-los com os tropicalistas, Novos Baianos, sambistas e nem com os papas da MPB. O Lúdica Música nasceu com identidade própria, fruto de um mergulho antropofágico no que de melhor se produziu e se produz na música popular brasileira.
Mantendo-se com um trabalho independente dos apelos mercadológicos, o grupo comemora seus quinze anos de existência com o cd “Então eu canto e nem me lembro pra onde as coisas vão”. Rosana Brito e Isabella Ladeira, líderes da banda, cantoras, compositoras e instrumentistas, estão visivelmente amadurecidas. A bela voz de Isabella, mais para o agudo e com enormes potencialidades de expressão, faz contraponto com o timbre mais grave e o timing perfeito de Rosana. Esta é daquelas cantoras raras, Rosana “tem cabeça de músico”, como dizia o João Medeiros, que entendia tudo e mais um pouco sobre a boa MPB. Se me explico bem, cantoras com “cabeça de músico” são aquelas que não interpretam somente a canção, mas que são espécies de co-autoras. Acrescentam detalhes aqui, quebram o ritmo acolá, brincam com a segurança proporcionada por seus ouvidos privilegiados. Rita Lee e Roberto de Carvalho quando ouviram “Alô Alô Marciano”, na voz de Elis Regina, ficaram impressionados com os toques pessoais da Pimentinha.
Quase a totalidade das composições são de autoria das cantoras/compositoras mineiras, mas há também registros excelentes como “Enquanto a gente batuca” de Ivan Lins, Vítor Martins e Nei Lopes, “É ouro em pó” também de Ivan Lins e “Alma não tem cor” de André Abujamra. Além de ceder composições praticamente inéditas, Ivan Lins participa cantando e assinando o texto de apresentação.
O Lúdica Música esteve aqui em Cataguases, no Anfiteatro Ivan Müller Botelho, faz menos de um mês. Acompanhado pelo violão & voz de Rosana e pela voz e os múltiplos instrumentos percussivos de Isabella, o “Lúdica” trouxe dois novos integrantes que se incorporaram muito bem à sua sonoridade: Gutti Mendes (guitarra e vocais) e Gustavo Lira (bateria), jovens herdeiros do pop-rock, que, ao se fundirem com o legado MPB mais puro das artistas, devolvem ao ouvinte um som contagiante.
Como falou Rosana no meio do espetáculo: “Nós tocamos MPB, música popular boa. Tudo passa pelo nosso ludificador.” O ludificador devora, tritura e reconstrói preciosidades de Chico Buarque, Carlinhos Vergueiro, Geraldo Pereira, Lenine, Luiz Melodia, Tom Jobim, Monsueto, Caetano Veloso e outros e outros tantos.
Esses lúdicos músicos transformam qualquer espaço em alegria, com cara e cheiro de Brasil. Vale sempre reouvir a impecável interpretação que eles fazem da divertida canção “Procotólo” de Carlinhos Vergueiro: “É o procotólo/ É a cardeneta/ É a falcudade/ É o estaltuto/ É o fenônemo/ É o pogresso/E é sempre um crima/ E aí vareia/ E a largartixa/ Que é o pobrema/ Esta é que é a questã/ Quanto menas vezes falar dela/é melhor/com sastifação”. São raros os casos em que o intérprete supera o compositor, “Procotólo” ganha um colorido especial com esses músicos. A cumplicidade entre eles possibilita o improviso constante, a cada apresentação a música ganha um novo toque. Há quinze anos acompanhando-os nos “bailes da vida”, para mim a sensação que fica é de permanente inovação. O som se faz no calor da hora, eles brincam com os ritmos, as palavras e acima de tudo com o imaginário popular.
“Alma não tem cor” é uma canção que recebe tratamento especial do “ludificador”. Uma rumba arretada que dá vontade de sair dançando, mamãe eu quero ir a Cuba já: “Alma não tem cor/ porque eu sou branco/ Alma não tem cor/ porque eu sou negro/ Branquinho, neguinho, branco, negão/ Branquinho, neguinho, branco negão/ Percebam alma não tem cor/ela é colorida, ela é multicolor”.
No final do show artistas e platéia eram um arco-íris de alegria/energia. Por favor não confundam com a música da Xuxa. Acho que essa o Lúdica Música teria mesmo que passar num tradicional liquidificador.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
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